SOFTWARE COMUNIQUE - SOFTWARE DE COMUNICAÇÃO

Miryam Bonadiu Pelosi
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O objetivo desse trabalho é o de apresentar o software Comunique desenvolvido pôr uma terapeuta ocupacional com o objetivo de trabalhar a comunicação alternativa e aumentativa de pessoas portadoras de dificuldades motoras graves.

A necessidade de construção de uma ferramenta auxiliar surgiu na prática clínica com pessoas motoramente muito comprometidas. A utilização de pranchas, álbuns e fichários estava sendo insuficiente para o desenvolvimento do trabalho, o que levou a autora a pensar na construção de um comunicador, tarefa nada fácil considerando que o projeto desse comunicador artesanal passou a ser tão sofisticado quanto o de um computador. Pensava-se em uma solução que pudesse ser genérica considerando-se as diferenças individuais em cada caso. Foram realizadas algumas tentativas mas, a sua sofisticação tornou o projeto inviável e ele nunca foi concluído.

Um programa de computador surgiu mais tarde como uma solução mais viável. No início o Comunique era bastante simples. Sua apresentação constava de uma tela padrão com seis elementos e a única forma de escaneamento era a varredura de célula pôr célula com uma velocidade constante. O escaneamento era feito pôr um acionador externo que utilizava a porta do joystick para comunicação.

Logo o Comuniq Desenho, como era chamado, mostrou-se insuficiente. Alguns usuários não conseguiam trabalhar com seis informações na tela e para outros essa quantidade era extremamente pequena.

O segundo software criado foi o Comuniq Scan. Essa versão ainda feita para DOS possibilitava o uso de letras e palavras. As telas já possuíam uma flexibilidade quanto ao número de células e o tamanho e o tipo da letra podiam ser modificados. O escaneamento podia ser feito através da varredura pôr linhas ou colunas além da tradicional, de célula pôr célula. A programação ainda era feita através de um editor de texto e não era possível a manipulação de imagens.

É importante assinalar que na elaboração de um software a tarefa de determinar como ele vai se apresentar para o usuário é extremamente complexa. Considerando que neste caso o usuário tinha idades que variavam entre 3 e 80 anos; alguns eram alfabetizados e outros dificilmente alcançariam essa condição; alguns sem nenhuma dificuldade visual e muitos com visão subnormal; uns necessitando do software como recurso para comunicação oral e outros para comunicação escrita foi preciso muito trabalho para que o Comunique assumisse a forma atual.

Além disso não era suficiente que o Comunique parecesse simples para o usuário final, o portador de deficiência mas, o terapeuta, o professor ou o familiar também deveriam ter facilidade para utilizá-lo.

Após 3 anos de uso os softwares foram totalmente refeitos. A versão atual utilizou para o seu desenvolvimento o programa Visual Basic. Essa versão que englobou o Comuniq Desenho e o Comuniq Scan foi desenvolvida para Windows 95 e toda a sua programação pode ser realizada na própria tela utilizando os recursos audiovisuais e interativos da plataforma do sistema operacional Windows.

Na prática viabilizou que pessoas com pouca familiaridade com o computador pudessem desenvolver programas personalizados.

Durante os dois anos seguintes, 1995 e 1996, foram desenvolvidas centenas de telas a partir da necessidade de aproximadamente 40 pacientes da clínica. O software foi usado como instrumento para o desenvolvimento da comunicação alternativa de pessoas com dificuldades motoras graves e com potencial de comunicação, cognição, visual e motor bastante diversos. Os quadros mais comuns eram o de paralisia cerebral, traumatismo craniano, lesão medular e acidente vascular cerebral.

O Comunique mostrou-se uma ferramenta muito versátil para a avaliação pois, sendo um software dinâmico as suas alterações podiam ser realizadas de maneira muito simples e rápida durante o trabalho com o usuário. Como as telas não estavam prontas, essas podiam ser construídas de maneira adequada ao que se estava pesquisando.

O software permitia diferentes possibilidades de acesso através do uso dos periféricos do próprio computador como o teclado, mouse, joystick ou, como mais frequentemente acontecia, através de recursos mais sofisticados como a tela sensível ao toque ou acionadores externos de pressão, tração, sopro, voz, entre outros.

Outras possibilidades de ajuste diziam respeito ao número de informações na tela que podia variar de 1 a 64 células; o tamanho e tipo de letras e a construção de telas em alto contraste com letras brancas em fundo preto ou letras pretas em fundo amarelo, só para dar alguns exemplos.

Os símbolos podiam estar organizados em uma mesma tela ou podia ser feito um encadeamento de telas onde o usuário teria autonomia para navegar entre elas. O software permitia ainda cinco diferentes maneiras de escaneamento, controle da velocidade de escaneamento e controle do tempo.

Conhecendo melhor o usuário a indicação desse recurso ou de qualquer outro tornava-se muito mais simples e o percentual de acerto maior.

O Comunique tornou-se, por um lado, um software de comunicação abrangente que pode ser personalizado para seu usuário considerando, suas possibilidades e interesses e, por outro lado, uma ferramenta de avaliação em um país onde a maior parte da população vai precisar de um instrumento mais simples e infinitamente mais barato que um computador, como auxiliar no seu processo de comunicação.

Até meados de 1997 todo o trabalho realizado com o Comunique havia sido desenvolvido na clínica. A partir dessa data quando a autora já integrava o grupo de estudos sobre comunicação alternativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como aluna do Mestrado de Educação, o software passou a ser utilizado em outros projetos de pesquisa, agora na área de educação.