NTIC NA AULA DE HISTÓRIA: O COMPUTADOR COMO FERRAMENTA
AUXILIAR NA APREENSÃO DO PROCESSO HISTÓRICO

Tatiana Lenskij
Fax: (051)714.6188
Fernanda da Rosa Nagib Murr
femurr@ez-poa.com.br


 

Introdução

O presente trabalho é o relato da experiência realizada com 3 turmas de 8ª série do 1ºgrau que tinha por objetivo fazer com que os alunos, além de fixar os conteúdos, relacionassem as informações trabalhadas em aula, de uma forma lógica e historicamente correta a ponto de perceberem que os temas e fatos estudados estavam inseridos num tempo e num espaço determinado sendo abordado como um todo: uma visão não fragmentada da história. Ao mesmo tempo, deveriam perceber os limites estruturais, reconhecendo pontos de ruptura e as possibilidades de permanência e/ou transformação e porque adquiriram a forma que adquiriram e não outra. Em suma, como e porque se dá o processo histórico.

Para tanto, foram adicionados à rotina escolar dois instrumentos que permitiram aos alunos desenvolverem seus conhecimentos e habilidades mentais: o Mapa Conceitual, instrumento de organização hierarquizada e categorizada de um tema (Sperb, 1991)., e um software de autoria que permite desenvolver, em ambiente informatizado, mapas conceituais, entre outras coisas, possibilitando aos alunos trabalharem o Mapa Conceitual em pelo menos dois ambientes.

O software de autoria usado foi o LinkWay Live!, módulo do Projeto Horizonte da IBM, programa disponível no momento, já instalado e de domínio dos professores facilitadores do Laboratório de Informática. Porém, o projeto pode, e deve, ser desenvolvido em outros ambientes de autoria que, por usarem tecnologia mais avançada, proporcionam aos alunos um produto final mais sofisticado, mais fiel à imagem exata do que desejam expressar, Trazendo satisfação pessoal e incremento da auto-estima, fatores importantes no processo de aprendizagem. Como exemplo desses outros ambientes, citamos programas de autoria como o ToolBook, Everest e Master Class. Outra opção muito rica são os softwares de construção de hipertexto, além dos geradores de páginas para a World Wide Web, na Internet ou em redes locais.
 
 

Motivação
 

Da troca de experiência entre professores de História, observa-se que os alunos de 8ª série (final do I Grau, faixa etária entre 13 e 15 anos) ainda apresentam dificuldade de raciocinar logicamente nos conteúdos da disciplina de História. Também os professores da área de Comunicação e Expressão colocam a dificuldade desses alunos em fazer interpretações e em expressar adequadamente suas idéias.

Porém, eles apresentam raciocínio lógico-dedutivo durante jogos, no uso do computador, nas discussões de caráter geral. Mas este conhecimento não é aplicado ou transferido para as aulas de História. Por que eles não o aplicam naturalmente a um conteúdo específico, como é o caso do conteúdo de História?

Buscou-se, então, opções que oportunizassem o desenvolvimento integral do aluno, que gerasse condições mais plenas de absorver conteúdo e possibilitar a aplicação do raciocínio lógico-dedutivo a este conteúdo. Daí a escolha pelo uso dos Mapas Conceituais e dos Recursos Computacionais. Esta escolha privilegiou dois momentos de trabalho: um, em sala de aula, utilizando o recurso instrucional dos Mapas Conceituais, que preenchem as necessidades de organização lógica e conceitual, principalmente dos temas abordados nas aulas de História; outro, no Laboratório de \informática, onde o trabalho inicial de organização lógica do raciocínio histórico seria transferido para o computador, cuidando de a mesma linha de raciocínio desenvolvida com os mapas conceituais para todos os conteúdos desenvolvidos em sala de aula até o final do ano letivo.
 
 

Descrição do Projeto
 

O projeto O Computador Fazendo História visa proporcionar aos alunos um ambiente e ferramentas de trabalho que permitam a eles relacionarem as informações trabalhadas em aula, de uma forma lógica e historicamente correta a ponto de perceber que os temas e fatos estudados estavam inseridos num tempo e num espaço determinado, num todo e que ao mesmo tempo, percebessem os limites estruturais (ruptura) e as possibilidades de permanência e/ou transformação e porque adquiriram a forma que adquiriram e não outra; ou seja, como e porque se dá o processo histórico.

O tema abordado foi a transição do feudalismo ao capitalismo na Europa Ocidental sob a ótica do capital.

Um dos caminhos para se atingir este objetivo seria a operacionalização destes conceitos de uma forma concreta, observando como o aluno adapta as informações trabalhadas à sua própria forma de entendimento, e o que retém do conteúdo estudado, quanto retém e a qualidade do aprendizado.

Os instrumentos, ou ferramentas, usados neste projeto foram os Mapas Conceituais e Recursos Informáticos, através do software de autoria LinkWay Live!.
 

Mapas Conceituais

O Mapa Conceitual é uma forma sintética de apresentar um determinado tema ou assunto utilizando apenas palavras-chave ligadas de forma lógica, hierarquicamente distribuídas e relacionadas em forma decrescente de importância, a partir de uma categoria ou conceito (Baldissera, 1994) e (Sperb, 1991). O Mapa Conceitual tem a função de organizar logicamente um tema, destacando as relações significativas entre os conceitos.

A relação existente entre o Mapa Conceitual e o processo de conhecimento é muito grande. O aluno, ao definir o conceito fundamental a partir do qual ele vai organizar e desenvolver o seu mapa, apresenta um processo mental que transparente mas que deixa evidente a objetividade que foi necessária para definir o que é mais significativo, qual a idéia fundamental à qual todas as demais estão relacionadas. O aluno, assim, demonstra que conseguiu interpretar o conteúdo trabalhado e como apreendeu as relações entre os conceitos. O mapa Conceitual é o produto do seu conhecimento.

LinkWay Live!

LinkWay Live! (IBM, 1992 (2)) é um programa educativo de autoria, desenvolvido pela IBM dentro da proposta do Projeto Horizonte, que possibilita ao aluno ser o agente do seu próprio constructo através do desenvolvimento de um "livro eletrônico". Este livro eletrônico é formado de páginas que podem conter diversos tipos de recursos, de acordo com a vontade do autor. (IBM, 1992 (3))

Tem a vantagem de poder ser elaborado, organizado e lido de forma não seqüencial, o que multiplica as possibilidades de construção e apresentação. A este tipo de possibilidade de leitura chama-se navegação e oferece também ao leitor escolher a ordem que mais lhe agrade de recuperar as informações ali contidas. (IBM, 1992 (1))

A possibilidade de fazer constructos não seqüenciais, permite que a abordagem da História seja conhecida de uma forma não linear, aos saltos e visualiza as relações que existem ou não entre estes "saltos" .

Além disso, a utilização do computador se impõe devido à quantidade de recursos visuais e sonoros que dispõe, deslocando a atenção dos alunos das formas e materiais tradicionais de sala de aula (exposição do professor - lousa - giz - caderno - lápis - texto - prova) para outras, mais dinâmicas e atrativas, com um leque muito grande de recursos passíveis de serem utilizados.
 


Desenvolvimento do Projeto
 

O projeto desenvolveu-se ao longo do ano letivo. Inicialmente, o conteúdo foi trabalhado de forma tradicional, logo acompanhado de proposição de um desafio: demonstração o que foi aprendido de uma forma sintética, profunda e completa, sem esquecer que deveria ser lógica e historicamente correta.

O trabalho deveria ser realizado em pequenos grupos de até três componentes. Como posteriormente deveria adaptar-se às condições do Laboratório de Informática, previu-se um máximo de 15 grupos.

O desafio serviu como motivador para a introdução dos Mapas Conceituais, etapa seguinte do projeto, quando o professor listou, no quadro negro, várias palavras soltas e conceitos relativos ao conteúdo trabalhado que seriam o ponto de partida dos Mapas Conceituais a serem elaborados pelos alunos. Em aula, usando cartolina, tesoura e cola, cada grupo deveria montar esta distribuição lógico-histórica das palavras obedecendo aos seguintes requisitos:

Concomitantemente, no Laboratório de Informática, os alunos passaram a usar o LinkWay Live! com o intuito de familiarizarem-se com o novo ambiente de trabalho e tomar contato com novas formas de organização de conteúdo próprios dos recurso disponibilizados pela Informática.

Uma vez montados os Mapas Conceituais usando cartolina, os alunos expuseram seus trabalhos na sala de aula. Isto permitiu que houvesse uma apropriação, pela turma, do pensamento de cada grupo e que eventuais erros fossem discutidos e corrigidos entre os próprios colegas, possibilitando uma construção cooperativa do conhecimento.

Ao usarem um programa de apresentação para elaborar seus trabalhos, os alunos são estimulados a utilizarem todos os recursos visuais de que o programa dispõe, ou seja: linhas, cores, quadros e figuras (em sua maioria, criadas pelos próprios alunos com um editor gráfico); páginas encadeadas, botões de navegação e janelas; diferentes tipos de cores de fontes para os textos, títulos e palavras-chave.

Os recursos não estão pré-formatados nas páginas, ou seja, não estão prontos para serem usados diretamente: os alunos é que irão organizar a apresentação usando-os como ferramentas de criação. Assim, os grupos devem primeiro definir qual desses recursos serão utilizados e como serão organizados, para obterem a imagem exata do que desejam expressar. Isto pressupõe dois momentos de abstração: um, que prevê a imagem final, pronta; e um momento posterior, que se dá por ocasião da elaboração do trabalho em si, nas páginas, daquilo que será escrito ou desenhado, para que os tamanhos dos campos sejam adequados. Cada passo do constructo deve ser pré-definido de forma abstrata e organizado logicamente, para então ser colocado na ordem que deverá ser visualizado.

Todas estas possibilidades que o ambiente computacional oferece, permite que o trabalho apresente uma imagem inicial única e limpa, com o Mapa Conceitual fundamental. Porém, cada parte dessa imagem que merecer um aprofundamento ou desenvolvimento pode levar a novos conceitos, imagens explicações ou esquemas, como se fosse uma visualização em zoom, permitindo todo o aprofundamento necessário, à medida que o conteúdo se apresenta e a solicitação explicativa se impõe. Uma vez terminada a explicação, no grau de profundidade desejado, basta solicitar o fechamento e recompõe-se a imagem inicial.

A ordem ou seqüência de apresentação definida pelo aluno, é independente da ordem de elaboração do trabalho. Portanto, a ordem pode ser definida a posteriori, de acordo com a temática principal, independente da ordem em que as informações foram inseridas.

Na segunda fase de realização da tarefa - transferencia do mapa Conceitual para o computador - os alunos deveriam conjugar o conteúdo trabalhado aos recursos do novo ambiente, diferente tanto da sala de aula tradicional como de outros ambientes computacionais mais conhecidos (editores de texto). O trabalho inicial, de organização lógica do raciocínio histórico, deveria ser transferido para o computador, sempre com a mesma linha de raciocínio, desenvolvida inicialmente nos mapas conceituais, aplicada a todos os conteúdos desenvolvidos em sala de aula até o final do ano letivo.

Além dos conteúdos históricos, os alunos são estimulados a explorar outras potencialidades, tais como a síntese, nas explicações que julgam necessárias. Isto é realizado numa linguagem objetiva e direta, atendo-se estritamente ao necessário.

O Mapa Conceitual concreto adquiriu vida e dinâmica no ambiente informatizado. No papel, corre-se o risco dele tornar-se confuso, tendo em vista as várias setas que saem e chegam a um determinado conceito, pela quantidade de informações que vão sendo acrescentadas ao longo do trabalho. Já no computador, foi possível visualizar a idéia central, ou conceito-chave, de uma forma clara, além de fornecer novas informações e aprofundar o conteúdo. As várias setas que entram e saem de um Mapa Conceitual foram guardadas nas janelas e somente são abertas quando solicitadas, não interferindo na imagem inicial, que contém as relações fundamentais entre os vários acontecimentos que compõem o fato histórico selecionado.

A assessoria do professor é constante, pois é neste contato individualizado os alunos aprendem a ter clareza na identificação do que realmente querem e do que estão realizando, como saber a diferença entre definição e característica, entre característica e exemplo, entre conjuntura e história. Da mesma forma, aprendem a agrupar semelhanças, sob um mesmo termo comum: uma mesma língua, uma justiça única, a utilização de uma mesma moeda válida em todo o território política e administrativamente definido, que configura o Estado Nacional, e este passa a ser o conceito aglutinador de todas as demais características elencadas. Em suma, aprendem tanto a discernir quanto a generalizar.
 
 

Principais Resultados Obtidos

A análise do produto final apresentado pelas turmas enfatizam aspectos que demonstraram os diversos campos em que os alunos demonstraram crescimento. No decurso do trabalho ficou claro para os alunos o que é definição, o que é característica, o que é idéia principal, o que são idéias acessórias e que estas são diferentes dos exemplos. Em relação ao conteúdo, a construção da imagem principal deixava explícita todas as relações e vínculos aos quais a idéia-chave, ou fato histórico, estava ligada, pois conseguiram estabelecer as relações lógicas de forma adequada. Como cada constructo é particular, todos os trabalhos foram diferentes, expressando um pouco de cada aluno; o grau de aprofundamento, seriedade dado ao trabalho e as potencialidades de cada um, puderam ser expressos no interesse em aprimorar o seu trabalho, explorando melhor os recursos do programa.

Durante a elaboração do mapa, quando surgia alguma dificuldade, fosse em relação ao conteúdo ou em relação ao programa, buscavam sempre ajuda entre os colegas ou com os professores de História ou Informática, que atuavam como facilitadores. Este contato, principalmente entre os colegas, favoreceu o crescimento intelectual pois, ao visualizar outras construções, tiveram novas idéias, fomentando a discussão entre eles acerca da posição de determinada informação, possibilitando um crescimento cognitivo concomitante à interação intra-grupal e inter-grupal. A interação intra-grupal ocorre na disputa entre os colegas para que um dos componentes não monopolize o trabalho para si, estabelecendo-se uma discussão acirrada entre eles para que cada um mantivesse o seu espaço de participação e para que as suas idéias fossem ouvidas e contempladas, caracterizando o trabalho como produto do grupo.

A relação inter-grupal mostra-se no desenvolvimento do senso crítico dos alunos em relação ao seu próprio trabalho, quando o comparam aos dos demais e se apercebem que faltam informações ou que elas estão mal localizadas, tendo que recorrer, muitas vezes, a outras fontes.

O ambiente possibilitou, também, a demonstração do senso estético, na medida em que os alunos escolhiam cores, letras, formas e ilustrações para que o impacto causado pudesse transmitir uma noção melhor do conceito desenvolvido e da hierarquia das informações.

Através do Mapa Conceitual realizado pelos alunos, é possível ao professor saber o que precisa ser mais enfatizado e explorado, pois os alunos excluem informações sobre as quais eles se sentem inseguros.

Apesar da resistência inicial, à medida em que o trabalho progredia os alunos compareciam ao laboratório em horário extra para trabalhar. Gostaram do trabalho e pediam mais tempo no computador. Aí foi necessário ensiná-los a organizar o seu tempo disponível, que era de apenas um período semanal. Dos 42 grupos formados, apenas um ficou na fase inicial do trabalho - transposição do mapa concreto para o virtual - tendo estacionado neste ponto. A dificuldade de comunicação e a conseqüente falta de integração entre os componentes do grupo foi fundamental nesse caso.
 
 

Conclusões

Ao concluir-se esta experiência-piloto do Projeto "O Computador fazendo História" obteve-se a confirmação da maioria dos objetivos previstos no projeto inicial, além de observar a importância de outros fatores - ambiente de trabalho apropriado à proposta, avaliação do processo ensino e aprendizagem - que se mostraram relevantes.

Ao realizar o projeto várias habilidades foram trabalhadas: identificação e seleção das palavras consideradas significativas para o seu constructo, organização lógica, classificação, seqüência hierárquica dos acontecimentos, senso estético, objetividade e clareza do conteúdo, além da exuberante criatividade.

Conforme previsto, observou-se que, além do desenvolvimento das habilidades mentais com o uso de novas tecnologias de informação, as condições de trabalho - espaço físico, mobilidade permitida na sala, circulação entre os grupos, solicitações de ajuda, opiniões emitidas sobre os trabalhos, o atendimento individualizado dos professores a cada um dos grupos - foram componentes altamente estimuladores na aprendizagem. A liberdade de ação, associada à liberdade de pensamento, possibilitou que os alunos apreendessem no ato de discutir com os colegas, na colocação de suas idéias e na firmeza ou não de seus argumentos.

Na medida em que todos os trabalhos foram diferentes, é possível dizer que a proposta atingiu o seu objetivo de constatar como o aluno percebe o conteúdo e as ligações necessárias entre os fatos. Os alunos construíram o seu próprio conhecimento sobre os temas desenvolvidos utilizando o método proposto, ao invés de simplesmente reproduzirem um conteúdo que lhes tenha sido imposto.

Após análise dos resultados, considera-se interessante a inclusão de procedimentos mais ampliados no tocante à exploração dos recursos do programa, não atendo-se exclusivamente ao Mapa Conceitual, que é o ponto de partida e de sustentação da confecção do trabalho, o seu referencial.

Do ponto de vista do professor, a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento do trabalho, em todas as suas fases, ofereceu-lhe um excelente recurso de autocrítica do seu desempenho, pois foi possível observar lacunas significativas no constructo dos alunos, relativas a informações não internalizadas.

É importante observar que o projeto é independente do ambiente computacional usado, podendo ser desenvolvido com outros softwares que apresentem recursos semelhantes e mais avançados, aproveitando ao máximo os crescentes incrementos tecnológicos.
 
 

REFERÊNCIAS
 

BALDISSERA, José Alberto. O livro didático de História: uma visão crítica. 4ª ed.rev. Porto Alegre: Evangraf,1994.

IBM Corporation. IBM LinkWay Live!: Reference Guide Version 1.00. Boca Raton: IBM, 1992. (1)

IBM Corporation. IBM LinkWay Live!: Product Guide Version 1.00. Boca Raton: IBM, 1992. (2)

IBM Corporation. IBM LinkWay Live!: Installation and Learning Guide Version 1.00. Boca Raton: IBM, 1992. (3)

SPERB, Angela Tereza. As cinco questões de Gowin e o mapa conceitual como instrumentos para o ensino e a aprendizagem. Revista de Estudos. Novo Hamburgo: Feevale, ano 14, v.14, n. , p.38-472, 1991.