regra da recorrência explica a expectativa de que o cenário textual apresente um número limitado de objetos, ou personagens, ou eventos, pois espera-se que estes recorram no hipertexto e que essa recorrência seja marcada mediante vários mecanismos.

regra da continuidade temática permite a interpretação de elementos seqüenciais, separados, como estando relacionados por um mesmo tema: a unidade temática não constitui uma regra, mas determina a expectativa de que se um tema é abandonado para a introdução de um novo tema, eles devem estar relacionados, e a relação deve ser inferível ou materializada formalmente, ou ambos.

regra de linearidade materialização (no computador) dos elementos formais através de "nós", refletindo essa ordem natural.

Quanto mais o hipertexto se conforma a essas expectativas, mais automáticas serão as inferências que permitem as ligações de elementos. Quando não, haverá necessidade de desautomatização para compreender, e o hipertexto se tornará mais complexo, pois faz-se necessário relacionar, sem pistas, os antecedentes e os sucessores.

Esta regra orienta as estratégias através das quais o leitor constrói laços coesivos. Quando a ordem não é linear seqüencial, então a leitura se torna mais complexa e o hipertexto um instrumento disparador das habilidades metacognitivas.

As regras que regem as estratégias cognitivas funcionam não só a nível semântico, mas também a nível sintático, orientando o processo de segmentação do hipertexto.

    • Princípio da Coerência quando há interpretações conflitantes o leitor escolhe aquela que torna o hipertexto mais coerente em seu contexto.

regra da não contradição em casos de informações conflitantes o leitor escolhe aquela mais relevante ao desenvolvimento do tema, também supersede princípios locais.

As estratégias cognitivas funcionam a nível local do hipertexto, ou seja, na microestrutura. Constituem-se nos princípios e regras que orientam os processos inconscientes do leitor na reconstrução de laços coesivos entre elementos contíguos e seqüenciais no texto.

As estratégias metacognitivas funcionam a nível global do hipertexto, ou seja, na macroestrutura, permitindo o estabelecimento de relações entre unidades não contíguas no texto.

Quando o texto não corresponde às expectativas e crenças do leitor, quando ele é inesperado, é necessário que o leitor faça a monitoração consciente e a desautomatização de suas estratégias cognitivas rumo às metacognitivas para depreender a linha temática e compreendê-lo.

Ao desautomatizar as estratégias cognitivas o leitor ruma em direção a superestrutura do hipertexto, ou seja, a sua estrutura abstrata, que é formada por categorias recursivas, ou seja, o leitor faz várias recorrências ao hipertexto, realizando atividades de analogia, contraste e comparação, avaliação e prova informal, como se tratasse de círculos concêntricos onde cada círculo forma uma nova categoria para um círculo maior, onde o maior de todos seria o tema do texto.

Lévy (1996) descreve o mesmo processo utilizando a metáfora do "anel de Moebius", pois para compreender o leitor deve "recriar" o texto mentalmente e, portanto, entrar e sair de dentro dele num contínuo.

As categorias abstratas que são materializadas no hipertexto, através de imagens, gráficos, mapas, movimento ou som, são percebidas mais facilmente pelo leitor.

Na reconstrução de relações lógicas o processamento do texto pelo leitor é essencialmente de caráter cognitivo, mas quanto maior for a rede de ligações feita pelo leitor através do hipertexto, mais se fará necessário o controle ativo desse processo mediante as estratégias metacognitivas de manutenção de objetivos e monitorização e desautomatização do processo de compreensão.

Desta forma, o hipertexto em seu sentido mais amplo, potencializa o desenvolvimento de habilidades cognitivas e, principalmente, desencadeia o desenvolvimento das habilidades metacognitivas de compreensão na leitura.

 

4. Paradigmas e Funcionalidades

A leitura em contextos de sistemas hipermídia é fortemente influenciada pelo paradigma a partir do qual a navegação foi elaborada e pelas funcionalidades inseridas nas aplicações.

Ao se pensar em sistemas hipermídia stand-alone observa-se, quanto à evolução, que:

    • quando, em suas primeiras aplicações, os sistemas hipermídia reproduziam livros de forma eletrônica (Becker, 1997) seguindo um paradigma de linearidade, reforçavam principalmente a automatização das estratégias cognitivas do leitor, ficando somente a cargo do autor a criação de situações de desautomatização das estratégias cognitivas do leitor;
    • quando, em seguida, apoiavam-se no paradigma de redes semânticas (Pimentel,1997), desautomatizavam de forma descontrolada as estratégias cognitivas do leitor, ocasionando a desorientação, a sobrecarga cognitiva e a perda do contexto, impossibilitando-o de alcançar a superestrutura do texto ou a estrutura abstrata;
    • há pouco tempo, apoiando-se em mapas conceituais (Novak,1981) e na modelagem conceitual, as aplicações hipermídia permitem ao leitor uma navegação baseada numa estrutura semântica e com relacionamentos pré-estabelecidos entre as macroestruturas, possibilitando a automatização e a desautomatização de estratégias cognitivas de uma forma mais equilibrada. Desta forma o autor indica caminhos possíveis e variados, que não são todos supostos pelo leitor, que desautomatiza o processo ao seguir por caminhos inesperados.

As funcionalidades criadas para os sistemas hipermídia (Rezende, 1997) muito auxiliam o processo de navegação no que diz respeito aos princípios que guiam o processo inferencial do leitor:

    • o "índice" e a "excursão" respeitando a regra de linearidade;
    • a indicação de ligações através de "hotwords" ou "imagens" e a "tipagem dos nós" respeitando a regra da continuidade temática;
    • as "trilhas" e os "mapas" respeitando a regra da recorrência;
    • a criação de vários "contextos de navegação" oferecendo possibilidades diferentes de acordo com o objetivo do leitor, respeitando a regra da coerência.

 

5. Cibercultura, Hiperficção e Hiperweb

Com o desenvolvimento e utilização acelerados da telemática e das tecnologias cognitivas, surgiu uma nova cultura, utilizando novas formas de comunicação mediadas pelo computador, com novos padrões de comportamento e novas formas de interação: a cibercultura; que segundo Lévy (1996), está levando a humanidade a ressurgência da cultura do texto, como se a virtualização contemporânea realizasse o devir do texto.

A Web, segundo Keep e McLaughlin (1997) pode ser considerada como exemplo de um ilimitado hipertexto desestruturado, onde cada página é um nó, cada link leva a outras páginas num mesmo site ou a outros do mundo, constituindo a hiperweb.

Quando os nós contêm elementos de um trabalho literário, o hipertexto é considerado um site para criação artística ou de hiperarte ou hiperficção. A hiperficção constitui-se numa forma de trabalhar a narrativa no contexto da hipermídia, que possibilita grande flexibilidade, levando o leitor a envolver-se de forma contundente com o texto, determinando o desenrolar da estória, mudando finais, situações, personagens etc. Constitui-se num espaço de múltipla autoria, de indistinção e de mistura das funções de leitura e escrita.

Neste ambiente os leitores podem não apenas modificar as ligações, mas também acrescentar nós (textos, imagens etc.), conectar um hiperdocumento a outro , traçar ligações hipertextuais entre uma série de documentos. Segundo Lévy (1996) "os hiperdocumentos acessíveis por uma rede informática são poderosos instrumentos de escrita-leitura coletiva".

Na Web o leitor entra numa dimensão de interação com grandes possibilidades, penetrando em camadas escondidas de significados diferentes, com súbitas reviravoltas na narrativa e surpresas dramáticas, adicionando música, imagem etc.

 

6. Algumas Considerações

No ambiente Web o leitor deve fazer inferências a todo momento para relacionar sites e páginas. Além da atividade de leitura, o leitor também tem uma grande atividade de busca, seleção e recuperação de informações, pois como um grande hipertexto desestruturado, que vai crescendo desordenadamente, sem regras formais que padronizem os tipos de documentos e sem oferecer ao leitor o acesso a "metatextos".

Desta forma, o leitor penetra num ambiente no qual a navegação depende de seus objetivos, de seu contexto e de sua habilidade em definir palavras-chaves adequadas que possam lhe dar acesso aos textos que busca.

Na Web é muito comum ocorrrerem problemas de sobrecarga cognitiva, desorientação e perda de contexto devido a grande quantidade de inferências que o leitor deve fazer para relacionar partes num todo que não é coerente, nem organizado. De certa forma, o conhecimento prévio e o conhecimento do mundo do leitor encontram-se estruturados e, quando em confronto com um ambiente totalmente desestruturado, tem que tomar decisões a todo momento, com poucas pistas formais no hipertexto para auxiliá-lo. Necessita ser regido fortemente pelo princípio da coerência para que não perca o rumo da leitura.

O leitor também utiliza em demasia os mecanismos de apreensão rápida da informação visual, como scanning, para verificar se aquele site realmente se enquadra no tema que busca. Se é pertinente, o leitor faz uma pré-leitura seletiva (skimming) para obter uma idéia geral do site.

Os mecanismos de "recuperação da informação", oferecidos por alguns programas de busca, não são completos e adequados ao leitor, de forma que das informações recuperadas, poucas realmente estão de acordo com seus objetivos de busca.

Contudo, a navegação pela Web força o leitor a estabelecer objetivos e tomar decisões, desenvolvendo intensamente estratégias de controle e regulamento do próprio conhecimento, sempre decidindo e refletindo.

Para se preservar, o leitor utiliza bastante o reconhecimento instantâneo e a inferência a partir da visão periférica (sacada) para não sobrecarregar os mecanismos da memória imediata, selecionando muito rapidamente os materiais trazidos intensamente para o cérebro processar.

Os sites e hipertextos da Web, atualmente, possuem uma forte sobrecarga de inputs visuais e auditivos, forçando o leitor a usar em demasia os processos analíticos de procura de significado.

Quanto mais o leitor consegue definir seus propósitos de leitura independente, utilizando seu conhecimento prévio, mais habilidades de leitura desenvolve na Web, onde são constantes as situações de verificação, confirmação ou refutação e revisão de suas hipóteses. O processo de leitura vai se tornando consciente e autocontrolado pelo leitor, refinando e enriquecendo seu conhecimento. As estratégias metacognitivas, então, são fortemente exploradas e requisitadas para monitoração da própria leitura.

O leitor necessita utilizar em demasia a regra de recorrência mediante mecanismos que marquem seus caminhos de navegação e os armazene.

Nos hipertextos da Web as ligações costumam ser temporárias e sempre atualizadas, de modo que as marcas formais, as vezes não são materializadas, quebrando a regra da continuidade temática, exigindo maior esforço cognitivo do leitor.

Nem sempre os nós hipertextuais da Web respeitam o princípio da canonicidade, não refletindo na linguagem a ordem natural das coisas e as expectativas do leitor, forçando em demasia a desautomatização da leitura ocasionando sobrecarga cognitiva.

O princípio da coerência e a regra da não contradição são muito exigidos nos hipertextos da Web, pois o leitor tem que fazer escolhas, a todo momento, das informações mais relevantes para seu contexto e de acordo com sua visão de mundo.

É necessário muita pesquisa nesta área ainda tão desconhecida, para que se possa oferecer, tanto ao autor como ao leitor, oportunidades de livre expressão e de comunicação, características essenciais para o desenvolvimento de leitores críticos e engajados na realidade, sem contudo criar "camisas de força" ou perda de objetivos e de contexto na leitura.

 

7. Bibliografia

BARRETT, E. (1989) Thought and language in a virtual environment. The Society of Text: Hypertext, Hypermedia, and the Social Construction of Information. MITPRESS.

 

BECKER, H.S. (1997) A new art form:hypertext. How to read a hypertext fiction. Cambridge.

 

BUSH, V. (1945) As we may think. The Atlantic Montthly.

 

CARLSON, P.A. (1990) "Square books and round books: cognitive implications of hypertext". Academic Computing, 4, pp.26-31.

 

KEEP,C. & McLAUGLIN,T. (1996) The eletronic labyrint. http://www.ibl.pt/ibl/bn/apontadores/livros/hipertexto.htm .

 

KLEIMAN, A . (1989) Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. São Paulo: Pontes.

 

LÉVY, P. (1996) As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática.. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34.

 

NOVAK, J.D. (1981) Uma teoria de educação. São Paulo: Ed. Pioneira.

 

PIMENTEL, M. G. (1997) MAPHE: Metodologia de apoio a projetos de hipertextos educacionais. Anais do VIII Simpósio Brasileiro de Informática na Educação. São José dos Campos: novembro.

 

REZENDE, L. et al. (1997) Desenvolvimento de um sistema hipermídia stand alone: um relato de experiência. Monografia do Curso de Mestrado. Rio de Janeiro: UFRJ.