TECNOLOGIA, PRODUÇÃO & EDUCAÇÃO MUSICAL
DESCOMPASSOS E DESAFINOS
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Núcleo de Informática Aplicada à Educação – NIED
Laboratório de Arte - LABORARTE-Faculdade de Educação
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
Campinas, São Paulo, Brasil
Tel: (019) 788-7350 e 7888136 - fax :(019) 2394717
A proposta desta trabalho é mostrar que o computador
pode e deve ser usado em ambientes de aprendizagem musical de forma a aliar
as tecnologias emergentes (as NTIC) à nova linguagem musical que
está pouco presente na educação atual. Estas novas
ferramentas não devem ser substitutos e sim auxiliares dos educadores
e desenvolvidas a partir das experiências pedagógicas acumuladas
por estes profissionais. Somente através da formação
contínua tanto musical quanto tecnológica pode criar cumplicidade
entre educadores e estas novas ferramentas.
Esta aliança se dá também no âmbito do entendimento teórico das propriedades do som. Foi Pitágoras, filósofo e matemático grego do século VI-V a.C., quem estabeleceu as relações matemáticas entre as freqüências das notas da escala maior. Na Renascença Leonardo da Vinci, fusão personificada da arte e ciência, propõe uma série de aperfeiçoamentos aos instrumentos de música da época. No Barroco, com o sistema temperado, que é a determinação exata da freqüência das notas, do ponto de vista matemático e não do acústico, propiciou-se aos compositores a possibilidade de usar todas as tonalidades numa só composição e isto foi explorado na seqüência por J. S. Bach na sua obra genial "Cravo Bem Temperado". A construção de instrumentos de corda mais sonoros (a família dos violinos) possibilitou orquestras e teatros maiores. O piano, com sua gama de matizes de intensidade, deu aos compositores possibilidades imensas para a manipulação deste parâmetro sonoro que foi explorado com profusão no Romantismo. É da necessidade estética da música que surgem o temperamento e os novos instrumentos, frutos da ciência, ou é o aparecimento deste que produz uma nova necessidade estética? O que nasceu primeiro? Não importa a ordem, mas sim a parceria antiga e sempre renovada que os funde e se confunde em sua origem. A palavra tecnologia vem do grego - techne - que significa arte e logos que significa palavra ou discurso. Tecnologia então vem a ser o caminho, a soma total dos meios, pelos quais os objetivos estéticos e objetivos do fazer são atingidos.
Vivemos num século onde o progresso da ciência
transformou as formas de percepção de tempo e espaço
e isto se traduz em arte e isto se traduz em música. Novas percepções
geram a necessidade de novos meios, novos instrumentos, novas ferramentas
para gerar os novos objetos sonoros que gerarão a nova música.
" o momento que vivemos é, sob vários pontos
de vista, único. Único porém não só
pelas limitações que imprimem mal-estar, em decorrência
de estado de " des-perspectiva" para a educação em geral,
artística e musical em particular. Único também não
apenas pelo incômodo profundo causado àqueles que têm
convicção - originada por anos de trabalho, reflexão
e experiência - de que a música é mais, muito mais
de que um simples luxo ou prazer " desnecessário" . Mas é
único ainda na medida em que acreditamos que " música" representa
tanto uma dimensão sensível fundamental no ser humano, quanto
constitui-se num importante patamar, onde não meramente se assenta
mas, sobre o qual se desenvolve uma legitima cultura." (Kater, 1990)
Chegamos, atravessamos e estamos acabando o Século XX quase sem esbarrar nele, ou melhor na música composta neste período. O professor de música acha-se hoje completamente desfamiliarizado da linguagem musical de sua época, e assim não consegue perceber o sistema de referenciais (tanto intelectual quanto sensorial) para a compreensão destas obras.
Ao longo do século 20 a separação entre os setores da criação e do ensino musical cresceu vertiginosamente. Aproximá-los deve ser a meta atual de todo profissional da área, educadores e músicos. Mas muitos músicos, com uma produção de vanguarda, ignoram prioridades educacionais e não produzem obras que possam servir de caminho entre o aprendiz e a estética contemporânea das grandes obras deste século.
Este trabalho visa diminuir o descompasso existente entre as áreas de produção e educação musical trazendo para o debate algumas das utilizações das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) que já há 50 anos está presente na criação musical mas não se reflete e não está presente nos ambientes de ensino-aprendizagem.
Para Papert (1987) o efeito da presença do computador em nossas vidas deve girar em torno de como podemos repensar nosso mundo em presença da tecnologia emergente, ou seja, a questão vem a ser "o que nós faremos com o computador" e não "o que o computador fará conosco".
A elaboração de ferramentas computacionais, vista de modo mais abrangente, gira, num primeiro momento, em torno de se criar um entendimento de como projetar ferramentas computacionais adequadas aos usos e propósitos humanos. Na sua elaboração temos que ter em mente que o computador, enquanto objeto da cultura, pode influir no que o indivíduo vai expressar, modificando, na área musical por exemplo, a relação que o indivíduo possa ter com a música, sua concepção sobre ela, sua maneira de analisar e de organizar os eventos musicais.
As mudanças de como fazemos e de como entendemos nosso trabalho são decorrentes da atuação do indivíduo através de ferramentas que lhe propiciem ser condutor de seu processo de aprendizagem, de aquisição de conhecimento. Isso se fundamenta numa concepção que assume que há um movimento dialético na relação do indivíduo com os objetos de sua cultura (Turkle, 1984). Ou seja, ao mesmo tempo que o recurso utilizado possibilita ao indivíduo ter acesso ao conhecimento musical ele também modifica a relação do indivíduo com o objeto musical, a maneira de fazer, analisar e sintetizar tais objetos.
Para que o indivíduo esteja imerso na cultura computacional,
há necessidade de que ele seja exposto a ambientes que tenham computadores
e que ele tenha acesso ao uso de tal recurso, desde que ele queira e se
sinta estimulado a utilizá-lo.
"No entanto as músicas criadas hoje, o que delas nos propõe, o que delas participamos pouco tem a ver com a "música" tal qual é ensinada de hábito nas escolas." (Kater, 1990)
A experiência dos artistas e dos arte-educadores,
que estão em sala-de-aula ou na academia, é fundamental que
estejam refletidas nas NTIC para que possam suprir minimamente as necessidades
da nova educação musical. Estas ferramentas podem auxiliar
no desenvolvimento da percepção auditiva, organização
sonora e outras áreas do conhecimento musical.
TECNOLOGIA & MÚSICA
PRIMEIROS PASSOS
Com a Aldeia Global os compositores passam a conhecer, explorar e incorporar à sua música não apenas todos os matizes timbrístico dos instrumentos asiáticos, africanos, indígenas, mas também os padrões rítmicos e melódicos destas culturas. As estéticas e filosofia de outros povos passaram a ser a fonte de inspiração tanto de compositores como John Cage, Messiaen como dos Beatles.
Com o aparecimento dos sintetizadores e dos computadores
toda uma nova extensão sonora passa a ser explorada pela criação
musical, derrubando as antigas barreiras físicas, possibilitando
experimentos com timbres, velocidades radicais, audição imediatas
de criações. Esses recursos já eram ansiados por muitos
compositores que não encontravam mais nos recursos oferecidos pela
tecnologia de seu tempo as ferramentas necessárias para sua expressão.
" ...comecei a conceber a música como sendo espacial,
como corpos sonoros movendo-se no espaço concepção
que desenvolvi gradualmente e fiz minha. Compreendi logo que seria difícil
ou impossível, exprimir com os meios colocados a minha disposição
as idéias que me ocorriam. ... Nosso alfabeto é pobre e ilógico.
A música, que poderia ser viva e vibrante, necessita de novos meios
de expressão, e apenas a Ciência pode introduzir nela a seiva
jovem. ... Sonho com instrumentos que obedeçam ao pensamento - os
quais, sustentados pela florescência de timbres inimagináveis,
permitirão a eles qualquer combinação que eu escolha
para impor e submeter às exigências do meu ritmo interno."
(Várese in Moraes, 1983)
OS PRIMEIROS ESTÚDIOS ELETROACÚSTICOS: ESTÉTICAS OPOSTAS
Música Concreta - Pierre Schaeffer (1910-1995) funda em Paris no ano de 1948 o "Club d’Essai" que em 1958 passou a chamar-se GRM - Grupe de Recherches Musicales. Trabalhou com sons naturais, da vida cotidiana gravados e manipulados no estúdio (sobrepostos, misturados, com alteração de velocidade e altura, etc.); a composição resultante era também gravada dispensando a notação musical e o intérprete.
Música Eletrônica – o estúdio
da rádio NWDR de Colônia foi fundado em 1951 por Herbert Eimert
(1897-1972) e esteticamente esta ligado ao pensamento musical de Webern,
o que resultará no serialismo integral. O material sonoro, contrariamente
ao da música concreta, é exclusivamente os produzidos por
geradores eletrônicos de som e depois manipulados (filtragem, adições
de vibratos, reverberações, ecos, etc.);. Em 1953 Karlheinz
Stockhausen (1928) ingressa no Estúdio da Rádio de Colônia,
que passa a reunir um grande número de compositores. Alguns anos
depois o elemento concreto passa a invadir o estúdio de Colônia
e o pensamento serial dá lugar a novas formas de organizações
sonoras, e assim algumas das oposições entre estas duas correntes
foi eliminada.
"No século XX sucede a colaboração
eficaz da tecnologia eletrônica para auxiliar na solução
de impasses musicais deixados pelas expressões modernas de Schoenberg
e Webern, atraindo um pensamento musical menos atomizado em notas/unidades
e mais holístico em relação ao universo sonoro. Esta
é a aventura de compositores como Varèse, Cage, Schaeffer,
e de novo Ligeti, Xenakis, e de tantos outros dos dias de hoje. Reconhecemos
historicamente a produção musical de estúdios eletroacústicos
como os de Schaeffer em Paris, o de Eimert/Stockhausen na Alemanha, e atualmente
de todos os que, de um modo ou outro, se beneficiaram do pensamento irradiado
por aqueles". (Caesar, 1997)
PANORAMA ATUAL DA NOVA REALIDADE MUSICAL
A música, de todas as artes, é a mais revivida e glorificada por seu passado. Desconhece-se a produção musical de hoje e algumas pessoas chegam até a duvidar que ela exista.
Não existe falta de novas estéticas ou crise
de criatividade na música atual, mas falta de divulgação
desta música pela mídia, editoras, gravadoras e escolas
de música, incluindo as universidades. Não sendo divulgada
ela não é comercial e não sendo comercial, não
é publicada, gravada, tocada, estudada e portanto não é
ouvida.
"A música experimental adentra a nova época
sem ter sido ouvida por ninguém. Um dia será ouvida? Cabe
ao futuro criar os beethovens incompreendidos? Pouco provável, já
que até Beethoven teve seu bom quinhão de público
enquanto viveu...Ouviu-se no fim do século 20 a separação
entre os setores da produção e do consumo musicais. Aproximá-los
é a meta atual de todo empresário da área. Mas os
músicos renovadores continuam a ignorar prioridades mercadológicas.
Vivem numa torre de marfim. Querem ser enterrados como enigmas... Os músicos,
cada vez mais cientistas, perderam o poder de fazer o papel de "antenas
da raça", como dizia Ezra Pound. A raça não quer antena.
Quer diversão" (Giron, 1994)
Ser a "antena da raça" não é captar o obvio ululante forjado pela mídia paga, e bem paga, pelas prioridades mercadológicas.
Stravinsky (1996), que foi um dos alvos principais da
crítica do inicio do século, cita na sua conferência
"Tipologia Musical" alguns destes desafinos da crítica musical,
como os do escritor alemão Scheibe quando em 1737 escrevia sobre
a obra de Bach:
"Esse grande homem seria o objeto da admiração
universal se fosse mais agradável e não estragasse suas composições
com coisas bombásticas e confusas, e se, por um excesso de arte,
não obscurecesse a beleza dessas peças."
Beethoven também não escapou. Trinta anos
depois de sua morte um compositor famoso de nome Ludwig Spohr ouvindo a
Nona Sinfonia afirmou que faltava a seu autor uma educação
estética e um "senso de beleza".
Estes recursos dão suporte a atividade composicional apresentando
possibilidades mais potentes e diversificadas para o compositor expressar
e trabalhar suas idéias.
A indeterminação, presente tanto na composição
como na execução de obras contemporâneas, é
inspirado tanto em processos randômicos tecnológicos utilizados
por Xenakis como em filosofias orientais com o I Ching utilizado por John
Cage.
Com a composição eletroacústica para fita magnética
pura sem instrumentistas ou cantores, e o desenvolvimento das técnicas
de gravação e de preservação, o que se torna
imortal agora é a própria obra, a própria música
tal qual o compositor a concebeu. Depois de milênios nós,
humanos, demos à Arte do Som imortalidade igual a da Artes Visuais
ou da Literatura.
"...em colaboração com o engenheiro, o compositor um dia
será capaz de apertar um botão e a música será
processada como concebida pelo compositor. Entre o compositor e o ouvinte
nada de prisma deformante, mas a mesma e íntima comunhão
como a que existe entre escritor e leitor" (Varèse).
b) Mista (tape & acústica) e Live Eletronic
Mas a tecnologia não acabou com o intérprete tradicional. Atualmente na Música Eletroacústica ou Música Acusmática , alguns dos vários novos termos para designar esse tipo se música, a obra pode ser apresentada com uma parte gravada dialogando com instrumentistas. As novas ferramentas de processamento em real time possibilita o processamento "ao vivo" de instrumentos acústicos no momento da apresentação (Live Eletronic). Mesmo quando é puramente gravada a obra necessita de um profissional que determine como será a distribuição dos sons pela várias caixas de som, sua intensidade, ou seja que a espacialize. A este intérprete damos o nome de sonorizador.
Esta nova sensibilidade musical que nasceu nos
estúdios está presente em obras que não são
produzidas por equipamento eletroacústico, mas sim para instrumentos
ou vozes e com uma notação bastante tradicional; exemplos
disto são as obras da micropolitonia de Ligeti, a música
espectral de Tristan Murail e a música estocástica de Xenakis.
"Procurar definir música - que de toda forma não
é um objeto, mas um processo - é um pouco como tentar definir
poesia: trata-se, pois, de uma tentativa felizmente impossível,
haja vista a futilidade que existe em querer traçar os limites que
separam a música do que não é mais música,
entre a poesia e não-poesia." (Berio in Moraes, 1983)
Cabe ao artista a tarefa de ser a antena da raça
e ao arte-educador a tarefa de ser o suprecondutor que leva à
toda raça o que essa antena captou. Deixar a raça - ou os
alunos entregues a si mesmo, às suas possibilidades do momento,
sob pretextos liberais, é na verdade uma prática elitista:
significa abandona-los tornando-os dependente da sua condição
sócio-cultural, é aumentar a desigualdade ao acesso e fruição
da arte.
" E preciso urgentemente lançar os jovens na música
de hoje. Seus ouvidos, em geral, estão condicionados e "entupidos"
pela música comercial que hoje é industrializada e enfiada,
vídeo a dentro, nas salas de nossas pobres famílias." (Antures,
1990)
A EDUCAÇÃO MUSICAL E A TECNOLOGIA - O QUE MUDOU?
Inicialmente o dialogo entre a música, educação e a NTIC provocou objeções de toda ordem. Dizia-se que a tecnologia era coisa fria e racional não servindo aos desígnios artísticos, ela afastaria o homem da arte e traria um grande desemprego aos professores e músicos tradicionais. Essa atitude de medo e desconfiança de músicos e educadores, que não se davam conta que esta parceria era antiga, dissolveu-se ao longo dos últimos 30 anos. O desemprego não aconteceu e os músicos tradicionais e pedagogos passam a consumir e se utilizar da parafernália tecnológica para editar partituras, fazer arranjos e automatizar o ensino de solfejo. As professoras de piano com sua régua pronta a "corrigir" os erros produzidos pelas pequenas mãos são fantasmas do passado; foram substituídas pelas salas com 7, 8 ou mais teclados onde a fala de uma impessoal professora chega ao fone de ouvindo "corrigindo" os erros produzidos pelas pequenas mãos. Sem dúvida temos um ganho para os Direitos Humanos, mas o que a música ganhou com isto? Nada, já que em geral não apresenta inovações, é o fazer antigo "pintado" de moderno pelo uso de teclados eletrônicos para fazer o que qualquer aluno da época de Mozart fazia com um cravo. É uma tecnologia a serviço da perpetuação de um modelo de música que nada tem em comum com a música produzida, criada, hoje com a cumplicidade da NTIC.
O conceito de arte esta sendo pensado e revisto. O século XXI
chega com o fim da diferença. Composições recentes
tanto na área classificada como Erudita, {em obras de Luciano Berio
(Folcksongs), Gilberto Mendes (Beba Cola-cola), Chico Mello
( John Cage na Praia), Tato Taborda (Samba do Crioulo Doido),}
quanto na área classificada de Popular, {Arrigo Barnabé,
Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti}, mostram que os muros entre o erudito
e o popular, vanguarda e tradição, internacional e regional
estão sendo rompidos ou diminuídos. A Aldeia ficou
global, a interdisciplinaridade é o dia-a-dia, a transdisciplinaridade
ganha adeptos, o multiculturalismo ganhou as ruas... e como todo este admirável
mundo novo está se refletindo na Educação Musical?
A Nova Educação Musical
Educadores como Edgar Willems, Dalcroze, Orff e Kodaly renovaram com seus métodos em aspectos diferentes o ensino da música, mas é a partir dos anos 40 com o movimento Música Viva criado por H.J.Koellreutter e, nos anos 60, com novo impulso trazido pelas Oficinas de Música que a presença da música contemporânea se fez presente, ainda que como sombra, na educação musical brasileira.
No final da década de 60, surge no Brasil, no Instituto Villa Lobos (RJ), os primeiros trabalhos de Oficina Musical com Conrado Silva, Emilio Terraza, Esther Scliar e Reginaldo de Carvalho. Na década de 70, na Universidade de Brasília, outras Oficinas de Música foram desenvolvidas por compositores como Conrado Silva, Emilio Terraza, Sceko e Carlos Karter
As novas maneiras de tratar o fenômeno sonoro e a co-existência de outras áreas levaram à elaboração de uma nova linguagem. A utilização dos novos meios de produção musical exigiu outras maneiras de se descrever o som e uma maior flexibilidade de manipulação dos parâmetros do som. O vocabulário musical, nas formas de descrever, representar e relacionar o fenômeno sonoro, foi modificado. As transformações geradas pelo uso desses novos meios de produção musical, aliadas às novas concepções no campo científico sobre o que é conhecimento e sobre como o indivíduo constrói conhecimento, exigem que tenhamos novas atitudes quanto à aprendizagem.
Esse novo ambiente, composto pelo indivíduo que atua através de diversas ferramentas utilizando-se de uma linguagem musical multifacetada, gera novos padrões estéticos e sonoros. Assim sendo, o enfoque educacional tem que levar em consideração todos os elementos que compõem esse cenário, a fim de propiciar ambientes de aprendizagem que levem o indivíduo a agir, a refletir e a expressar suas idéias na sociedade atual. E sendo assim as experiências acumuladas pelas Oficinas de Música e outras formas de ensino musical de vanguarda necessitam estar presentes na concepção de softwares voltados para a educação.
Na concepção de tais ambientes de aprendizagem o computador apresenta-se como uma das ferramentas importantes, pois, devido a suas características, viabiliza uma nova forma de resgate, descrição e representação do conhecimento, apontando para novas perspectivas na criação musical.
A tecnologia emergente aliada a esta nova linguagem musical pouco ou
nada está presente na educação atual, sendo utilizada
apenas no âmbito da criação musical. A grande maioria
de softwares de música, ditos pedagógicos, são desenvolvidos
com objetivos meramente comerciais e assim não contemplam os conteúdos
e conceitos desta nova estética.
"O aprendizado de música envolve a constituição
do sujeito musical, a partir da constituição da linguagem
da música. O uso desta linguagem irá transformar esse sujeito,
tanto no que se refere a seus modos de perceber, suas formas de ação
e pensamento, quanto em seus aspectos subjetivos." (Fonterrada, 1994)
Pontuamos a seguir aspectos que deveriam ser contemplados
pelos softwares de Educação Musical:
b) ouvir sons e escutá-los, percebê-los sem julgá-los, apreciando-os pela sua forma e textura, sem preconceitos;
c) utilizar todo o universo mítico e trivial dos
vários Brasis e das várias culturas como ampliação
da fonte de estímulo para a criação e não
como limite ou pura reprodução. Por exemplo improvisar
e/ou compor tendo como estímulo os sons da floresta e dos seres
imaginários ou não que lá habitam.
2) Interdisciplinar
e) Compreensão científica do fenômeno acústico.
O computador nos dá a possibilidade de manipular e trabalhar os
parâmetros sonoros - altura, duração. dinâmica,
timbre e espacialização).
a) brincar com os sons da mesma forma brincamos com cores, formas e argila, um tatear sonoro, modificando o timbre, altura do som, experimentando as velocidades mais radicais, etc. sem preocupação de organizar esse material.
b) Improvisar com sons, inventar as regras que conduziram essa organização sonora do momento sem medo de ser feliz...
c) conhecimento das técnicas e estéticas da composição contemporânea.
d) conhecimento das técnicas e estéticas
da composição eletrônica.
"A educação artística deve ser, antes
de tudo, a educação desta espontaneidade estética
e dessa capacidade de criação que a criança pequena
já manifesta; ela não pode, menos ainda que todas as outras
formas de educação, contentar-se com a transmissão
e a aceitação passiva de uma verdade ou de um ideal já
elaborados." (Piaget, 1968)
4) Interação Máquina e Aprendiz
A elaboração de ambientes computacionais de criação musical deve ter uma sustentação pedagógica para que tais ambientes não percam em termos de interação. Sem tal sustentação, corremos o risco de que tais ambientes possam ser reduzidos em seus propósitos e meios, ocasionando interações e solicitações deficitárias e pobres, por não ser respeitada a complexidade cognitiva dos indivíduos.
O ganho que o uso do computador pode trazer, principalmente num contexto de aprendizagem, é dar apoio para a viabilização e explicitação das idéias. Quando o indivíduo trabalha para implementar suas idéias ele precisa de um sistema de representação que dê suporte e que facilite o processamento das mesmas. Se com o computador, o indivíduo tiver um sistema de representação eficaz, terá também mais oportunidades de expressar e trabalhar suas idéias, permitindo assim a criação de possibilidades mais potentes e diversificadas.
Acreditamos que os avanços tecnológicos devem estar disponíveis
na educação musical como um todo - não apenas em seus
níveis mais avançados, como o da composição.
Cabe ressaltar que um ambiente computacional voltado a experimentação
musical, deve favorecer a atuação das pessoas que estejam
ingressando na área, de forma que eles possam conceber e executar
suas criações musicais num contexto autônomo de tomada
de decisões, num cenário rico em possibilidades de concretização
de idéias e sempre aberto a novas incursões, novos caminhos.
Pensamos que é preciso manter sempre um princípio que garanta
a criação, a exploração, a experimentação,
a depuração e a compreensão do processo pelo aprendiz.
AS NTIC E A PESQUISA NA ÁREA EDUCACIONAL
Atualmente há uma variedade de aplicativos computacionais que podem ser utilizados em pesquisas da área musical que podem estar presentes em propostas educacionais.
Alguns aplicativos se atem a abordar um determinado assunto em profundidade. Outros apresentam uma variedade de noções básicas na área musical apresentadas por categorias: teoria musical, história da música, percepção musical, etc.
Alguns softwares estão direcionados para História da Música e apresentam as informações de forma cronológica permitindo o acesso por período (barroco, clássico, romântico) e por compositores desses período. Outra categoria de softwares, enciclopédias, dispõe informações sobre instrumentos musicais existentes em diferentes culturas.
A Internet, a grande rede de informações, já pode
e vem sendo explorada tanto pelos educadores em busca de formações
e informações como pelos alunos. Ela pode funcionar como
uma grande, imensa biblioteca para pesquisas. Uma biblioteca em constante
crescimento com fornecedores de informação com interesses
comerciais e mil outros com interesse de simplesmente divulgar o que faz,
o que gosta, o que sabe e o que acredita.
FORMAÇÃO CONTÍNUA: MUSICAL E TECNOLÓGICA
O modo como as pessoas vão trabalhar com o computador no âmbito educacional e com as ferramentas computacionais disponíveis é que vai determinar o rumo da educação musical e do desenvolvimento de novas ferramentas computacionais.
Há alguns indícios de que a educação musical
vem sendo influenciada por novas propostas educacionais e pelos compositores
contemporâneos, através de seus novos instrumentos e por suas
criações musicais, porém, ainda são poucas
as repercussões dessas propostas em sistemas de ensino.
"Não se pode negar que o ensino de música
na imensa maioria das escolas de 10 e 20 graus é
sumariamente secundarizado e, quando presente, não passa de uma
forma de "passatempo institucionalizado", cujo objetivo central costuma
ser as apresentações corais, instrumentais e coreografias
nas festas da escola." (Fonseca, 1990)
Há necessidade de se repensar o processo de ensino-aprendizagem de música com propostas educacionais adequadas ao momento atual.
Não basta multiplicar a quantidade das escolas disponíveis, de equipamentos escolares e de professores ou a compra de televisões ou computadores para as salas de aula. Urge uma definição nova, clara e convincente, dos objetivos da educação musical, uma mudança radical do conteúdos dos programas, no sentido de uma atualização de conceitos e idéias, de avaliação e de atuação pedagógicas.
É necessário também o contínuo
desenvolvimento de programas que tenham como usuário alvo não
só os estudantes de música - iniciantes ou não - como
também os professores. Tais programas podem e devem ser realizados
e apoiados pelas universidades ou pelo poder público.
"...na base de toda uma produção musical
- internacionalmente conhecida e de assumida importância - encontram-se
instituições universitárias arejadas pelo estudo das
músicas de todos os tempos, das disciplinas relacionadas com ela,
e mergulhadas na fabricação de um instrumento adequado para
a música do presente." (Caesar, 1997)
É preciso lembrar que para o professor estar afinado
com o seu tempo ele deve ser preparado para exercer esta temporalidade.
Vencer o medo da incompetência frente à máquina e frente
aos mais jovens que "nascem sabendo apertar botões" não
pode ser uma tarefa solitária. Para isto não bastam também
apenas os famosos "cursos de reciclagem" de fim-de-férias. É
preciso apostar mais, investir mais neste profissional que tem como tarefa
educar nosso povo. Apenas uma formação contínua tanto
tecnológica quanto musical fará com que nós nos apropriemos
da tecnologia do século XXI para caminhar rumo a uma educação
musical coerente com a criação contemporânea.
REFERÊNCIAS
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BOULEZ, P. escrevendo para John Cage em 1951 in MORAES, J. Jota de - Música da modernidade: Origens da música de nosso tempo. São Paulo: Brasiliense, 1983.
FONSECA, João Gabriel M.. Porque Educação Musical Cadernos de Estudo - Educação Musical no 1, São Paulo:Atravéz,1990.
FONTERRADA, Marisa T. de Oliveira. A Linguagem Verbal e Linguagem Musical. Cadernos de Estudo - Educação Musical nos4/5, São Paulo: Atravéz, 1994
GIRON, Luís Antônio, jornal "Folha de São Paulo" Editado no Caderno Especial Página: Especial A-7 Edição: Nacional JUL 11, 1994
KATER, Carlos Editorial - Música e Musicalidade, Percursos em Suas Fronteiras, Cadernos de Estudo - Educação Musical no 1, São Paulo:Atravéz,1990.
KATER, Carlos Música e Musicalidade, Percursos em Suas Fronteiras, Cadernos de Estudo - Educação Musical no 1, São Paulo:Atravéz,1990.
MANFFIOLETTI, Leda de A. Uma Visão Interdisciplinar para a Educação Musical. Cadernos de Estudo - Educação Musical nos4/5, São Paulo:Atravéz,1994.
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PAYNTER, p.34 in Santos, Regina M, Simão. A Natureza da aprendizagem musical e suas implicações curriculares - análise comparativa de quatro métodos. Revista da Abem - Associação Brasileira de Educação, Musical - 1994
PIAGET, Jean. A Educação Artística E A Psicologia Da Criança. Revista brasileira de Estudos Pedagógicos, (109): 211-213, 1968.."
STRAVINSKY, Igor – Tipologia Musical – 1996
VÁRESE, Edgar in MORAES, J. Jota de - Música da modernidade: Origens da música de nosso tempo. São Paulo: Brasiliense, 1983.
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TURKLE, S. (1984). "The Second Self - Computers and the human spirit" , produzido por Fernández L. y Reginni S.A., Buenos Aires, Argentina