A FORMAÇÃO DO PROFESSOR: ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO
NO PROCESSO DE RECONSTRUÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA

Maria Elisabette Brisola Brito Prado
bprado@turing.unicamp.br

Maria Cecília Martins
cmartins@turing.unicamp.br

Núcleo de Informática Aplicada à Educação – NIED
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
Campinas, São Paulo, Brasil
Tel: (019) 788-7350 e 7888136 - fax :(019) 2394717


Este artigo apresenta uma experiência de formação de professor na área de informática na educação que contempla, além do espaço/tempo de um curso, a dimensão do contexto do dia a dia do professor. Nesse enfoque, a intervenção do formador se amplia na busca de novas estratégias e na criação de atalhos que possam favorecer a reconstrução da prática pedagógica do professor no uso da informática na educação.
 


Introdução

A formação de professor em informática na educação vem ocorrendo, na maioria das vezes, através de cursos de capacitação de um número x de horas , que se desenvolvem na própria instituição de ensino, em universidades e centros de informática. Estes cursos são extremamente importantes e necessários para a implantação da informática na escola, mas nem sempre são suficientes em termos de propiciar mudanças reais no contexto da prática do professor.

Por essa razão a formação do professor em informática na educação precisa ser vista além do espaço/tempo do curso, contemplando nesse processo a dimensão do contexto do dia a dia do professor. Nesse enfoque a preparação do professor envolve muito mais do que ele aprender a lidar com as ferramentas computacionais. O professor também precisa aprender a recontextualizar o uso do computador, integrando-o às suas atividades pedagógicas. Isto significa que o processo de formação deve propiciar ao professor construir novos conhecimentos, relacionar diferentes conteúdos e reconstruir um novo referencial pedagógico.

Entretanto, a grande dificuldade do professor em formação é a reconstrução da sua prática pedagógica, principalmente quando os pressupostos educacionais que orientam o uso do computador se diferem da concepção de ensino e aprendizagem do sistema da escola. A visão educacional tecnicista do sistema da escola privilegia o ensino através da instrução e a aprendizagem do aluno através de um produto (padronizado). Já abordagem construcionista que fundamenta o uso do computador enfatiza a aprendizagem, através das interações e o processo de construção do conhecimento do aluno na elaboração de um produto que lhe seja significativo.

A medida que o professor reflete sobre a sua prática e compreende os princípios da abordagem construcionista, ele modifica a sua ação pedagógica. De forma que o ensino não desaparece, mas toma uma nova dimensão e o produto passa a ter uma conotação diferente. O produto passa a ser visto como um meio para refletir e depurar o processo de ensinar e aprender.

Nessa perspectiva, a questão é como preparar o professor para que ele possa integrar o uso do computador, baseado na abordagem construcionista com os conteúdos curriculares, na sua vivência - na sua realidade. A realidade de uma instituição de ensino se constitui de uma estrutura, uma organização de tempo, espaço, uma grade curricular, que muitas vezes dificulta o desenvolvimento de uma nova prática pedagógica. São as amarras institucionais que refletem nas amarras pessoais. Portanto, não basta o professor querer mudar. É preciso alimentar a sua vontade de estar construindo algo novo, de estar compartilhando os momentos de dúvidas, questionamentos e incertezas, de estar encorajando o seu processo de reconstrução de uma nova prática. Uma prática reflexiva onde a tecnologia possa ser utilizada no sentido de reverter o processo educativo, que se expressa de forma agonizante na sociedade atual.

Atualmente, esse aspecto da formação do professor tem sido uma das preocupações dos pesquisadores do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Unicamp que atuam nessa área. Uma forma de intervir no processo de reconstrução de uma nova prática pedagógica tem sido através da formação em serviço. Nessa proposta de formação os cursos são, geralmente, realizados no laboratório da própria instituição e o trabalho dos professores em sala de aula com seus alunos são acompanhados pelos formadores. Nesse processo de formação, o professor também aprende no seu contexto (considerando as especificidades da realidade) a integrar o uso do computador nas atividades pedagógicas.

Para Valente (1997), esta formação se caracteriza pela construção contextualizada do conhecimento (da prática do professor). Essa fase do processo de formação se constitui de um trabalho compartilhado (formador e professores em formação), que envolve "estar junto" com o professor, considerando as especificidades do seu do seu dia-a-dia. "Estar junto" na busca de caminhos possíveis para o uso integrado do computador com os conteúdos curriculares, seja através de um tópico especifico e/ou de um tema aglutinador de vários conteúdos. "Estar junto" na criação de dinâmicas possíveis de trabalho com os alunos, analisando os aspectos da aprendizagem dos alunos e da prática pedagógica que está sendo reconstruída.

Nesta perspectiva de formação de professores, 2 (duas) pesquisadoras do Nied começaram a desenvolver um trabalho com 5 (cinco) professoras que atuam nas primeiras séries (1a a 4ª série) do 1º grau no Programa de Integração e Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Prodecad, que se desenvolve na Unicamp. O processo de implantação da informática nesse contexto e a formação dos profissionais tem acontecido de forma "particular". Por essa razão, as formadoras vêm analisando o processo de preparação das professoras, buscando novas estratégias de intervenção. São alguns desses aspectos que serão apresentados e discutidos nesse estudo.
 
 
 

Contextualizando o Estudo

O Programa de Integração e Desenvolvimento da Criança e do Adolescente (Prodecad) atende alunos (filhos de funcionários) que frequentam, em um dos períodos, a escola regular localizada nas proximidades da universidade, e em outro período, participam das atividades desta instituição. É nessa instituição que os alunos fazem suas refeições, recebem orientação sobre higiene, sobre os conteúdos desenvolvidos na escola regular e participam de atividades em 4 (quatro) Oficinas: Artes Plásticas, Jogos e Brincadeiras, Palavra e Informática. O Prodecad é uma instituição que tem uma estrutura, uma organização de tempo e espaço particular e que procura conciliar as diversas atividades do Programa. Embora o Programa não tenha o mesmo compromisso de um sistema de ensino regular em termos de cumprir gradativamente determinados conteúdos do currículo, os conteúdos curriculares são considerados quando os professores orientam as tarefas dos alunos no horário de estudo e em muitas das atividades desenvolvidas nas Oficinas.

A Oficina de Informática, que configura o cenário desse estudo, surgiu a partir de um projeto "pessoal" de uma professora que coordenava as atividades pedagógicas da instituição. Essa professora conseguiu sensibilizar alguns professores e direção da instituição para implantar, com o apoio do Nied, o uso da informática em uma das Oficinas. No entanto, quando o pequeno laboratório começou a ser montado, a coordenadora teve que deixar o seu cargo nesta instituição.

Assim começou uma história, um tanto conturbada, de um projeto que precisava ser adotado. Adotar um projeto é diferente de reconhecer sua importância. Adotar é envolver canalizando a energia pessoal - o potencial, criativo, cognitivo e afetivo - para a concretização do projeto. Nesse caso, o projeto da Oficina de Informática tinha a legalidade institucional, pois a direção esperava e apoiava a sua continuidade, mas não havia o envolvimento e a disponibilidade de pessoas para viabilizá-lo.

Mesmo assim iniciou-se o processo de formação de 5 (cinco) professoras. Embora elas demonstrassem receio em aprender a usar o computador, viam essa experiência como uma oportunidade de poder oferecer aos seus alunos o acesso à tecnologia. Foi desenvolvido no laboratório da instituição um curso introdutório de informática na educação enfatizando a linguagem de programação Logo e os princípios da abordagem construcionista. A partir desse curso o processo de formação continuou através do acompanhamento - "estar-junto" - do trabalho das professoras com os alunos. Cada uma das professoras trabalhava duas vezes por semana com um grupo de alunos (em dupla). A intervenção nesse trabalho era feita duas vezes por semana. As formadoras alternavam os dias para poder interagir com todas as professores na sua nova experiência.

Essa nova experiência evidenciou a falta de iniciativa das professoras para realizar o trabalho com os alunos usando o computador. As professoras não tinham autonomia para abrir a porta do laboratório sem a presença de uma das formadoras. Por que esta dependência? Seria falta de interesse das professoras em estar desenvolvendo esse projeto na instituição? As professoras diziam não querer abandonar esse trabalho. Mas que trabalho, se quase nada acontecia quando estavam sozinhas? O que fazer? Quem iria colocar em ação o projeto? Quem iria trabalhar com os alunos na Oficina de informática?

As formadoras começaram a ficar angustiadas com essa situação. Conheciam o Programa, a população de alunos, o perfil dos alunos, a proposta dos trabalhos das Oficinas, e acreditavam que era um espaço favorável para usar o computador num ambiente alternativo de aprendizagem. Nesse momento do projeto havia um impasse: envolver um outro profissional, de fora da instituição, para atuar com todos os alunos na Oficina de informática ou esperar o tempo das professoras para que um dia pudessem fazer este trabalho. Foi escolhida a segunda possibilidade, por considerar importante o fato de as professoras assumirem o trabalho com a informática na sua prática pedagógica. Além disso, essa situação representava para as formadoras um desafio de estar revendo e buscando novas ações para intervir no processo de formação.

Era preciso procurar entender a falta de envolvimento e buscar algum meio que pudesse despertar a vontade das professoras em iniciar uma nova experiência. A falta de envolvimento nem sempre pode ser entendida como falta de interesse das pessoas. As vezes o interesse está direcionado para outro foco. Outras vezes, as pessoas podem identificar alguma possibilidade, mas o receio de aprender e de lidar com algo novo é mais forte. O receio muitas vezes paralisa as pessoas. Elas precisam de um tempo. E as formadoras precisam lidar com esse momento. Para isso, buscou-se meios de intervir nesse processo, com a intenção de poder despertar nas professoras o desejo para ação. Uma ação na qual elas pudessem vivenciar uma nova experiência e, caso se envolvessem, poderiam "adotar" o projeto da Oficina de Informática.
 
 

Estratégias de Intervenção: O fazer para envolver?
 

O primeiro passo foi sensibilizar o novo coordenador para que as professoras tivessem o seu apoio e, principalmente, a sua participação no processo de implantação do computador nas atividades pedagógicas. Para isto foi planejada uma visita com o coordenador pedagógico e algumas professoras em uma instituição que utilizava o computador em ambientes de aprendizagem alternativo, isto é, fora do sistema de ensino regular. A intenção das formadoras, uma vez que os projetos tinham algumas semelhanças, era de propiciar às professoras e ao coordenador pedagógico a oportunidade de conversar com outros profissionais sobre as dificuldades, as realizações e expectativas que esse tipo de trabalho oferece. Era importante terem uma referência "concreta" de um trabalho dessa natureza.

Esse contato contribuiu para envolver o novo coordenador no projeto, de forma que rapidamente tornou-se evidente o seu apoio, através da reestruturação do horário das várias atividades pedagógicas do Programa. Com isso as professoras também começaram a sentir que poderiam se organizar, tendo um momento para estudar e preparar atividades que seriam desenvolvidas com os alunos. Assim, uma equipe de trabalho e de estudo foi sendo constituída de maneira que as professoras encontravam apoio entre si, do coordenador e dos formadores.

Nos momentos de estudo, o papel das formadoras era de desenvolver conceitos de programação da linguagem Logo contextualizado numa atividade. Era esperado que essa experiência pudesse também servir como uma referência (no sentido de mostrar uma possibilidade) para elas estarem desenvolvendo o trabalho de informática com seus alunos. A atividade proposta para as professoras foi a de fazer cartões compostos por uma moldura, algumas figuras e um pequeno texto. Para realizar esta atividade, elas retomaram alguns conceitos e comandos do Logo e conheceram outros recursos da linguagem.

Antes das professoras iniciarem o trabalho com os alunos, foi pedido que explicitassem a atividade que pretendiam desenvolver, seus objetivos e os conteúdos que estavam envolvidos. A atividade proposta para os alunos foi exatamente a mesma que elas haviam vivenciado - a elaboração de cartões. Os conteúdos limitavam-se aos comandos básicos da linguagem de programação e o objetivo da atividade era que o aluno conhecesse o computador e aprendesse os comandos da Tartaruga. A atividade proposta não estabelecia nenhuma relação com o que os alunos estavam desenvolvendo nas atividades acadêmicas de estudo e/ou nas outras Oficinas.

O fato de proporem a mesma atividade para os alunos podia ser entendido como uma maneira segura para iniciar o novo trabalho com os alunos. Por outro lado, este fato alertava as formadoras para (no instante propício) quebrar esta "colagem" de atividade de um contexto (de aprendizagem delas) para outro contexto muito diferente (da aprendizagem dos alunos). Era preciso pensar em como as professoras poderiam relativizar uma atividade experenciada na sua aprendizagem para a aprendizagem dos alunos tanto em termos das ferramentas quanto dos conteúdos envolvidos.

Um jeito de intervir nessa situação foi propor que os trabalhos dos alunos (os cartões) fossem expostos numa Mostra para a comunidade de pais e da instituição. Esta situação propiciou uma ampliação da "colagem" da atividade, principalmente para o aprendizado das professoras. Elas tiveram que organizar um roteiro de apresentação e para isto tiveram que trabalhar com manipulação de arquivos, área de trabalho e a operacionalização da impressora. Isto favoreceu a familiarização com o ambiente computacional, que foi um dos aspectos fundamentais para desenvolver independência das professoras no trabalho da Oficina.

Outro aspecto importante dessa experiência foi que a Mostra dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos propiciou um reconhecimento da atuação das professoras. A Mostra expressava um produto palpável que tinha sido construído pelos alunos. Num certo sentido, a Mostra revelou para a comunidade da instituição, e principalmente, para as próprias professoras, que era possível realizar um trabalho com a informática. Consequentemente, esse fato acabou estabelecendo o comprometimento dos profissionais da instituição envolvidos direta ou indiretamente com a Oficina de Informática.

Esses aspectos foram analisados e discutidos com as professoras e o coordenador pedagógico. A intervenção das formadoras propiciou às professoras momentos de reflexão sobre o trabalho desenvolvido em termos da sua própria aprendizagem e da aprendizagem dos alunos. E num clima de entusiasmo ficou evidente o envolvimento de todos com o projeto da Oficina de Informática. O sentimento de angústia das formadoras foi sendo substituído por uma grande esperança .
 


Estratégias de Intervenção: Envolvidos para um novo fazer

Antes de iniciar as aulas do novo ano letivo, as professoras e o coordenador pedagógico queriam discutir sobre a viabilização das atividades da Oficina de Informática. Da parte das formadoras foram colocadas algumas questões:

ža necessidade das professoras terem um horário em comum de 3 (três) horas semanais para que pudessem estudar, explorar outras ferramentas computacionais, planejar atividades e trocar as experiências;

ža assessoria das formadoras seria uma vez por semana durante 3 (três) horas, para encaminhar novas ações, em termos da prática pedagógica das professoras, discutir os questionamentos e as dúvidas em relação aos aspectos computacionais e/ou pedagógicos. Diante das necessidades ou em situações pertinentes aos trabalhos elaborados com os alunos, seriam desenvolvidos novos conceitos computacionais.

Como resultado da análise feita sobre a experiência anterior, as professoras e o coordenador pedagógico concordaram em organizar as atividades de cada uma das professoras com seus respectivos alunos para serem desenvolvidas através de pequenos e diferentes projetos. Cada um desses projetos teriam a duração em média de 2 (dois) meses com atividades diárias de 1 (uma) hora. Outro ponto discutido foi a necessidade do projeto estar relacionado com o conteúdo que seria desenvolvido em algumas das Oficinas (Palavra, Jogos e Artes Plásticas).

Era uma situação nova para as professoras. Em alguns momentos ainda aparecia um certo receio, que aos poucos foi sendo superado. Elas sentiam que podiam aprender fazendo e tinham um espaço para compartilhar as dificuldades que surgiam durante a realização do trabalho. No seu fazer havia a expectativa de poder reviver com os alunos o sentimento de conquista da experiência anterior.

Assim, as professoras escolheram o conteúdo que seria abordado na Oficina da Palavra para ser desenvolvido através da utilização do computador. A proposta dessa Oficina era desenvolver a leitura e a produção de diferentes tipos de textos, explorando a ortografia, pontuação, estruturação, rima, etc..

Com isso surgiu a demanda de desenvolver com as professoras o uso de ferramentas computacionais mais apropriadas para a nova proposta de trabalho. Logo no início do ano, as professoras começaram a aprender os recursos de um editor de texto (Word) e de um editor gráfico (Paintbrush), para que, em um curto período de tempo, pudessem auxiliar os alunos na implementação de seus projetos. A preparação das professoras no uso dessas ferramentas foi feita através de algumas atividades, como mostra o quadro abaixo:
 

Atividade
Ênfase
Metas
Meios 
elaborar e imprimir um documento (bilhete, cartaz) uso da ferramenta computacional  conhecer os recursos básicos do Editor de Texto -uso livre 

-pontual

-sentido pessoal

 

elaborar um desenho para ilustrar o documento anterior (bilhete, cartaz)  uso de diferentes ferramentas computacionais 

 

Integrar diferentes ferramentas computacionais  -uso direcionado 

através da composição da escrita e desenho

-sentido pessoal 

 

elaborar e imprimir um documento sobre as atividades desenvolvidas em cada uma das Oficinas uso de vários recursos da ferramenta computacional

aspectos pedagógicos em relação as Oficinas: Jogos, Palavra e

Artes Plásticas 

expandir o uso dos recursos da ferramenta 

explicitar os conteúdos e os objetivos das atividades desenvolvidas nas Oficinas

-uso direcionado 

-relacionado com algo conhecido

-sentido profissional

 

elaborar e imprimir um plano de ação para ser desenvolvido na Oficina de Informática aspectos pedagógicos

em relação a Oficina de Informática 
 
 

 

explicitar os conteúdos e os objetivos idealizados para serem desenvolvidos na Oficina de Informática

 

-uso direcionado 

-relacionado com algo novo

-sentido profissional

 

Quadro 1: Esquema Geral das Atividades desenvolvidas com as Professoras


Esse esquema mostra os vários aspectos (a ênfase, as metas e os meios) que estão relacionados nas atividades propostas. A ênfase dada em cada uma das atividades vai sendo modificada no sentido de deslocar o foco do aprendizado das professoras. Inicialmente a ênfase focaliza a ferramenta em si através de situações que oferecem um sentido pessoal para a elaboração da atividade. O foco, no segundo, momento, centra-se na integração de diferentes ferramentas computacionais numa mesma atividade. Num terceiro momento, a ênfase se mescla em termos da ferramenta computacional e dos aspectos pedagógicos referentes a um contexto profissional conhecido. E finalmente, o foco da aprendizagem se desloca para os aspectos pedagógicos, de forma que a ferramenta computacional passa a ser concebida como um meio de expressão das idéias acerca do projeto (um plano de utilização do comutador com os alunos)- de algo novo que imprime novas perspectivas no sentido profissional.

No projeto elaborado por cada uma das professoras foi explicitado os objetivos, os conteúdos, os recursos pedagógicos e a dinâmica que seria estabelecida considerando a relação entre as duas Oficinas (Palavra e Informática). Diferentemente da experiência anterior, as professoras enfatizaram nesse projeto o desenvolvimento dos conteúdos referentes a produção de texto.

Juntamente com os alunos, foram escolhidos 5 (cinco) tipos de produção de texto: História sobre minha vida - Poesia para o dia das mães - Cantigas Populares - Textos com rima - História em quadrinho (Gibi). A dinâmica de implementação dos projetos aconteceu através de um constante movimento entre as duas Oficinas (Palavra e Informática). Os alunos fizeram várias versões dos textos, as quais eram analisadas na Oficina da Palavra e depurados na Oficina de Informática. O aprendizado dos alunos sobre os aplicativos Word e Paintbrush era visto como um meio para poderem expressar suas produções, através da escrita e do desenho.

Durante o ano, a dinâmica de estudo e assessoria foi muito importante para as professoras falarem sobre suas experiências, bem como para que elas pudessem ouvir as opiniões e sugestões de outras professoras e buscar novas possibilidades pedagógicas e/ou computacionais para aprimorar o desenvolvimento dos projetos. A intervenção nesse momento foi pedir para cada professora fazer um relato (por escrito) da sua experiência. Esperava-se, com isso, poder desencadear nas professoras a reflexão sobre a sua ação.

Entretanto, os relatos verbais (dialogando conosco) revelavam mais elementos para serem analisados e discutidos do que os relatos escritos. O problema era que os elementos que surgiam nos relatos verbais acabavam se diluindo no contexto (pela fala de várias pessoas, pelos diferentes interesses) do grupo. Por outro lado, os relatos escritos limitavam-se a um formato de relatório padronizado e viciado em termos de explicitar apenas os fatos aparentes e as interpretações objetivas. Em outras palavras, o relatório, pelo sentido de obrigatoriedade e pelo caráter formal, não favorecia a explicitação de fatos e interpretações mais subjetivas. Tais interpretações seriam fundamentais para compor um retrato da experiência a partir do qual seriam considerados os momentos das ações e as relações entre eles.

Novos desafios emergiam do contexto. Como desencadear uma mudança em relação ao relato escrito das professoras? Havia necessidade que fosse relatada a experiência desenvolvida com os alunos de maneira menos formal, colocando as intenções, as dúvidas e as modificações que foram ocorrendo durante a sua prática pedagógica. No entanto, a compreensão das professoras quanto à realização do relato sobre a sua experiência era para "prestar contas" da sua ação. Não conseguiam atribuir um significado pessoal, uma funcionalidade em fazer um relato escrito. Uma funcionalidade positiva em termos de poder rever, analisar a sua experiência e compreender os aspectos necessários que poderiam ser alterados. No entanto, essa era a meta das formadoras. O relato era visto como um meio para desencadear o processo de reflexão sobre a ação pedagógica das professoras.

Um caminho que pudesse dar um sentido diferente para as professoras explicitarem por escrito suas experiências foi através de uma proposta de elaboração de um site na Internet. Essa proposta representou, para as professoras, um novo desafio um tanto sedutor. A elaboração desse site prevê a apresentação das produções dos alunos (Poesia, Gibi, História de minha vida, etc), bem como, a dinâmica desenvolvida pelas professoras desde o planejamento até a execução e a sua análise sobre a experiência vivenciada nesse trabalho.

As formadoras esperam que esta proposta possa contribuir para as professoras redimensionarem a função do relato escrito. Essa parte do processo de formação das professoras (elaboração do site) está para acontecer....
 
 

Algumas Considerações

A formação do professor baseada no enfoque de "estar junto", considerando a dimensão do cotidiano do professor, pressupõe a recontextualização dos princípios construcionistas norteando a interação entre os formadores e os professores. A idéia de Papert sobre o aprendizado através do hands on e head in vista no contexto de formação de professor implica propiciar ao professor condições para que possa "aprender fazendo" - a usar o computador na sua prática pedagógica e a refletir sobre a sua ação. Isto é que possibilita a depuração, a compreensão e a reconstrução da sua ação pedagógica.

Nesse modo de conceber a formação do professor o papel do formador também se amplia. A intervenção do formador no processo de reconstrução da prática do professor envolve outros aspectos que precisam ser tratados. O formador além de lidar com os aspectos computacionais precisa saber intervir no processo de reconstrução da prática do professor. Alguns desses aspectos do processo de intervenção do formador ficaram evidenciados nessa experiência. Para as formadoras essa experiência se constituiu em um grande desafio na busca de novas ações para propiciar a formação de professoras reflexivas para atuar com a informática na educação.

As formadoras tinham 3 (três) metas interrelacionadas: lidar com a questão do envolvimento das professoras no projeto da Oficina de Informática, preparar as professoras em termos do uso das ferramentas computacionais e propiciar a reconstrução da prática pedagógica.

Para atingir essas metas, o processo de intervenção não aconteceu de forma linear. As formadoras, num constante exercício reflexivo sobre a situação, conseguiram criar atalhos sem perder de vista o objetivo da formação. Havia sempre a preocupação em preparar caminhos que pudessem ter sentido para as professoras naquele momento. As formadoras, muitas vezes, lançaram mão dos princípios da espera e da ousadia.

O princípio da espera permite respeitar e entender o tempo do aprendiz, porém a espera não é passiva. O princípio da ousadia representa os "bem dosados desafios" propostos pelo professor na interação com o aprendiz - intervindo no processo da espera. No movimento - na dança - entre a espera e a ousadia torna-se imprescindível que se estabeleça uma relação de confiança, respeito e parceria entre o professor e o aprendiz.

Esses princípios nortearam muitas das ações das formadoras no processo de intervenção, exigindo flexibilidade nas suas ações e ao mesmo tempo uma crença no potencial criativo das professoras. A primeira meta das formadoras era conseguir a formação de um time de profissionais abertos para aprender e engajados com o projeto da Oficina de Informática. Esse processo foi desencadeado a partir das intervenções iniciais e de forma gradativa tornou-se evidente com a Mostra dos trabalhos do alunos.

A preparação das professoras para usar as ferramentas foi realizada de forma contextualizada nas atividades que seriam imediatamente desenvolvidas com os alunos. Em todas as atividades propostas para as professoras havia a preocupação de que elas pudessem aprender a lidar com as ferramentas, conhecer as suas potencialidades de forma integrada e, ao mesmo tempo, encontrar um sentido na sua aprendizagem.

A necessidade de dar sentido para uma nova ação ficou evidente no momento em que as professoras deveriam explicitar (por escrito) a sua experiência vivenciada no projeto da Oficina de Informática.

Outro aspecto utilizado nessa experiência foi a valorização do produto como expressão de processo de aprendizagem dos alunos, através da divulgação dos materiais produzidos por eles. É importante ressaltar que, nesse enfoque, o produto não era visto como um fim em si mesmo, mas como um meio de desencadear novas aprendizagens.
 
 

REFERÊNCIAS
 
 

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