METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EDUCATIVO:
APLICAÇÃO EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL E MICROINFORMÁTICA
Roberto Jardim Cavalcante
SQSW 102 – Bloco I – Ap. 501 / Brasília-DF
Tiago Saddi Domingues
QRSW 2 – Bloco A-8 – Ap. 201 / Brasília-DF
Correio-eletrônico: tsaddi@stj.gov.br ou rjardim@admass.senado.gov.br
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APRESENTAÇÃO
O presente trabalho objetiva a demonstração da aplicabilidade de uma metodologia para o desenvolvimento de softwares educativos. Tal metodologia foi utilizada em duas áreas de conhecimento distintas: a educação ambiental e a microinformática. Para tanto, foram desenvolvidos os softwares "O Lago Paranoá" e "Curso de Word 97", que se encontram em um CD-ROM, anexo a esta exposição.
Para esta demonstração, os autores enfatizam
os fundamentos teóricos dessa metodologia, demonstrando o seu uso
inovador em processos de educação a distância. Com
fim último, os autores pretendem mostrar a potencialidade de utilização
desse recurso na disseminação de conhecimentos também
em espaços não convencionais de ensino, pela possibilidade
de auto-aprendizagem, respeitando as particularidades do sujeito-aprendiz.
INTRODUÇÃO
Com o advento da informática e a evolução do hardware e das ferramentas de software surgiu uma nova técnica que revolucionou o processo de ensino/aprendizagem: a auto-instrução, que possibilitou a veiculação de uma vasta gama de informações de forma mais barata e dinâmica do que os métodos de educação convencionais.
Aliada à tecnologia de auto-instrução surgiu a multimídia, integrando recursos de texto, som, imagem e outras formas de apresentação da informação como fator motivacional ao estudante.
Seguindo essa tendência de disseminação da informação os autores propuseram a elaboração de um software instrucional – comumente chamado de courseware – utilizando recursos de multimídia, como parte integrante da tese de graduação do curso de Bacharelado em Ciências da Computação na Universidade de Brasília - UnB. Trata-se de um curso básico na área ambiental, versando mais especificamente sobre o Lago Paranoá, localizado na cidade de Brasília - DF.
Após a conclusão desse software, os autores firmaram uma parceria com a UnB e a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos – FINATEC, visando o desenvolvimento de softwares educativos voltados à área de microinformática. Derivado dessa linha de atuação nasceu o "Curso de Word 97", que visa a capacitação dos alunos na utilização de um dos softwares de edição de texto existentes no mercado, produzido pela Microsoft.
A parceria supracitada pôde se concretizar devido aos esforços da FINATEC – o agente fomentador de vários projetos científicos e tecnológicos – e a UnB, que, mediante a atuação dos tutores de seu Centro de Educação Aberta, Continuada e a Distância (CEAD), presta o atendimento a distância a alunos que tiverem dúvidas de conteúdo.
Além do caráter acadêmico, a parceria
também tem caráter comercial, o que conclui a demonstração
de que a metodologia é aplicável inclusive para projetos
educacionais em consonância com o mercado. Conseqüentemente,
além de disseminar o conhecimento de modo mais rápido que
o convencional, a Universidade pode, inclusive, investir os recursos advindos
do resultado comercial em outros projetos educacionais.
METODOLOGIA DE TRABALHO
Em seu "Estudo de Requisitos para Construção
de Software Instrucional", Franco afirma que a preparação
de um software instrucional requer, além das preocupações
didáticas comuns a qualquer outro curso, um tratamento especial,
seguindo certas etapas, conforme a figura abaixo: [1]
Figura 1 - Etapas de desenvolvimento de um curso instrucional
Vejamos com mais detalhes as atividades a serem desempenhadas
em cada etapa:
Uma vez decidida a elaboração do software, baseada em critérios de oportunidade, necessidade e, obviamente, viabilidade de produção, parte-se para a descrição e hierarquização de todo o conteúdo do curso, delimitando a abrangência do mesmo. Assim, temos o curso dividido em módulos de aprendizado.
Outro objetivo desta etapa é a análise do
público ao qual se destina o produto. Dependendo da faixa de público
que se quer atingir, o nível de conhecimento prévio sobre
o assunto pode variar. Assim, o levantamento é útil na medida
em que possibilita a adequação da linguagem do curso ao público-alvo,
buscando uma melhor forma de transmissão da instrução.
O curso deve ter objetivos a alcançar. Cada módulo delimitado na etapa anterior deve também ter seus próprios objetivos, que são melhor delineados na medida em que especificamos o que o aluno deve ser capaz de realizar ao término da instrução.
É função desta etapa descrever claramente todos os objetivos a serem alcançados pelo curso, partindo dos mais gerais para os mais específicos.
Estabelecidos os objetivos, a tarefa de elaborar testes
acaba sendo facilitada.
Conhecendo os objetivos gerais e específicos do curso, a divisão sucessiva dos módulos em unidades e capítulos se torna simples. Essa é uma das tarefas desta etapa. Logo após, procede-se a um detalhamento minucioso de todo o conteúdo de cada capítulo, incluindo a seleção dos recursos instrucionais (p. ex., som e imagem).
Ainda nesta etapa a avaliação do conteúdo
é projetada, levando em consideração o produto da
etapa 2. O tipo e a quantidade de questões contidas na avaliação
de cada capítulo também devem ser especificados.
.
Aqui é estabelecido o padrão visual das telas presentes na estrutura do curso, mediante diagramação em folhas de papel apropriadas. A partir da diagramação, inicia-se a implementação do projeto visual do curso.
Em um projeto comum de software instrucional destacam-se
as seguintes telas: de menu de opções (ou principal), de
entrada, de apresentação de conteúdo, de testes e
de ajuda.
Nesta etapa são usadas ferramentas de software
apropriadas para "dar vida" ao projeto. Aqui o material instrucional colhido
como fruto da etapa 3 é transformado em software instrucional, levando
em conta o projeto visual previsto na etapa 4.
A validação gera um documento que dá
início à revisão, ocasião em que os erros encontrados
são sanados e, eventualmente, algumas sugestões são
acolhidas, visando o aprimoramento do produto final. E, finalmente, ao
final da etapa de revisão, tem-se o curso concluído e pronto
para ser implantado.
APLICAÇÃO DA METODOLOGIA
Uma vez apresentadas as etapas da metodologia, passar-se-á
à descrição dos efeitos da aplicação
da mesma sobre o processo de elaboração dos dois softwares
em tela. Antes disso, porém, será apresentado um breve resumo
descritivo dos mesmos.
Courseware "O Lago Paranoá"
No primeiro módulo o software apresenta, com a utilização de recursos interativos, alguns conceitos relativos a ecossistemas, tratando de assuntos como, por exemplo, as cadeias alimentares, os ecossistemas, a fotossíntese e a energia produzida pelas plantas, dentre outros. No módulo seguinte, o Lago Paranoá é inserido no contexto do curso, mediante a apresentação de dados relativos à sua origem, bem como uma série de dados geográficos. A partir deste ponto o curso, em seu terceiro módulo, apresenta os componentes do ecossistema do Lago Paranoá, ou seja, suas características físicas e químicas e os seres vivos que nele habitam.
Uma vez que o estudante esteja familiarizado com os termos biológicos, expostos no primeiro módulo, e conheça melhor o Lago Paranoá (módulos segundo e terceiro), o curso passa finalmente a apresentar os problemas que circundam o ecossistema (quarto módulo), bem como as possíveis soluções visando sua melhoria (quinto módulo). Com isso, o conteúdo programático não visa somente a INFORMAÇÃO do aluno, mas, principalmente, sua FORMAÇÃO.
O conteúdo é transmitido por meio de uma série
de recursos audiovisuais, utilizando mapas, perguntas, testes intermediários,
avaliações e instruções ministradas na forma
de diálogo, demonstrando assim a característica essencialmente
interativa do curso. E a interação, nos dizeres de Chacón
[2], constitui-se em um dos processos fundamentais no comportamento dos
estudantes no processo de ensino/aprendizagem. A interatividade é
conferida pelos testes propostos, que viabilizam a exercitação
dos conhecimentos adquiridos.
A escolha do tema do trabalho decorreu do mandamento constitucional contido no art. 225, inciso VI, segundo o qual é incumbido ao Poder Público a tarefa de "promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente". A importância de se implementar esse conteúdo em meios computadorizados justifica-se na medida em que vários tópicos podem ser mais bem explicados se forem utilizados recursos audiovisuais. Esses recursos levam até o aluno uma importante característica em processos de ensino/aprendizagem: o FATOR MOTIVACIONAL.
Baseado em um roteiro traçado pelo Departamento de Ecologia da
UnB, passou-se à hierarquização do conteúdo.
Simultaneamente, um questionário foi aplicado a 50 alunos de escolas
públicas do DF, visando determinar o nível dos alunos para,
com isso, adequar o vocabulário do curso ao seu público-alvo.
B2 – Especificação de Objetivos
Determinou-se o que o aluno deveria aprender em cada módulo,
norteando os testes existente ao final de cada um deles.
B3 – Planejamento
Aqui foram detalhados os módulos do curso, que são: Lagos
e Ecossistemas, Origem e História, Ecossistema do Lago Paranoá,
Problemas e Soluções. Cada um deles foi subdividido em lições.
Foram projetados também os testes de cada módulo.
B4 – Desenvolvimento
Em papéis representando a tela do computador, foram planejadas
as seguintes telas: de menu de opções, de apresentação
de conteúdo e de testes. Para não demandar maiores esforços
de programação visual, foram utilizados ícones e botões
já disponíveis pela ferramenta de programação.
B5 – Programação
Para a implementação do curso, foi utilizada a ferramenta
de autoria "Toolbook versão 1.53", da Asymetrix.
B6 – Validação e Revisão
Por fim, o curso foi submetido a uma turma-piloto para efeito de validação.
Nesta ocasião, alguns erros de programação foram apontados
e sugestões para aperfeiçoamento foram apresentadas, sendo
algumas das quais implementadas. Após sanar os erros, o curso foi
considerado pronto para ser aplicado.
Curso de Word 97
Trata-se de um curso de nível básico e intermediário na área de microinformática que objetiva o ensino da manipulação do editor de texto Word 97. Ao final do curso, o aluno deverá ser capaz de criar seus próprios textos e tabelas, fazer correções ortográficas, inserir figuras e enfim, elaborar documentos e relatórios. Como tal, destina-se a quaisquer pessoas que queiram aprender a utilizar editores de texto, independentemente da idade. São necessários apenas conhecimentos básicos de microinformática, mais especificamente sobre o ambiente Windows.
A estrutura das unidades do curso possibilita que o aluno desenvolva o aprendizado do genérico para o mais específico. Recomenda-se que o aluno iniciante siga seqüencialmente a ordem apresentada de unidades e capítulos, visando uma melhor compreensão do conteúdo. Porém, as pessoas que já tenham alguma familiaridade com o Word 97 poderão seguir a ordem que desejar.
Uma grande diferença entre este curso e o do Lago Paranoá diz respeito à forma de uso do produto: o curso de Word 97 possui estrutura de tutoria a distância, mantida pelo CEAD/UnB, enquanto o courseware do Lago Paranoá pressupõe o apoio didático do professor.
O processo de educação à distância do curso de Word está baseado na trilogia material didático auto-instrucional – tutoria – avaliação.
O material didático auto-instrucional é representado pelo curso.
A tutoria do curso de Word 97 pode ser demandada por fax, correio-eletrônico ou carta. Para facilitar o atendimento dessa tutoria, o curso foi estruturado em unidades, capítulos e páginas, de modo que o aluno e o tutor possam se interagir com mais facilidade.
A avaliação de cursos interativos a distância na área da microinformática é um assunto complexo. Neste curso, considera-se apto o aluno que passar por todas as páginas do curso. Neste caso, o mesmo fará jus a um certificado de extensão universitária.
O processo de avaliação foi elaborado da seguinte forma: o aluno adquire o curso. O curso contém dois formulários contendo um número de inscrição único para cada aluno. Esses formulários são a ficha de inscrição, que deve ser enviada ao CEAD, de modo a permitir que o aluno obtenha a tutoria e a ficha de certificação, que deve ser enviada ao término do curso.
Ao longo do curso o aluno desenvolverá tarefas contidas em cada página do curso. Quando o aluno tiver percorrido todas as páginas do curso desenvolvendo todas as atividades propostas, ele estará apto a pedir a certificação a tutoria, utilizando a ficha de certificação. Assim, para que o aluno receba a certificação, ele deverá percorrer 100% das atividades propostas. Neste caso, bastará clicar sobre um ícone específico que lhe fornecerá os dados necessários ao preenchimento da ficha de certificação. Estes dados são baseados no número de inscrição do aluno.
O curso contém também três minitutoriais para aprendizado
do uso do mouse, do teclado e outro para aprender a percorrer o curso.
Os dois primeiros minitutoriais visam o aprimoramento da coordenação
motora do aluno no uso do teclado do computador e do mouse – além
explicarem o funcionamento desses dispositivos.
A necessidade do treinamento surgiu da carência de treinamento da população em microinformática. A hierarquização do conteúdo foi baseada em livros relacionados ao assunto[3].
O uso do curso sobre o editor de texto Word 97 pressupõe que
se tenha conhecimentos básicos sobre o uso do computador, e sobre
o ambiente do Windows. Ainda assim, foram desenvolvidos minitutoriais para
auxiliar o aluno a utilizar corretamente o mouse e o teclado, de modo a
incrementar seu desempenho.
B2 – Especificação de Objetivos
Determinou-se o que o aluno deveria aprender em cada unidade, norteando
as atividades a serem desenvolvidas durante o curso, de modo a validar
o conhecimento para a certificação do aluno. Não foram
elaborados testes ao final de cada capítulo, visto que o o software
possui um sistema capaz de verificar se o aluno percorreu todas as páginas
do curso – fazendo de forma automática a validação.
B3 – Planejamento
Aqui foram detalhadas as unidades do curso, que são: Conhecimentos
Básicos, Revisando Documentos, Formatando Documentos, Formatando
e Imprimindo, Tabelas e Gráficos, Ajustes Suplementares, Tópicos
Adicionais I e Tópicos Adicionais II. Cada unidade foi subdividida
em capítulos. Nesta etapa foram projetadas também as atividades
a serem desempenhadas em cada unidade e capítulo.
B4 – Desenvolvimento
Em papéis representando a tela do computador, foram planejadas
as seguintes telas: de entrada de cadastro de menu de opções,
de conteúdo, de certificação, de dicas de glossário,
de anotações pessoais, da aula de mouse (tela a tela), de
teclado e de navegação (tela a tela). Foram projetados ícones,
botões e telas para o curso.
B5 – Programação
Para a implementação do curso, foi utilizada a ferramenta
de autoria "Toolbook versão 4.0", da Asymetrix, e o Sistema de Gerenciamento
de Banco de Dados Paradox.
B6 – Validação e Revisão
Por fim, o curso foi submetido a uma turma-piloto para efeito de validação.
Nesta ocasião, erros de programação foram apontados
e sugestões para aperfeiçoamento foram apresentadas, sendo
algumas das quais implementadas. Após sanar os erros, o curso foi
considerado pronto para ser aplicado.
CONCLUSÃO
Após a apresentação expositiva dos dois softwares,
pôde ser comprovada e validada a aplicação do método
acima descrito. Logo, depreende-se que, baseada na metodologia exposta,
a conjugação de conhecimentos multidisciplinares entre as
áreas de educação, computação, programação
visual e a área de conhecimento que se quer disseminar, qualquer
equipe é capaz de produzir softwares auto-instrucionais.
REFERÊNCIAS
[2] CHACÓN, F.J. "Medios de Computación para la Educación a Distancia". Universidad Nacional Abierta, Caracas, Venezuela, 1991.
[3] WANG, W. "Microsoft Office 97".
Editora Berkeley Brasil 1997.