ESTUDOS EM IMAGENS FALANTES:
Estimulação do ensino e treinamento de Leitura Labial e Língua de Sinais
- LIBRAS VIA CD-ROM em crianças surdas
 

Tese de mestrado UNICAMP 1996 de Claudia Negrão Pellegrino orientada  pelo Prof. Dr. José Armando Valente
Endereço: Rua Ângelo Grigol n.341, Campinas SP Brasil CEP: 13082-010. Fone/Fax: (019) 2874463
 
 
RESUMO

Este projeto teve como objetivo desenvolver um CD-ROM para estimular a aprendizagem e o treinamento de crianças surdas em leitura labial e Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Trata-se de um complemento tecnológico para a educação especial, que consiste em estimular através de imagens computadorizadas, o processo de comunicação e aprendizagem interativa. Procura-se, desta forma, facilitar uma maior integração do surdo na sociedade, respeitando a diversidade cultural e lingüística dos mesmos, bem como facilitar o acesso dos familiares, profissionais e pessoas que tenham interesse à comunidade dos surdos.

Introdução

Uma sala de terapia fonoaudiológica de aproximadamente quatro metros quadrados. Na mesinha ou no chão, uma criança surda sentada de frente para o fonoaudiólogo, olhos atentos a qualquer movimento das mãos, das bocas, apreensão. Em portas fechadas, a tentativa de comunicação: o fonoaudiólogo com suas técnicas depara-se com o silêncio das mãos que esconde ainda um mundo diferente e desconhecido. Baseado em técnicas aprendidas, o profissional muitas vezes lança mão de exercícios exaustivos na tentativa ansiosa de realizar o seu trabalho. Na maioria das vezes, no tratamento com o surdo, nossa atuação é cobrada de modo que os familiares e os próprios colegas de trabalho criam expectativas maiores do que as que nos cabem, esperando de nós soluções, em determinados casos, difíceis de serem alcançadas tão rapidamente. Não se trata aqui de julgamentos sobre a postura de profissionais e de pessoas envolvidos na questão da surdez, mas de pontuar alguns aspectos problemáticos que envolvem a terapia fonoaudiológica com o surdo.

Uma das dificuldades do fonoaudiólogo em relação ao ensino de leitura labial, a meu ver, está no uso de técnicas repetitivas, o que estabelece muitas vezes uma troca mecânica e cansativa entre o profissional e o surdo. Possivelmente, uma das causas dessa artificialidade da técnica é justamente a falta de informação e de discussão na formação do profissional e na própria universidade sobre métodos e teorias que envolvem a postura apropriada de cada profissional frente à comunidade surda. Posturas teóricas como, por exemplo, o Oralismo vem, desde o século XVIII, discriminando e impondo a fala e a escrita como os únicos meios legítimos de comunicação. Já a Comunicação Total, que vem do inglês "Total Communication", é um modelo formalizado por educadores americanos, que oferece ao surdo uma linguagem "mesclada", ou seja, utiliza-se tanto o ensino da fala como a linguagem de sinais, aceitando todos os meios de comunicação. No entanto, essa abordagem é discutida pelos teóricos do assunto no que diz respeito a sua precisão conceitual. A linguagem de sinais, na perspectiva do Bilingüismo, é assumida como uma língua, respeitando a diversidade cultural e lingüística dos surdos. O Bilingüismo reconhece os surdos como uma comunidade lingüística, assumindo-os como um grupo social, que historicamente foi muito discriminado. Essa teoria propõe que a criança surda aprenda, o mais cedo possível, a linguagem de sinais, considerando a lingua oral como segunda língua. Muitas vezes torna-se temeroso e complicado para o próprio surdo, que em sua maioria possui pais ouvintes e que, portanto, já tem contato com a língua oral:

"Compreensivelmente líderes surdos, pricipalmente aqueles oralizados, temem que a proposta bilíngue elimine de vez o direito do surdo em ter acesso à oralidade o que os distanciaria dos próprios pais". (Souza. 1996, pg 127). Tendo em vista a necessidade dos surdos de aprender tanto a Língua Oral quanto a Língua de Sinais, o presente trabalho tem a preocupação de oferecer através do computador as diferentes linguagens referidas acima. É importante que a comunidade dos surdos tenha acesso a recursos tecnológicos, que possibilitem uma maior diversidade de leituras na interface com as imagens oferecidas pelo CD-ROM. Pretende-se ainda tentar amenizar o stress que muitas vezes emerge na terapia fonoaudiológica, no encargo pedagógico e na interação com os famíliares.

Com o olhar restrito somente aos lábios, o Oralismo impunha dolorosamente a obtenção do som, pela valorização exclusiva da fala. O aparecimento das mãos, a valorização dos gestos, na perspectiva Bilingüista, amplia o universo de aprendizado oferecido aos surdos. A possibilidade de escolha, a opção do surdo em navegar por diferentes linguagens de acordo com a sua necessidade frente a uma tela de computador, a meu ver, situa e oferece ao surdo uma multiplicidade de opções em que o próprio surdo será o autor da sua escolha, tornando-se responsável e livre para trilhar o seu caminho.

O olhar a realidade através de um único foco, restringe o observador, que passa de sujeito a objeto de uma determinada postura teórica. O educador continua com o papel de guia que lhe é fundamental, o CD-ROM nasce como um instrumento, que tanto o profissional quanto o surdo poderão manusear. Portanto, não se trata de delegar a responsabilidade ao surdo, mas de se criar oportunidade de escolha de uma ou várias línguas para o seu aprendizado.

Quem controla os direitos e os deveres dos surdos, senão o próprio surdo? É ele que responsavelmente opta e questiona o seu caminho, e tem o educador como um conselheiro e amigo apto para responder as suas dúvidas. O surdo, portanto, ao entrar em contato e escolher a gama de linguagens para o seu aprendizado, torna-se consciente para definir e defender o seu espaço político e sua cidadania. Além disso, o transitar livremente tem como presuposto que o aprender é linguagem viva, é desejo, vai além do racional.

Na minha trajetória como fonoaudióloga pude observar e utilizar diversos tipos de práticas terapêuticas com os surdos. Durante os anos de 1989 a 1993, trabalhei com os surdos no CEPRE - Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação "Prof. Dr. Gabriel de Oliveira da Silva Porto"-F.C.M.- UNICAMP. A nossa rotina de atendimento era duas vezes por semana retirar as crianças da sala de pedagogia, por aproximadamente 30 minutos, para o tratamento em terapia fonoaudiológica. Neste tratamento, individual e em grupo, exercitávamos, repetidas vezes, além da comunicação gestual, a adequação da fala para um mundo na sua maioria ouvinte e falante. Não fomos treinados suficientemente em LIBRAS, portanto a terapia tornava-se muitas vezes difícil e restrita. Nossos vocabulários - o do terapeuta e o da criança - ficavam limitados em LIBRAS e a responsabilidade para que o surdo falasse era cobrada principalmente pelos pais e profissionais que advinham da prática oral. Dentro da prática oral, a leitura labial é essencial. Para aprendê-la, o treinamento minuncioso realizado principalmente pela criança torna-se repetitivo e exaustivo. Lidar com essa dificuldade da fala causa no surdo angústia e sofrimento e forçá-lo a qualquer custo a emitir palavras acarreta uma situação de stress, de derrota. Muitas vezes, quando a criança saía de uma sessão terapêutica, os pais, ansiosos e preocupados em ver resultados na fala, pediam que ela repetisse "com a voz" o que tinha aprendido. Poucas vezes notei dos pais o incentivo para o uso de sinais. O que significava essa atitude? Vergonha de se ter uma filho surdo ou a falta de conscientização de que ser surdo é ser cidadão e ser tão capaz como qualquer outro.

Considero que o agravante é não conhecer a língua do seu interlocutor, sentimo-nos "estrangeiros" frente ao outro. Por um lado, para os ouvintes, a LIBRAS é pouco conhecida (os próprios pais têm dificuldades) e, por outro lado, para os surdos, a fala é difícil pois a leitura labial exige um treinamento constante desde a infância, não sendo dominada pela maioria.

Em estágio na Gallaudet University em Waschington D.C., em fevereiro de 1993, pude observar o valor que é dado à Língua de Sinais (nos Estados Unidos chamada de American Sign Linguage - A.S.L.), como primeira língua de comunicação na sua comunidade. É importante ressaltar que a maioria dos professores e funcionários desta universidade é surda, além, claro, de seus alunos. Segundo Silvia Golocovsky, especialista em pesquisas do Gallaudet, afirma que a A.S.L. é a terceira língua mais falada nos E.U.A depois do Inglês e do Espanhol. Ainda pude conferir que no Gallaudet, o atendimento feito pelo Speech Therapist (fonoaudiólogo) no Pre-College Programs a crianças de 1 a 7 anos é, comparativamente, similar ao feito pela equipe do CEPRE-Unicamp, ou seja, são realizados trabalhos como discriminação auditiva, fala, integração com os fonemas, etc. Os recursos da universidade são muitos, podemos citar brevemente alguns: estúdio de televisão para a produção de programas especiais para surdos, utilizando basicamente a A.S.L., tradutor simultâneo legendado para TV. Porém, não encontrei recursos tecnológicos auxiliares no treinamento de leitura labial, a não ser o programa desenvolvido pela IBM o Visible Speech, que consiste em treinar ludicamente com o computador o sopro, consoantes plosivas etc.

Portanto, apesar dos inúmeros esforços realizados em direção ao aprimoramento da metodologia de ensino do surdo, não temos à nossa disposição nenhum material visual via CR-ROM para o treinamento em LIBRAS e leitura labial. A comparação das diferentes realidades, os anos de prática e ainda as pesquisas comprovam que a habilidade visual do surdo é altamente desenvolvida. A partir de então minha busca foi a de criar o material via CD, utilizando inúmeros recursos disponíveis na multimídia, o que possivelmente ampliará enormemente as possibilidades de integração dos surdos na sociedade ouvinte e que, simultaneamente, possibilitará o ouvinte a aprender a LIBRAS.
 
 

A Pesquisa e seus Objetivos

A proposta desse projeto foi a de estudar recursos de multimídia via CD-ROM para a elaboração de material audio-visual pedagógico especial no treinamento de lábio leitura e ensino de Língua de Sinais-LIBRAS em crianças surdas. Em especial, meu campo de trabalho e de observação foi no setor de fonoaudiologia do CEPRE-UNICAMP. A seguir, relaterei os passos tomados no andamento das minhas pesquisas.
 
 

O início

Recolher e analisar dados através de imagens que captadas com uma câmera de vídeo VHS. Filmados nos corredores e pátios conversações espontâneas de professores, mães de alunos, foi utilizado vários ângulos, closes, velocidades, posições e distâncias, para que, no decorrer da pesquisa, pudesse analisar juntamente com os alunos surdos quais eram as imagens mais significativas para eles, tendo em vista a compreensão das palavras através da leitura labial. Após essa etapa, foi sugerido então às pessoas filmadas (professores e os pais) que repetissem algumas palavras e frases escolhidas, delineando assim para mim, uma melhor forma para analisar a boca que melhor articulasse mais adequadamente as palavras propostas. As palavras e frases usadas foram: mala, bala, faca, vaca, gato, galo, bem como, ele está bem, ele está com dúvida, ele está satisfeito.
 
 

O desenvolvimento

Após várias conversas e reflexões, foi escolhido um livro infantil a ser traduzido para CD-ROM e a melhor "boca", ou seja, aquela que articulasse melhor os fonemas e que principalmente tivesse um melhor êxito perante aos surdos. Foi escolhida a de uma professora do CEPRE, com ampla experiência na educação dos surdos.

O livro, por sua vez, foi escolhido tendo como prioridade principalmente o gosto das crianças, que elegeram o livro O Barco de Mary França e Eduardo França, Editora Ática, São Paulo, 1980. Para completar o trabalho, foi escolhida para a tradução em LIBRAS uma ex-aluna surda que trabalhava na época como assistente dos professores.

Foi elaborado também para uma análise qualitativa, questionários para profissionais que trabalham com surdos e para os próprios surdos. A intenção desse questionário para os surdos foi para que esses (10 indivíduos) pudessem avaliar principalmente qual é a importância da leitura labial e o que é ser surdo. Para os profissionais, foi elaborado um questionário (Capítulo 4, em 4.2.2 à 4.2.4) em que eles relatassem suas experiências, métodos de trabalho para a leitura labial, bibliografias conhecidas e dificuldades encontradas no trabalho (1 professora surda e 4 fonoaudiólogas, de três Associações que a mais de 20 anos que trabalham com surdos na cidade de Campinas, CADAF, ANNE SULIVAN e CEPRE-UNICAMP).

Após vários anos trabalhando com surdos, a meu ver, a tecnologia, principalmente via computador, nos coloca frente a desafios da criação. São inúmeras as possibilidades que essa ferramenta nos oferece, além de proporcionar ilimitadas formas de comunicação ON LINE nas diversas partes do planeta. Considero que esse material poderá servir para:

• Propiciar o desenvolvimento da capacidade de comunicação do surdo além da linguagem de sinais, estimulando a atenção necessária à expressão oro-facial do interlocutor;

• promover a integração da linguagem de sinais com a linguagem verbal;

• facilitar o acesso do surdo e familiares a um material que possa dar continuidade em casa ao treinamento;

• observar e pesquisar a contribuição da tecnologia no atendimento aos surdos;

• valorizar e atualizar a pedagogia especial, comprometida com o processo de transformação social, de acordo com a necessidade real da educação dos surdos.

Surdez: Considerações, breve histórico na Educação dos Surdos

Antes de iniciarmos um breve histórico da surdez, vamos nos deter um pouco em uma pergunta que nos parece óbvia, mas que no entanto nos faz parar e pensar: o que é a surdez? o que é nascer no silêncio?

Essas e outras questões nos fazem pensar no modo pelo qual as pessoas surdas alcançam a linguagem oral para a comunicação em uma sociedade, em sua maioria, falante e ouvinte.

Para classificarmos um indivíduo como "surdo", devemos levar em consideração, aspectos anátomo-fisiológicos e também significados qualitativos, pois a surdez possui graus muito diferentes, nuances extremamente sutis. Dentre as muitas e diferentes formas de classificação da surdez, usaremos a que Oliver Sacks (1986) utilizou em seu livro Vendo Vozes:

1- "Audição deficiente, pessoas que só conseguem ouvir alguma coisa com o uso de acessório auditivo e bastante paciência da parte daqueles que lhes falam. Muitos de nós tem pais e avós nessa categoria.

2- Extremamente surdos, muitos em decorrência de uma doença ou lesão no ouvido nos primeiros anos de vida; mas no caso deles, como também acontece com as pessoas de audição deficiente, ainda é possível ouvir e falar, especialmente com os novos aparelhos auditivos.

3- Profundamente surdos, que não tem qualquer esperança de ouvir alguma fala, não importa os avanços tecnológicos possíveis e imaginários. As pessoas profundamente surdas não podem conversar de maneira usual, devem ler lábios, usar a linguagem dos sinais ou fazer as duas coisas" (pg 20).

Sacks ainda coloca que "não é o grau de surdez que importa, mas sim - em termos cruciais - a idade ou estágio em que ocorre." (ib.pg.21). Podemos então ter uma pequena idéia de como essas pessoas vivem e qual o grau de dificuldade que encontram para se comunicar.

A surdez está sendo cada vez mais estudada e pesquisada. Duas grandes correntes filosóficas eram discutidas: A primeira chamada de Corrente Negativista, na qual a surdez era vista como um castigo de Deus e todos que nasciam com essa deficiência eram tratados como deficientes mentais; a segunda, a Corrente Otimista, que acreditava que os surdos eram capazes de aprender e de realizar trabalhos intelectuais.

Romanos, gregos e a Igreja Cristã de Santo Agostinho até a Idade Média acreditavam na inferioridade dos surdos, pois uma vez não entendendo os preceitos e dogmas religiosos, não poderiam ter chance de "salvação".

"Estúpidos", "dumb" na expressão "deaf and dumb", assim também era, indicada no séc.XVI a maioria dos surdos. Não havia sequer outra maneira mais aceitável de serem chamados. Essa situação desumana só começou a ser transformada a partir do séc XVIII.

Os intelectuais da época começaram a se interessar pelo "menino selvagem de Aveyron" que foi levado para Paris em 18OO no Instituto Nacional para Surdos-Mudos, supervisionado pelo Abade Ambroise Sicard. O menino despertou um enorme interesse nos filósofos e pedagogos, cujos questionamentos eram: Como ele pensava? Podia ser instruído? O médico Jean Marc Itard, que também trabalhava com surdos, levou o menino para sua casa e tentou lhe ensinar a linguagem e instruí-lo (Sacks. 1986, pg. 25).

Tinha em mãos questionamentos, observações que "esperavam definir qual era a característica do homem. Talvez agora se tornasse possível avaliar os dotes naturais da espécie humana e determinar de uma vez por todas o papel desempenhado pela sociedade no desenvolvimento da linguagem, inteligência e moralidade." (ib. pg 26). Tentaram, mas o menino selvagem não conseguiu adquirir a linguagem oral, foi forçado à aquisição da fala e não se sabe porque não lhes ensinaram gestos.

David Wright, outro menino que ficara surdo aos oito anos de idade em 1927, foi levado à Escola Oralista na Inglaterra Northampton School. Conta ele que sua reação foi de espanto ao encontrar crianças que nunca tinham escutado a voz humana, ou seja, aquelas que nasceram totalmente surdas:

"Às vezes eu tomava aulas junto com Vanessa. Ela foi a primeira criança surda que conheci(...) mas mesmo para um menino de oito anos como eu, seus conhecimento gerais pareciam estranhamente limitados." (ib. pg 34). Convém citar que nessa escola era proibido qualquer uso de sinais.

Temos, portanto, uma diferença primordial que influencia não somente o comportamento da criança surda como o processo de aquisição de linguagem: a criança que nasce surda e a criança que perde a audição quando já adquiriu a linguagem.

Desde essa época, a educação do surdo vem sendo estudada e questionada, como por exemplo a respeito do uso ou não uso da língua de sinais para a comunicação. Colocaremos abaixo algumas breves citações interessantes de educadores e pesquisadores, suas reflexões e experiências com os surdos:

Cardan no séc. XVI:

"É possível pôr um surdo-mudo em condições de ouvir pela leitura labial e falar pela escrita, pois assim como sons diferentes são convencionalmente usados para significar coisas diferentes, também pode acontecer com as várias figuras de objetos e palavras (...) caracteres e idéias escritas podem ser relacionados sem a intervenção de sons" (Sacks. 1986, pg 34). Abade L'Epee, (precursor da linguagem de sinais com os pobres na cidade de Paris que, em 1791, funda o Instituto Nacional para Surdos-Mudos): "Se não tivéssemos nem língua, mas apesar disso desejássemos manifestar coisas uns para os outros, não deveríamos, como as pessoas que hoje são mudas, nos empenhar em indicar o significado pelas mãos, cabeça e outras partes do corpo?"

(ib. pg. 37).

Pierre Desloges (escritor surdo): "No início da minha enfermidade e por todo o tempo, em que vivi apartado de outros surdos, não tinha conhecimento da língua de sinais. Usava apenas sinais dispersos, isolados e sem ligação. Não conhecia a arte de combiná-los para formar imagens distintas com que se podem representar idéias diversas, transmiti-las para seus semelhantes e conversar em discurso lógico" (ib. pg 27). Hughlings Jackson (neurologista britânico, 1915): "Não falamos nem pensamos apenas em palavras ou sinais, mas em palavras ou sinais relacionados uns com os outros de uma maneira particular(...) Sem uma interrelação de suas partes, uma manifestação verbal seria uma mera sucessão de nomes, um acúmulo de palavras, sem representar qualquer proposição(...). A unidade da fala é uma proposição. A perda da fala (afasia), portanto é a perda da capacidade de fazer proposições, e proposicionar não apenas a perda da capacidade de proposicionar alto (falar), mas também de proposicionar internamente ou externamente(...) o paciente sem fala. O paciente sem fala perdeu a fala, não apenas no sentido popular de não poder falar em voz alta, mas no sentido mais pleno. Falamos não apenas para dizer a outras pessoas o que pensamos, mas para dizer a nós mesmos o que pensamos. A fala é uma parte do pensamento." (ib. pg 34).
 
Métodos de ensino na educação dos surdos
 
 

Muitos foram os educadores, os pesquisadores que tentaram "educar" os surdos, "encaixá-los" na sociedade. Vários métodos foram empregados, não cabendo aqui um aprofundamento, mas sim uma rápida explanação dos mais usados, citando historicamente o autor e defensor de cada um.

Convém lembrarmos que historicamente alguns surdos só foram considerados indivíduos após o Código de Justiniano 529. Esse Código protegia os indivíduos surdos e de preferência os de famílias nobres que pudessem receber uma educação formal (se expressando principalmente através da escrita), esses surdos poderiam herdar propriedades, sendo assim considerados cidadãos e pertencentes a uma sociedade.

Desde o início da Idade Moderna, a visão da concepção de "ser surdo" estava começando a se transformar. Educadores (na sua maioria padres), eram requisitados pelas famílias nobres que tinham como membro algum filho surdo.

Nesse contexto surge então Frei Beneditino Pedro Ponce de Leon, (1510-1584) que educou surdos de famílias nobres espanholas. (Moores, 1987).

Seguindo as mesmas concepções ou necessidades vigentes no código Justiniano, surgiram educadores como Juan Pablo Bonet (1579-1629), Dr. George Dalgarno (1626-1687), entre outros.
 
 

A comunicação verbal dos surdos, aspectos sociais, educacionais e dados das Associações de Surdos no Brasil





Aspectos sociais

A compreensão da palavra depende não só do comprometimento da surdez, mas também, como vimos anteriormente, da época em que esta foi adquirida e descoberta.

O delineamento de conduta perante a descoberta da surdez é também considerado um fator de extrema importância. Aspectos psicológicos, sociais em que a família se encontra, choques culturais e econômicos são traços marcantes na vida de um indivíduo surdo.

Em hipótese alguma, podemos esquecer que, no plano da comunicação, todos esses fatores se conjugam. A comunicação só é efetiva e integrativa quando todos esses fatores anteriormente mencionados forem trabalhados e superados pela comunidade que atua com o surdo.

Temos os casos de surdez moderada e pós locutivos, em que crianças devidamente protetizadas conseguem através de treinamentos específicos de estimulação auditiva e leitura labial um bom entrosamento com os ouvintes, podendo frequentar escolas e ter uma vida social "normal". Coloco entre aspas pois os profissionais e familiares que vivem a surdez sentem que existe ainda um preconceito e temor das pessoas que não vivenciam tal privação. A comunicação verbal e leitura labial são intensificadas pelo resíduo auditivo que a criança possui e praticamente a linguagem de sinais torna-se pouco requerida pela criança.

Para as crianças com perdas severas e pré linguais, as dificuldades são grandes. O acompanhamento em escolas de ouvintes é exaustivo tanto para os professores que em sua maioria não conhecem a linguagem de sinais, como também para o próprio portador da surdez. Na maioria das vezes, ao acompanhar reuniões de professores com os pais desses alunos, pude notar o "stress"do próprio aluno bem como de toda a equipe participante. Para essas crianças e seus familiares é necessário um acompanhamento intensivo e, a meu ver, exaustivo, se pensarmos em "adequá-lo" ao modelo puramente oral.

Não podemos jamais nos esquecer o fato de que o surdo é um indivíduo comum, que tem suas particularidades, tendo como todos nós, desejos para escolher, discriminar aquilo que para ele seja mais viável em termos de comunicação. O livre arbítrio, portanto, é a ferramenta fundamental de todos, a liberdade de escolha por um determinado método de ensino especial deve ficar a critério do indivíduo que o procura. O verdadeiro educador apenas segura a lamparina acesa, caminhando e conduzindo, suavemente os que pedem o seu auxílio.
 
 

Aspectos Educacionais

Os aspectos educacionais envolvem, no meu ponto de vista, dados históricos da comunidade surda e atuais das principais escolas no Brasil, que trabalham com surdos. Não podemos deixar de citar a trajetória de luta que a comunidade surda vem requisitando com justa causa em nossa sociedade. Abaixo relatarei alguns fatos que marcaram essa trajetória:

1855 - Chega ao Brasil Hernest Huet, (surdo congênito) e, com apoio de D. Pedro II, funda o Instituto de Surdos Mudos, difundindo a Lingua de Sinais.

1857 - Foi fundado o INES, Instituto Nacional de Educação dos Surdos.

1880 - Outro marco importante, no qual em Milão, Itália, houve o Congresso Mundial de Surdos, e adotaram a universalização do ensino oral em sua forma pura.

1915 - Os surdos conseguem um importante espaço político: criam a Word Federation of the Deaf (W.F.D).

1987 - Essa mesma Federação promove um grande encontro em ESPOO, na Finlândia, deliberando que: "Cada criança ou pessoa surda deveria ter o direito de utilizar livremente, na escola ou em qualquer outro lugar, a linguagem de sinais de seu país, e que portanto, qualquer escola deveria se preparar para a coexistência, em seu interior, das línguas oral e de sinais. (Souza. pg 108) (Actes from X Word Congress of the Deaf, 56-60; 67-77, 1987).

1923 - 1929 - Surge no Brasil a Associação Brasileira de Surdos, mobilizando a sociedade pelo direito do ensino para os surdos em Língua de Sinais.

1971 - Funda-se a Federação Brasileira de Surdos.

1977 - Foi criada a FENEIDA, Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos, federação composta por apenas ouvintes, envolvidos na questão da deficiencia auditiva.

E somente em :

1983 - A comunidade surda funda a Comissão de Luta pelos Direitos dos Surdos, entidade não legalizada. Nessa mesma época reivindicaram e foi-lhes negado a participação de indivíduos surdos na FENEIDA.

1987 - Em Assembéia Geral, a FENEIDA passa a se chamar FENEIS, Federação Nacional e Educação e Integração dos Surdos. Retiram o atributo até então imposto ao surdo de "deficiente", tomam sua própria responsabilidade, opinando e decidindo sobre seus próprios assuntos, reivindicam para que o ensino de LIBRAS possa ser reconhecido oficialmente e aprendido nas escolas públicas. Outro dado importante é que discordam que os alunos surdos seja agrupados em escolas normais, sem estarem alfabetizados, sem terem o direito de terem o acesso a LIBRAS, a escola como está hoje "não pode oferecer condições satisfatórias de aprendizagem" (Souza. 1996, pg 121).

1990 - Funda-se a Federação Nacional das APAS (Associação de Pais e Amigos dos Surdos).

1993 - A FENEIS, com o seu atual presidente Sr. Antônio Campos de Abreu, conquista sede própria.

Atualmente a FENEIS possui 20 entidades associadas, observando que no Brasil temos 65 associações, distribuídas no território Nacional, sendo que dessas 13 então no Estado de São Paulo e 14 em Minas Gerais.

Cabe aos políticos sérios, um maior reconhecimento da classe dos surdos. A aprovação de leis, citadas anteriormente em alguns estados, é o primeiro passo para se ter respeito e educação às pessoas que nascem surdas. Mas, além disso, existe um trabalho grande de desmistificação e preconceito que envolve a surdez. Os próprios profissionais que diariamente ajudam os surdos encontram grandes dificuldades em adquirir novos conhecimentos, recebendo salários baixos.
 
 

Instrumentos visuais para o treinamento da fala
 
 

Como pudemos ver anteriormente, a "tentativa" de "adequar" o indivíduo surdo ao mundo ouvinte e falante nos coloca frente a pesquisadores e educadores que intencionaram "melhorar" a sociabilidade, a integração desses indivíduos.

Muitos instrumentos visuais de treinamento da fala foram criados, pois constatou-se que o auxílio visual é de extrema valia para indivíduos surdo no aprendizado da fala.

Historicamente, temos como exemplo Alexander Graham Bell que em 1874 idealizou um "display visual", que consiste em um aparelho que utiliza instantaneamente o feedback das ondas da voz do usuário. Em 1944, foi criado no Bell Telephone Labs o "Visible Speech Translator", que através de uma tela (semelhante a da televisão) mostra ao aluno imagens instantâneas das ondas dos padrões sonoros de fala. Esses padrões de frequência da fala são emitidos e comparados entre o indivíduo surdo e o normal, sendo estes analisados simultaneamente, utilizando-se também, como auxílio visual, a coloração da tela. (Pickett.1968).

Após vários testes, esse aparelho sofreu transformações, sendo descritas por Starck, Cullen e Chase (1968) e a tela anterior foi substituída por uma tela de estocagem, ou seja, uma tela onde se mostra e fixa o padrão de voz desejado, podendo ser comparado e alterado quanto tempo for desejado.

Stark (1970) também pesquisou através desse aparelho oito crianças surdas, com idade de 7 a 12 anos, tendo como objetivo principal melhorar a produção da sílaba "pa", e um outro grupo de crianças que foram treinadas com um método táctil convencional. Observou-se que o grupo de crianças treinadas pelo método táctil apresentou melhoras significativamente menores do que aquelas treinadas pelo VST (ib. pg 87).

Outros pesquisadores importantes foram Potter, Kopp e Green (1947), que, utilizando-se do VST, notaram, após treinamentos sistemáticos, que seus alunos eram capazes de ler um grande número de palavras e de conversar por meio de frases simples. No entanto, notaram também que os padrões do VST para frases fluentes "eram muito complexos, e provavelmente, jamais seria possível comunicar-se somente por essa forma a uma velocidade próxima a da fala fluente" (ib. pg 87, 88).

Um outro aparelho foi criado por Hubert Upton, em 1968, em que lâmpadas miniaturizadas foram instaladas sobre as lentes de óculos (que fazem com que a voz ao ser emitida vá acendendo as lâmpadas). O acender de cada lâmpada bem como a intensidade do seu brilho (que é relacionado com a presença de certas categorias de sons) eram controlado por circuitos que reagiam às características da frequência e duração da fala recebida.

Outro grande desafio visual para o treinamento de fala foi o LUCIA, idealizado pelo Speed Transmission Laboratories, que teve como pesquisadores Lövgren e Nykvist entre 1957 e 1959 e que fora atualizado por Risberg em 1968. O LUCIA permite ao seu usuário visualizar blocos verticais e horizontais de luzes que representam padrões, sendo as frequências (completas) divididas em 20 faixas, e a intensidade em 10 blocos com 3 db (cada). Portanto, cada faixa representa diferentes parâmetros para indicar a qualidade da voz. Por exemplo, se a fala é rápida e fluente, o padrão de luz muda rapidamente. Esse aparelho também permite ao usuário "congelar" uma determinada expressão de voz para que posteriormente possa ser examinada e treinada (ib. pg 89). Risberg, nessa mesma época, projetou um indicador nasal para medir a nasalidade através de um coletor de vibração colocado na lateral das narinas.

"Tanto as consoantes nasais como as vogais nasaladas são bem discriminadas dos sons não-nasais, que têm um nível de vibração bem fraco no nariz" (ib pg 94). Esta é uma versão eletrônica dos métodos mais antigos de sentir as vibrações nasais com os dedos.

Pronovost, Yenkin, Anderson e Lerner (1968), tentando viabilizar o uso mais simplificado nos treinamentos da fala, desenvolveram o "Voice Visualizer", que mostra diferentes e amplas classes de sons, como por exemplo, vogais frontais, posteriores e sons nasais. Nessa mesma data, os pesquisadores Picket e Constam construíram um display bidimensional, uma espécie de spot , ou luz direcionada que é acionada a medida em que o usuário fala. A tela então indica, segundo seus autores, a articulação da língua durante a elocução de vogais, sons semivocálicos e semi-vogais.

"Display de medida", um outro aparelho que foi estruturado por Martony e Phillips (1968), surgiu com a preocupação de obter resultados objetivando principalmente a entonação da voz através do movimento de uma agulha sobre um medidor. Os autores observaram que:

"Sons como o "s" e o "sh" não podem ser ouvidos pela maioria dos surdos, portanto a pronúncia correta é difícil, mas é fácil de se obter eletronicamente uma medida da qualidade destes sons, que pode ser mostrada como uma deflexão da agulha em um medidor" (ib.pg 93,94). Como pudemos observar, vários foram os pesquisadores interessados na questão da fala dos surdos. Mencionamos apenas uma fatia pequena dessas pesquisas e tentativas; podemos então observar mais recentemente outros materiais que foram sendo elaborados.

Um dos principais orgãos que se dedicam a pesquisar notadamente a questão da oralidade dos surdos é a Alexander Graham Bell Association for the Deaf, que está localizada nos Estados Unidos, em Washington DC. Além de publicações de livros, jornais, pesquisas, promove congressos e articula pesquisadores do mundo todo que queiram se associar. Oferece bolsas de pesquisa para aqueles que se interessam principalmente pela área da surdez. Relatamos abaixo alguns dos materiais em leitura labial que foram publicados em 1994 (dados oferecidos pela Summer, 1994 publications, da Alexander G. Bell Association For the Deaf).

O Lipreading Made Easy and Lipreading Made Easy Videotape (Greenwald, Audrey, B) é sugerido principalmente para adultos que já tenham sido treinados em leitura labial estudarem em casa, uma vez que é uma série de exercícios que podem ser concluidos no preríodo de 8 a 10 semanas. Esses exercícios contêm um livro com fotografias de lábios pronunciando os diversos fonemas da língua inglesa e uma fita de vídeo seguindo o mesmo método de ensino que pode ser usada independente do livro.

O Lively Lipreading Lessons (Fisher. 1984) é um livro que tem como característica principal a adaptação entre o professor e a classe ou ao ensinamento individualizado, como a própria autora coloca "Do It Yoursef". O professor de leitura labial pode utilizar das 16 lições oferecidas no livro (14 de consoantes e 2 de vogais) da maneira que lhe convier, associando graus maiores ou menores de dificuldades dependendo do nível de seus alunos.

Outro material é o Read My Lips (Russell L. Robert. 1994), série completa de 6 videotapes para adultos, contendo lições básicas de palavras e frases para o treinamento de leitura labial.

A audiologista Marjorie Jacobs e o professor E. William Cymer, juntamente com a artista e designer Marie Buckley (1978), escreveram um livro muito utilizado nas escolas americanas para surdos. Têm como proposta pedagógica levar, através da escrita e de desenhos, informações e comentários indicativos para uma boa recepção e emissão da leitura labial. O livro é indicado a indivíduos surdos, seus familiares e pessoas que se interessem pelo assunto.
 
 
 

Desenvolvimento Do Software Educacional para o Treinamento de Leitura Labial e Língua de Sinais LIBRAS

em Crianças Surdas.
 

O desenvolvimento desse software foi realizado em três etapas. A primeira etapa, a captação de imagens via vídeo e a escolha do livro infantil foi feita juntamente com as professoras do CEPRE, traduzido mais tarde em CD-ROM. A segunda etapa foi a análise de fita do vídeo (dividida em 4 partes) e questionários junto aos professores alunos surdos e funcionários do CEPRE.A terceira e ultima etapa consistiu no desenvovimento do CD-ROM no Laboratório de Informática do Instituto de Artes-Paulo de Laurentiz-UNICAMP, sob a supervisão do Prof. Marcelo Costa Souza e no teste piloto demonstrativos com cinco crianças surdas alunos do CEPRE-UNICAMP:
 
 

Etapa I: captação de imagens, roteiro e escolha do livro.

Captação das imagens e roteiro

Utilizou-se, para a coleta de imagens, uma câmera Super VHS, preferindo trabalhar na medida do possível com luz natural e tripé.

O espaço escolhido para as filmagens foi o próprio CEPRE, uma vez que as pessoas que foram filmadas e a própria câmera já eram familiares as crianças, facilitando assim o trabalho.

Breve roteiro: A fita de vídeo foi dividida em quatro partes:

A primeira, variações de rostos entre dois indivíduos em conversação normal, focalizando diferentes ângulos e planos. A segunda, variações de vários tipos de rostos e bocas emitindo as palavras.(mala, bala, faca, vaca, gato, galo), delimitando agora o foco para rostos e bocas, utilizando o close em primeiro plano. A terceira, frases curtas como: Ele está bem, ele está com dúvida, ele está satisfeito. Na quarta parte da fita, foram gravados 18 diferentes formatos de bocas de pais, professores e funcionários do CEPRE (mantendo as palavras acimas citadas).

Utilizou-se também, após a velocidade normal a câmera lenta para as frases, e também alguns efeitos na edição de coloração interna da boca, com a tentativa de observar os fonemas posteriores.
 
 

A escolha do livro

A escolha de O Barco, Marly França & Eduardo França, para ser filmado e transformado em software educacional, foi feita a partir de várias reuniões e discussões com os professores de surdos no CEPRE. Essa escolha se deu principalmente pela preferência das crianças de 3 a 7 anos de idade ao livro, observamos e constatamos que este era requisitado nas aulas e entre os colegas.

Escolhemos então, para a tradução do livro em LIBRAS, a auxiliar de classe, Patrícia, que é surda profunda de nascença e que frequentou o CEPRE desde pequena, dominando tanto a linguagem de sinais como leitura labial.
 
 

Etapa II: Questionário para comentário e análise do vídeo (quatro partes) aos alunos surdos e professores do CEPRE (entrevistas realizadas entre nos dias 18 e 25 de julho de 1994).

Após a captação das imagens, foram realizados dois encontros com os professores e alunos surdos considerados bons leitores labiais.
 
 

Questionário para comentário e análise do vídeo

Onze professores do CEPRE e alunos nas idades entre 19 a 25 anos, através do questionário e observação do vídeo (partes: primeira, segunda e terceira), tiveram como objetivo informar e assinalar individualmente e em grupo as imagens que para eles fossem as melhores, observando atentamente o formato dos lábios, articulação, expressão e a compreensão das palavras propostas. Para responder mununciosamente a quarta parte do vídeo, foi escolhido do grupo de alunos (observando que nem todos os professores e os alunos participaram desta fase) o sujeito surdo (com nível universitário) considerado o melhor leitor labial. Especificamente, juntamente com 18 diferentes formato de bocas, uma tabela qualitativa foi idealizada, com o propósito de delinear, dentre as imagens, a "melhor" boca. Foi pedido que observassem a compreensão das palavras, nos movimentos labiais, mandibulares, na expressão do rosto e rapidez na fala (vide vídeo).
 
 

As perguntas:

1) O que vocês acharam das imagens? Vocês entendem o que elas estão falando?

2) Qual a filmagem (parte: primeira), posição das bocas que vocês acham melhor?

3)E dos efeitos?. E a câmera lenta?

4) Vocês entendem o que a Nélia (professora do CEPRE) está falando?

5) E os efeitos da luz azul?
 
 

Comentários e respostas do grupo de alunos surdos

sobre o vídeo (partes: primeira, segunda e terceira)


7 alunos do CEPRE nas idades entre 19 a 25 anos (diagnosticados como surdos profundos, treinados desde pequenos em leitura labial, utilizam a linguagem de sinais para se comunicar. Entrevista realizada em grupo, no dia 25 de julho de 1994).

Seguem-se alguns comentários e respostas do grupo:

"fala muito rápida", "melhor de frente, a filmagem das bocas de lado é muito difícil", "não conseguimos entender nada".

Apenas quatro alunos, conseguiram identificar as palavras:

gato (1 aluno), faca (1), bala (2), os demais acharam "muito difícil".

Velocidade normal para as frases: apenas um aluno conseguiu ter pistas identificando "ele bem", os demais acharam "muito difícil". Um dado importante foi em relação ao vocábulário, aconselharam a usar o mais simples possível, e que fosse de conhecimento deles, pois eles não conheciam todas as palavras propostas.

Velocidade lenta para as palavras, gato (2 alunos), galo (1), faca (2), bala (1). Na opinião deles é "melhor" a câmera lenta pois é mais fácil identificar as palavras. Uma observação importante em relação as filmagens foi o fato de que os espaços entre as palavras deveriam ser mais longos, pois notei que três alunos confundiram como sendo frase.

Em relação ao efeito azul, dois alunos identificaram o fonema / c /, e me criticaram por não usar a câmera lenta, achando interessante o efeito, dizendo que seria melhor usá-lo com "crianças", podendo utilizar concomitantemente com as bocas figuras de animais, cenas do cotidiano etc.

Outro dado interessante foi o comentário sobre o enquadramento das imagens: os sete alunos preferiram o rosto todo ao primeiro plano utilizado para os lábios.
 
 

Comentários e respostas dos professores surdos

sobre o vídeo (partes: primeira, segunda e terceira)
 
 


Auxiliar de Classe W. A. (surdez moderada) do CEPRE, idade 20 anos
 
 

Considerado um excelente leitor labial, que domina perfeitamente a linguagem de sinais na sua comunicação. Teve dificuldade de entender, alegando que "eles falam muito rápido", "não dá prá entender nada", " muito difícil", "duas pessoas conversando não entendo, se falam comigo rápido assim".

Das palavras propostas, ele conseguiu identificar, galo, bala, faca e gato perfeitamente, sentindo dificuldade com os fonemas / v / e / f /: "são muito parecidos, confundo". A palavra "vaca" confundiu com "vai".

Velocidade normal: não teve dificuldade, acertou as três frases propostas rapidamente, sem nenhuma dificuldade.

Velocidade lenta: identificou todas, alegando:

"não tenho muita paciência com a câmera lenta, prefiro a normal, acho mais interessante com as crianças". Em relação ao efeito azul, conseguiu identificar todas as palavras propostas, dizendo que para ele é indiferente a utilização do efeito.


Auxiliar de Classe P. M. (surdez profunda) CEPRE, idade 18 anos:
 
 

"Eu não entendo nada do que o homem estava falando porque falou tão rápido. Solange (cabeça em baixo), não dá prá ver a boca. De lado também não dá". "Dois falavam mesmo tempo, quando ele estava falando bem lento aí eu entendo. A boca da Solange está meio fechada não dá prá entender". Ela conseguiu não propriamente identificar palavra por palavra da conversa, mas ter uma noção do assunto.

Confundiu no início os fonemas / b / por / m / e / f / por / v /, depois refez o erro rapidamente, compreendendo todas as palavras propostas. Conseguiu identificar as frases nas duas velocidades, observando que:

"achei que imagem bem lenta é bom porque é importante para surdos entenderem melhor". Em relação ao efeito azul, a sua opinião foi, "Achei o máximo!. É ótimo para crianças conhecer melhor como é a língua". A professora observou também que, para a montagem do software: "É importante para crianças e adultos aprender com fita (vídeo) sobre ler labial com professora (Fono):

3 tipos: Fala, figura, Língua de sinais.

Ótimo!

"Eu prefiro mostrar o rosto é bem melhor".
 
 

Comentários e respostas dos professores não surdos

sobre o vídeo (partes: primeira, segunda e terceira)
 
 
 
 


11 professores do CEPRE-UNICAMP, entrevista realizada no dia 18 de julho de 1994.
 
 

Não conseguiram identificar a conversação, apenas alguns movimentos da língua como o fonema / L / e a palavra "não". Três dos oito professores observaram também a necessidade de aprender a leitura labial não só como treinamento, mas para sensibilizarem quanto à dificuldade que um surdo encontra no seu cotidiano.

Conseguiram identificar algumas das palavras propostas, porém com muita dificuldade. Seguem-se abaixo as transcrições, comentários e sugestões dos professores para a montagem do software:

"Consegui identificar será que é? bala, faca, vaca e galo, super difícil, sem pista visual é difícil, só com a boca não adianta nada. / f / e / v / é difícil identificar. Bala, mala, pala, dá prá confundir"

"Acertei, gato/ bala/ faca/ , o resto não consigo ver, será que dá prá voltar a fita?"

"Prefiro o rosto inteiro, consigo identificar melhor . Mas que dificuldade!! imagine o surdo? "

"Vou lhe dar uma sugestão, para o sftware, porque você não começa com os fonemas mais visíveis, os plosivos, tensos, os bilabiais, e fricativos?. Por exemplo aqui consegui identificar os bilabiais".

"Fonemas semelhantes são muitos difíceis de serem identificados".

"Os fonemas sonoros são mais fáceis pois o tato ajuda muito".

A opinião do uso da velocidade lenta para a identificação das palavras, segundo os professores, foi importante pois possibilita visualizar com "cautela" as palavras, "nós que não estamos acostumadas a utilizar a leitura labial, mesmo assim ainda é difícil".

Alguns professores conseguiram identificar as frases:

"ele está satisfeito", ( 2 ), "ele está bem" ( 3 ) Em relação ao efeito azul da coloração da boca, quatro dos onze professores conseguiram identificar os fonemas / c /, / g /. "é interessante esse efeito, pode ajudar com as crianças", "consegui visualizar melhor", "com esse efeito, deu prá ver melhor o / c /".
 
 

Comentários e análise do vídeo, do sujeito surdo considerado o melhor leitor labial


S. R. (24 anos), surdez profunda, ex-aluna do CEPRE

(Tabela do vídeo das bocas e entrevista realizada no dia 13 de julho de 1994. Nível universitário, treinada para ler os labios desde os 2 anos de idade. Se comunica pelo método oral, não utiliza a linguagem de sinais).

Vïdeo parte (primeira)

Perguntas e respostas:
 
 

1) O que você achou das imagens?

Resp: "As imagens parecem boas". 2) Qual o melhor ângulo de filmagem em relação as posição das bocas ideal para você? Resp: "O cara de óculos escuros, tenho dificuldades na leitura labial. Observei que quanto mais perto, quanto mais tenho chances de entender. Mesmo assim, ainda é difícil.

O cara de óculos claros, quando fala de lado, anula o efeito da leitura labial. O mais engraçado é que nunca me acostumo com os caras que não conheço e demoro para me esforçar à comunicação. Isso faz levantar a questão da ligação entre o costume e a leitura labial, aprofundando mais os detalhes são a cara e o formato de boca, ( o cara de óculos claros parece ter uma boca pouco fechada por exemplo )".

3) E os efeitos, e a câmera lenta? Resp: "Ajudam pouco, mas nem tanto". Vídeo partes (segunda e terceira)

Palavras e frases:
 
 

4) Quais as palavras que você entendeu, e em relação as frase ?

Resp.: da conversação

"...Pra...", "...Porque...", "...o mais importante é que você...", "...não...".

"Não adianta escrever algumas palavras que não estejam em uma frase, por que isso cria uma possibilidade de pensar em outras palavras, parecendo usar o mesmo método. Por exemplo: "mala", "bala". Precisa de uma frase completa para esclarecer o sentido. Um defeito, não dá para reconhecer o som porque nunca presto atenção no som, senão na leitura labial. Quanto as distâncias que foram filmadas, não encontrei nenhuma dificuldade, não esquecendo dos detalhes que citei na parte 1 "a cara e o formato da boca".

O indivíduo reconheceu todas as palavras, tanto na velocidade normal como na lenta, observando que esta última era "excelente" para as crianças. Coloca ainda uma observação: "nota-se que pessoalmente quando nos comunicamos, o som até pode ajudar um pouco" (o sujeito é desde pequeno devidamente protetizado ). No vídeo, pode ver só o movimento.

Em relação ao efeito, observa que é exelente para as crianças. "As palavras "faca", "vaca", principalmente o fonema / c / ajudam bastante a perceber o movimento. Até pode ser usado para o caso do fonema "g".

Concluídas as etapas acima citadas, foi então selecionada a boca considerada a "melhor". Foi escolhida a boca da Prof. Nélia Barbosa que trabalha no CEPRE-UNICAMP, para a gravação de imagens para o CD-ROM.
 
 

Etapa III: Montagem do CD-ROM O BARCO e teste piloto com cinco crianças surdas nas idades de 6 a 7 anos.

CONTROL WIN, o Software utilizado
 

Após a captação e tratamentos das imagens do livro O Barco, utilizamos, para a montagem do CD-ROM, o Software para produção de multimídia Control Win, versão 1.01. Esse Software da MS Imagem, foi publicado no ano de 1996 pelo Prof. Marcelo Costa Souza. O Control Win caracteriza-se por ser:

"Um software idealizado para pessoas que não possuem conhecimento de linguagens de programação e nem técnicas em produção de sistemas multimídia, mas que são criativos e interesse nesta área da informática" (Souza, M. C. Manual do Sftware, pg, 19). Optamos por esse software, principalmente pela facilidade na construção do multimídia O Barco, além de proporcionar clareza, simplicidade e transparência na navegação por parte dos usuários.

Citaremos abaixo algumas características importantes desse software, e outras poderão ser encontradas no próprio manual:

- Específico para micro 486 DX 33 8 mega RAM, placa de vídeo 1 mega, 640-480 16 milhões de cores e winchester 540;

- Opera com qualquer sistema de multimídia para Windows;

- Permite ao usuário criar demonstrações avançadas;

- Edição de scripts para mesclar som, imagem e vídeo;

- Interface amigável" (ib. pg, 01).
 
 

Características do CD-ROM O Barco

As imagens para a feitura do CD-ROM foram scaneadas e reproduzidas fielmente ao livro. Inserimos em cada página do multimídia, duas janelas (reprodução em vídeo) para a descrição do livro em leitura labial e LIBRAS, Língua de Sinais Brasileira. Também na mesma página, foi inserido dois botões que acessam o ir para frente e o ir para trás. Mantivemos também a escrita, e nas páginas (2) que não têm escrita, não interferimos. Uma observação importante é que essa pesquisa foi feita com moldes e parâmetros tecnológicos disponíveis nos anos de 1994 a 1996 no Laboratório de Informática do Instituto de Artes-Paulo de Laurentiz, UNICAMP (fundado no início de 1995), portanto este CD-ROM não está pronto para ser comercializado.
 
 

Teste piloto demonstrativo do CD-ROM O Barco

com cinco crianças surdas:
 

Teste piloto, realizado no dia 29 de outubro de 1996:

Este teste (gravado em vídeo, teve a duração aproximada de 45 minutos).foi realizado no CEPRE-UNICAMP com o grupo da Prof. Zilda .Maria Jesuele, com cinco crianças surdas nas idades entre 6 a 7 anos.

As crianças, com as quais testei o CD-ROM, frequentam o CEPRE desde os 2 anos de idade. Todos estão auditivamente protetizados, sendo que dois deles, L. e B., segundo a fonoaudióloga, respondem mais aos estímulos sonoros propostos. Um dado importante é que esses alunos, estão tendo acesso a Língua de Sinais LIBRAS à 2 anos, com o professor surdo Valdecir. Participam regularmente da terapia fonoaudiológica (atendimentos de 30 minutos, 2 vezes por semana) proposta pelo CEPRE. Nessa terapia, os alunos são estimulados a receberem a leitura labial, sistematização dos fonemas através do treinamento da percepção e discriminação auditiva.
 
 

a) Acessando o CD-ROM O Barco: para cada página do livro, quatro botões estão a disposição do usuário. Dois botões (setas), embaixo à direita e esquerda, oferecem a mudança das páginas (avançar e retroceder). Duas janelas visualizando os vídeos (em pause), que ao serem acionados (um de cada vez), possibilitam ver o livro (página), no sistema de leitura labial ou em Língua de Sinais -LIBRAS. Na primeira página, o usuário acessando uma das janelas de vídeo, poderá ver o livro todo, por exemplo: ao acessar a janela de LIBRAS, o vídeo será passado ininterruptamente página a página, dependendo somente do usuário optar na sua interrupção. Assim também para a janela de leitura labial.
 
 

b) Teste piloto com as crianças:

Inicialmente, com as cinco crianças sentadas na frente do computador, demonstramos como navegar no CD-ROM O Barco. As crianças logo se familiarizaram com o CD-ROM, demonstrando um grande interesse. Propusemos então que cada um deles navegasse um pouco. Pudemos notar que cada criança tem um interesse particular ao acessar as janelas dos vídeos. Bruno por exemplo, prefere observar os desenhos e acessar a janela de LIBRAS (esse aluno, como pudemos notar, é muito inteligente, tem facilidade com o o computador, acessou rapidamente todos os comandos possíveis do CD-ROM, sugerindo e nos perguntando, com o mouse ao clicar os desenhos, se esses ofereciam movimentos e funções). L., por exemplo, prefere acessar a janela de leitura labial, reconhecendo na tela a professora Nélia, identificou o movimento dos lábios para as palavras: papai, barco, pescar e índio. Foi interessante notar que em grupo cada usuário recebe dos outros companheiros sugestões para a navegação, quando o interesse maior do grupo é avançar a página, um deles sugere ao navegador a mudança desta. A interação e integração do trabalho em grupo, a meu ver, foi bastante significativa, ao observar que as crianças repetiam junto com a imagem (LIBRAS), os movimentos das mãos, entendendo a história. As três outras crianças, M., R. e F., navegaram com grande interesse no CD-ROM, repetindo com as imagens clicadas a Língua de Sinais.
 
 

Conclusões

Parece óbvio, ao lermos essa citação de uma adolescente surda, que o fato de ela ter nascido surda não a limita a viver confinada a uma vida rotulada e discriminada pelo termo "deficiente". Correspondentemente outros dois sujeitos surdos afirmam que não são doentes para serem enquadrados em tal termo sugerindo "piedade" e "dó" e que podem perfeitamente utilizar a LIBRAS para comunicação.

Ao entrevistar os profissionais que trabalham com surdos, como pudemos ler anteriormente, fiquei surpresa e ao mesmo tempo assustada em descobrir e redescobrir o devaneio e falta de informações que nos foram colocado pelos currículos escolares universitários. Há dez anos, o que representava a LIBRAS para nós? E hoje? Quantas universidades que formam profissionais "especiais" requisitam em seus currículos o ensino de LIBRAS? E no ensino de leitura labial, o que se oferece em relação a novos métodos? A resposta reforça que a classe dos surdos no Brasil ainda é tratada como deficiente e que pouco ou nada se tem a oferecer para eles, no que se refere ao uso de novos avanços tecnológicos. Quando em 1993, eu e mais três colegas de trabalho do CEPRE-UNICAMP visitamos o Gallaudet University, pudemos conferir que o respeito para com o surdo, já havia ultrapassado a barreira do silêncio. Constatamos uma estrutura de ensino dirigida e politizada pelos surdos, engajada dentro da capital norte-americana, com enorme repercussão mundial, abrigando em seu Campus Universitário surdos do mundo todo. Entramos em conflito sim. Chegamos aqui e nos deparamos com um enorme atraso no trabalho com os surdos. É constrangedor ver que, ao entrarmos no século XXI, um cidadão brasileiro surdo ainda não consiga se comunicar com a LIBRAS nas escolas, que não possa usar o telefone público, uma vez que em países mais desenvolvidos e atentos, existem telefones codificados em texto corrente. A meu ver, a separatividade das "diferenças" contribui enormemente para o preconceito. A falta de informação, de pesquisas nessa área e a falta de incentivo por parte do governo embota e atrasa o processo de desmistificação de se nascer surdo nesse país.

Souza (pg 121) oferece um testemunho e relata a luta incansável dos surdos para poderem participar da antiga FENEIDA. Em 1987, os surdos que até então não podiam participar dessa associação, em Assembéia Geral vencem. A FENEIDA passa a se chamar FENEIS, Federação Nacional e Educação e Integração dos Surdos. Abolem o rótulo até então imposto aos surdos de "deficientes", reivindicam o ensino oficial de LIBRAS nas escolas públicas; assumem a responsabilidade, opinando e decidindo sobre seus próprios assuntos; discordam, que os alunos surdos sejam agrupados em escolas normais, sem estarem alfabetizados, sem terem o direito ao acesso a LIBRAS, a escola como está hoje, "não pode oferecer condições satisfatórias de aprendizagem".

A Federação desde então tem conseguido apoios de lingüistas na conscientização da população e de orgãos governamentais, para valorizar o ensino da língua de Sinais-LIBRAS e a carreira de intérpretes. Também a Federação tem atuado junto aos governos estaduais, conseguindo vitórias. Como vimos anteriormente, no estado de Minas Gerais, fica estabelecida a colocação de interprete em repartições públicas e o ensino de LIBRAS nas redes públicas. No Maranhão em 1993, reconhece-se a criação da carreira de interprete, aprovando a LIBRAS como uso corrente. Em Goiás, a lei número 12081 "obriga o Estado a treinar servidores públicos para a função de intérprete e a incluir no currículo da rede pública estadual, em qualquer grau, a Língua Brasileira de Sinais" (Souza R. 1996, pg 124, 125).

Também, estudos de posturas teóricas como o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilinguismo oferecem aos surdos possibilidades indiscutíveis de desenvolvimento. É sem dúvida imensa a contribuição que pesquisadores oralistas vêm mostrando no ensino da fala desde o século passado e importante contribuições em pesquisas mais recentes dos linguistas sobre a abordagem bilíngue, o uso e a importância da Língua de Sinais.

Aprendi muito - e nem sei como agradecer - com as colegas de trabalho, Nélia, Lúcia, Neusa, Cleide, Zilda, Tereza e tantas outras, que há mais de 20 anos vêm passando por várias mudanças principalmente em relação às posturas teóricas, sempre no intuito de procurar uma melhor forma de tratar o surdo.

As crianças com as quais convivi, Bruno, Luciana, Bárbara, Daniele e Roseane e tantas outras tão queridas ensinaram-me muito, principalmente na difícil tarefa do exercício da fala. Foram eles os maiores incentivadores na feitura desse CD-ROM, possibilitanto imensuráveis conquistas criativas, sejam elas feitas com palavras ou gestos, podendo ser realizadas pelas próprias crianças no seu aprendizado.

A facilidade que as cinco crianças surdas demonstraram no teste piloto com o CD-ROM O Barco nos leva a crer que o avanço tecnológico para com a pedagogia especial deve ser sugerido cada vez mais no âmbito das pesquisas. Ficou claro o interesse das crianças pelo CD-ROM, observando a interação entre elas para decidirem a página e as janelas (LIBRAS ou leitura labial) a serem acessadas. E, ao acessarem essas janelas, pudemos observar a repetição dos movimentos das imagens pelas crianças, seja das bocas na leitura labial, seja das mãos na linguagem de sinais - LIBRAS (vide vídeo).

Temos então a multimídia, um veículo para ser utilizado pelos profissionais, familiares e pessoas interessadas pelos surdos. Constatamos no teste piloto que, para os profissionais em sua prática terapêutica, o multimídia transforma e facilita uma técnica extremamente exaustiva e repetitiva, que é o ensino tradicional de leitura labial e a memorização em LIBRAS, deixando-a menos cansativa, de forma que o profissional e a criança possam usufruir ludicamente do trabalho sem torná-lo repetitivo, o que o faz ser rapidamente aceito pelas crianças. A possibilidade oferecida pelo CD-ROM de clicar à vontade as janelas das páginas do livro e o acesso a duas possibilidades de linguagens facilitam a memorização e o aprendizado da criança no seu próprio rítmo. A repetição diária exaustiva de fonemas no ensino de leitura labial entre o profissional e o surdo é notadamente diminuída. Para os familiares e pessoas interessadas, este software poderá facilitar enormemente o aprendizado da língua de sinais. O surdo não é mais aquele indivíduo tão diferente e de difícil acesso. No meu ponto de vista, a multimídia constrói uma ponte entre as diferenças. Os surdos, os ouvintes e as Associações de surdos interessados, acessando às duas linguagens, através do computador, podem optar pelo que e quando aprender.

Quero que, para todos eles e tantos outros surdos, este trabalho possa ser um caminho que facilite a integração social através do aprendizado criativo da Língua Oral e Língua de Sinais-LIBRAS, que a comunidade surda tenha acesso a recursos tecnológicos, que expandam a sua Língua natural; e que em um dia bem próximo, nossos filhos ouvintes não sejam mais "estrangeiros", podendo fluentemente se comunicar em LIBRAS.

Apenas dei com amor uma pequena contribuição e espero sinceramente que tantos outros possam dar a sua.

Que outras pesquisas possam continuar sendo feitas para esse fim.
 
 

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