"As Ajudas Técnicas na estimulação cognitiva de traumatizados crâneo-encefálicos"

Maria Eulália Ribeiro Cordeiro
Fernanda Margarida Arrobas da Silva
Cantic - Escola Secundária de Sacavém,
email: cantic @ email telepac.pt


 
 

Resumo

As ajudas técnicas com saída de voz, poderão ser um recurso facilitador da reabilitação cognitiva da pessoa com Traumatismo Craneo - encefálico grave, pela conjugação de uma estimulação ao nível da percepção visual e auditiva quando devidamente mediatizada e enquadrada em situações de vivências significantes para a pessoa.

Neste trabalho é referido um estudo experimental, em situação de integração no ensino secundário, de uma jovem com traumatismo temporo-parietal direito severo, com marcadas sequelas ao nível da memória de curto prazo

É aplicada, em situação de trabalho individual, uma estimulação perceptiva visual e auditiva com recurso a uma ajuda técnica com saída de voz - Alpha Talker - em estreita articulação com o trabalho na sala de aula e na família
 

Introdução

Os traumatismos craneo-encefálicos, pelo seu impacto em estruturas nobres do sistema nervoso central, deixam sequelas, na maioria das vezes irreversíveis, nas funções cognitivas impedindo a pessoa traumatizada de conseguir uma reintegração quer ao nível escolar, quer de trabalho quer, no sentido mais lato, da própria sociedade.

Frequentemente e após uma reabilitação adequada, conseguem-se recuperações surpreendentes nomeadamente a nível motor, contudo alguns aspectos do funcionamento cognitivo nomeadamente as funções da memória, do poder de decisão, da capacidade de interagir em grupo,...., são, muitas das vezes, aspectos da reabilitação menos conseguidas.

Embora a gravidade das sequelas dependam da localização, da extensão e gravidade da lesão, importa um acompanhamento alargado no tempo e um ambiente ecológico de intervenção próximo da realidade significante do traumatizado, para que a reabilitação a este nível possa acontecer.

A escola, tem normalmente muita dificuldade de lidar com estes casos e de, em situação de sala de aula / de trabalho de grupo, conseguir promover melhorias funcionais e académicas.

Por outro lado, inserir estas crianças/jovens em situação de ensino especial institucionalizado interagindo com situações de deficiência mental profunda, não parece ser o ambiente mais estimulante para esta reabilitação. A alternativa de ficar em casa parece-nos ser também uma estratrégia de recurso e não de investimento reabilitativo/reeducativo. Resta-nos a escola e se possível a escola que o aluno frequentava antes do acidente, pelo significado que este local poderá ter para esse aluno.

A integração de alunos com este tipo de patologias, requerem da escola, da família e das estruturas de apoio especial, um esforço coordenado e um investimento ao nível dos recursos humanos e dos equipamentos, adequados à problemática de cada caso.

Requerem também, a existência de uma metodologia de intervenção flexível e simultaneamente sistematizada e coerente, capaz de se autoreformular de acordo com os progressos ou não progressos do aluno.

É neste sentido que apontamos para a existência de uma intervenção específica ao nível das funções cognitivas mais afectadas e que são impeditivas da aprendizagem ou de um relacionamento harmonioso e simultaneamente apostamos num ambiente de escola/turma, estimulante ao nível das aprendizagens e do relacionamento.
 

Caracterização: Alguns aspectos

Nota:

Esta aluna tinha completado o 11º ano, com sucesso na altura do acidente.
 
 

Estratégia de intervenção: Aspectos gerais:

Metodologia (Sessões individuais)

Sessões individuais de 1 hora, com a periodicidade de 3 vezes por semana, tendo por base:


 

Objectivos:

Melhorar a memória de curto prazo

Melhorar a capacidade de estabelecer e interiorizar, de uma forma continuada, as relações recentes

Reestruturar noções temporais e espaciais

Melhorar a capacidade de sequencializar diálogos / raciocínios / vivências

Melhorar iniciativa na procura de informação

Promover autonomia na realização de pequenos trabalhos escritos.

Estimular a comunicação verbal

Estimular a associação de ideias

Identificar acontecimentos da sala de aula, dando-lhe significado inserido num contexto temporal
 
 

Actividades: Alguns exemplos

Metodologia de avaliação

Ao longo deste estudo, que se perspectiva para um período de 3 anos, recorre-se a uma:

  1. Avaliação informal, baseada numa observação e registo com enfoque em comportamentos pré--definidos
  2. Registo de acidentes críticos com enquadramento a nível dos antecedentes e consequentes imediatos
  3. Entrevista ao neurologista com recolha de resultados a nível de uma observação especializada a este nível
  4. "Follow up" feito através de reuniões de avaliação, questionários e entrevistas aos professores e pais da aluna.