A INFORMÁTICA EM ESCOLAS DA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO:
EXPECTATIVAS E REALIDADE

Maria Elizabeth de Almeida
Vitória Kachar Hernandes
Elisa Tomoe Moriya Schlünzen
Maria Raquel Miotto Morelatti
Klaus Schlünzen Júnior
almeida@travelnet.com.br

fax: (014)223-3630



Este texto pretende refletir e fomentar as análises sobre uma experiência de inserção do computador em escolas da rede pública do Estado de São Paulo iniciada no 2º semestre de 1997, cuja preparação dos professores ocorre através de parcerias com universidades. A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo participa dessa associação universidade-escola pública com um grupo de professores e alunos do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo e do Centro de Educação, criando um novo espaço de formação e de investigação, no qual se assume a postura de troca entre o saber acadêmico e o saber advindo da prática pedagógica de cada professor.
 


Introdução

A inserção de computadores na educação em sua fase de implantação tem trazido em seu bojo a ilusão de que essa tecnologia poderá por si mesma provocar mudanças substanciais nas instituições educacionais, da mesma forma como ocorreu em outros setores da atividade humana. Os responsáveis pelo processo de introdução do computador nas organizações escolares costumam concentrar esforços na aquisição, instalação de equipamentos e programas (hardware e software) e às vezes no treinamento operacional dos professores, visando elevar a qualidade do ensino e deixando de refletir sobre a real necessidade de integração da tecnologia ao processo pedagógico. Com isso incrementam mais um recurso ao ensino, sem considerar toda a problemática que atinge a realidade educacional no contexto atual das escolas públicas.

No entanto, os computadores acrescentam maior complexidade ao fazer pedagógico do professor, que precisa ter disponibilidade para apropriar-se dessa tecnologia e construir uma metodologia para utilizá-la com seus alunos, o que implica em um processo de capacitação permanente. Essa capacitação deve propiciar ao professor a apropriação e a utilização da tecnologia computacional com seus alunos, favorecendo a descoberta de formas criativas de empregá-la, de experimentar novas práticas e de mudar a maneira de se relacionar com o conhecimento, com os próprios colegas e com os alunos.

Objetivando investigar sobre a utilização do computador em educação, o Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC/SP em sua reestruturação, criou e colocou em funcionamento a partir do 1º semestre de 1997, o Núcleo de Currículo e Formação, de caráter interdisciplinar, sendo integrado pelas linhas de pesquisas Novas Tecnologias, sob responsabilidade dos professores José Armando Valente, Fernando José de Almeida e Maria Cândida Moraes, Formação de Professores, cujos docentes são Marcos Masetto e Myrtes Alonso e Interdisciplinaridade, a cargo da professora Ivani Fazenda. Esses professores, da mais alta qualificação em suas especialidades, estão planejando, juntamente com os doutorandos e os mestrandos, a dinâmica da disciplina, as atividades teóricas e as práticas que se desenvolvem durante o semestre. Os estudos iniciaram-se pelo tema Aprendizagem e Mudança Educacional e as contribuições da interdisciplinaridade e das novas tecnologias para a formação do professor. Não se tem notícia da existência em outros centros de pesquisa de experiências com características semelhantes, as quais concretizam em sua metodologia a inter-relação teoria-prática, vivenciada por uma equipe com experiências tão diversas e diferenciadas.

Uma das constatações desse grupo de estudos do referido Núcleo foi que a formação do professor deve ser um processo em contínua construção, pois não é possível ensinar a um professor um repertório de estratégias de ensino, e como ele deve se relacionar consigo mesmo e com o outro. Cada professor deverá desenvolver seu próprio repertório de forma singular e encontrar a base perceptual de sua atuação, de modo que sua competência se desenvolva a partir do auto-conhecimento e do conhecimento dos outros.

Isso torna-se possível por meio de um trabalho permanente e contínuo que valoriza os saberes e as práticas do professor e busque compreender os aspectos teóricos implícitos, estabelecendo uma integração entre saber pedagógico e saber científico. Para isso, os cursos de formação, ao invés de levar teorias e formas de atuação prontas, devem promover a construção desses educadores, fazendo com que cada um desenvolva o seu próprio projeto, ajudando-os em momentos de desequilíbrio, desenvolvendo metodologias de formação que utilizem as técnicas de tal maneira que os professores possam apropriar-se delas e criar metodologias próprias para utilizá-las em suas práticas. Dessa forma, acredita-se que o professor aprenderá a aprender e poderá ajudar o aluno a aprender.

A tecnologia computacional se constitui em um catalizador para a mudança (Sandholtz at all, 1997: 58), mas o elemento fundamental para uma contribuição significativa do computador ao processo ensino-aprendizagem é o professor, o qual precisa ser preparado para assumir a mudança de abordagem educacional. Essa mudança pode ser impulsionada pelo computador, mas concretiza-se quando o professor altera suas teorias e crenças a respeito do processo de ensino-aprendizagem e de sua própria prática, passando a criar situações de aprendizagem que promovem a construção do conhecimento pelos alunos.

Partindo desses pressupostos, surgiu a oportunidade de se desenvolver em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, com apoio financeiro do Banco Mundial, o subprojeto Informática na Educação do PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA - INOVAÇÕES NO ENSINO BÁSICO (PEC/IEB), sob a responsabilidade da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC/SP, com execução do Núcleo de Currículo e Formação. O subprojeto se propôs a criar uma metodologia de apoio ao professor para o uso pedagógico do computador através de um processo de formação continuada, atendendo à noventa (90) escolas ligadas às Delegacias de Ensino do Polo 4, que são: 3ª e 4ª DE da Capital, 1ª e 2ª DE de Guarulhos, DE de Caieiras. Cada escola recebeu um kit composto por cinco (5) microcomputadores, duas (2) impressoras, um scanner, uma filmadora, quarenta e dois (42) softwares educativos, Windows95 e pacote Office da Microsoft.

Nessa formação, ao mesmo tempo em que o professor explora o computador em busca de apropriar-se de recursos aplicáveis à educação, ele é incitado a tomar consciência das teorias e crenças que ele tem a respeito de conhecimento, ensino e aprendizagem. Os professores têm a oportunidade de refletir e de estabelecer relações entre essas teorias e crenças com suas ações pedagógicas em busca de compreendê-las e de encontrar opções para testar novas ações alternativas que possam transformar a sua prática para promover maior desenvolvimento de si próprio e de seus alunos.

A proposta em execução objetiva introduzir o professor no domínio dos recursos computacionais e na utilização pedagógica destes recursos, promovendo reflexões sobre como, quando e porque utilizar o computador na escola. Enfatiza-se a prática reflexiva não como um novo domínio de conhecimento constituído por um conjunto de conceitos fechados e definidos a priori, mas como um processo que articula a técnica, a reflexão, a prática pedagógica e as teorias educacionais subjacentes à prática, segundo a natureza da situação contextual.

Assim, além do apoio institucional dado ao professor para que ele possa participar das ações em desenvolvimento pelo subprojeto Informática na Educação através de oficinas de capacitação, há necessidade de que o professor tenha disponibilidade espaço-temporal para continuar as explorações do computador, compartilhar experiências com seus colegas, participar da elaboração do plano pedagógico de sua escola, planejar atividades conjuntas, participar de seminários e conferências relacionadas com o tema, acessar rede de telecomunicações para atuar cooperativamente com professores, pesquisadores e alunos.

Para fomentar o processo de mudança educacional através do uso do computador delineou-se um conjunto de atividades articuladas entre si, a serem desenvolvidas no próprio ambiente escolar de atuação do professor, ao longo de três módulos de capacitação, durante os quais o professor vivenciará a dialética da própria aprendizagem, a fim de que possa analisar como se aprende, como se ensina e como inserir o computador como ferramenta nesse processo. Para essa formação é fundamental que o professor vivencie situações de uso do computador como ferramenta educacional para que ele possa compreender o processo de ensino-aprendizagem através desse instrumento, bem como o seu papel enquanto agente de aprendizagem, construindo progressivamente sua metodologia de atuação (Valente, 1996, 1993).

A opção pelo local de realização das ações no contexto escolar resulta da perspectiva de formação continuada que propicia ao professor vivenciar os conflitos inerentes ao processo de mudança durante a própria capacitação, provocando sua explicitação, reflexão e compreensão. Portanto, a perspectiva da capacitação é a formação-pesquisa-ação e tem como eixo norteador a instituição escolar.

A técnica pedagógica estruturante desse processo de capacitação é o desenvolvimento de projetos, os quais orientam os caminhos a seguir, sem uma prévia hierarquização, articulando técnica, teoria e prática, formação e pesquisa, inter-relacionando aspectos de distintas áreas de conhecimento.

No intervalo entre os módulos, os professores continuarão a desenvolver projetos junto aos alunos ou a outros professores de sua escola, projetos estes elaborados e analisados com o grupo em formação no final do módulo em realização. Durante a execução desses projetos, o professor vai descrever a experiência vivenciada em diários de bordo para posterior análise, depuração e inserção de outras ações que surjam como necessárias para desenvolver no módulo subseqüente.
 


PEC/IEB - Informática na Educação: Módulo I

O Módulo I iniciou-se no dia 19 de setembro de 1997, e a primeira implementação das ações foi realizada com uma conferência proferida pela Professora Dra. Léa da Cruz Fagundes e uma mesa-redonda composta pelo coordenador geral do Projeto, Professor Dr. José Fernando de Almeida, pela coordenadora do subprojeto, Professora Maria Elizabeth de Almeida, pelo Professor Dr. José Armando Valente e pelo Professor Jorge Fróes. Todos estes pesquisadores com grande prestígio e experiência na área, reconhecidos nacional e internacionalmente pelos trabalhos desenvolvidos deram um incentivo a mais aos participantes e o reconhecimento de que estariam todos participando da construção da história da informática na educação no Brasil.

Participaram do evento os capacitadores e monitores do subprojeto, bem como representantes da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, supervisores, coordenadores e professores da rede estadual de ensino. O objetivo deste evento era de sensibilizar o maior número possível de professores, dentre os (setecentos e vinte) 720 envolvidos nas ações, para o uso educacional da tecnologia computacional e para as distintas dimensões propiciadas por esse uso.

Em seguida, iniciaram-se as oficinas teórico-práticas, com carga horária de vinte (20) h, em escolas que receberam os kits e que os computadores estavam devidamente instalados. A programação previa que todas as oficinas se realizariam no mesmo período, mas dado o atraso na instalação de equipamentos e softwares isso não foi possível. Assim, ao mesmo tempo em que algumas oficinas estão sendo concluídas, outras ainda estão iniciando.

Devido ao pequeno número de equipamentos disponível em cada escola, haveria necessidade de realizar um grande número de oficinas. Superou-se este problema agrupando-se duas escolas em cada oficina, com um número de oito (8) participantes por escola (coordenador pedagógico e sete professores de diferentes disciplinas), ficando cada oficina com dezesseis (16) participantes, tendo um professor-capacitador apoiado por um monitor.

Os monitores são alunos dos cursos de graduação da PUC, selecionados entre (trezentos e trinta) 330 candidatos. A opção por trabalhar com monitores foi no sentido de conscientizar a comunidade acadêmica da PUC/SP sobre a importância de seu envolvimento em ações de formação continuada de professores para o uso da tecnologia, bem como provocar o debate sobre a preparação inicial de professores nos cursos de graduação.

Os capacitadores são, em sua maioria, pós-graduandos em Novas Tecnologias em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC/SP e profissionais da área Informática em Educação, todos com larga experiência nesta área. Com isto, os capacitadores não necessitaram de um curso específico, apenas foram realizadas reuniões de trabalho para delimitar e unificar as ações.

Assim, a responsabilidade das ações junto aos professores das oficinas é do capacitador, que trabalha com apoio de um monitor. A postura do capacitador é de abertura ao diálogo, promovendo a aprendizagem no ambiente computacional segundo a perspectiva construcionista de Papert (1985, 1994), na qual o aprendiz é considerado como o sujeito de seu próprio desenvolvimento que busca compreender e transformar sua realidade (Freire, 1976, 1979, 1995), em um ambiente de descoberta que envolve a reflexão (Dewey, 1979; Shön, 1992; Zeichner, 1993) e a construção progressiva do conhecimento (Piaget, 1972). Nesse ambiente as intervenções resultam de uma mediação do capacitador que procura identificar a zona de desenvolvimento proximal - ZPD (Vygotsky, 1988) para atuar dentro dessa região.

Como material pedagógico foi elaborada uma pasta de trabalho, que encaminha a metodologia das ações de exploração educacional da tecnologia, atendendo às necessidades iniciais de conhecimento operacional da máquina, bem como as respectivas considerações teóricas que a pautam. Este material delineia as ações do capacitador, porém é flexível e aberto a fim de permitir sua atuação segundo sua singularidade, seu estilo de trabalho e as especificidades do grupo em formação.

As ações não possuem a característica reducionista e simplista do treinamento, mas sim de um ambiente de aprendizagem em construção, onde o professor se situa como aprendiz que tem a oportunidade de explorar, testar, errar, depurar e descobrir por si mesmo ou com a ajuda de colegas ou do próprio capacitador.

Essa postura causa inicialmente alguns equívocos, pois muitos participantes esperam dos capacitadores a postura de instrutor que está disponível para informar, expor, direcionar e ser o centro do processo. Essa reação é apenas de alguns participantes que logo se descobrem atuando em uma nova proposta de ambiente de aprendizagem.

Considerou-se que no primeiro momento da capacitação as expectativas dos professores estão centradas na tecnologia em si mesma, sendo necessário explorar os componentes básicos do computador (hardware e software), sem contudo prender-se a exposições informacionais introdutórias a respeito das características básicas do equipamento. É preciso ir alternando momentos de explorações livres com pequenas explanações, de modo que o professor vá adquirindo confiança em si mesmo e vá imergindo em um ambiente que inter-relaciona o domínio da tecnologia com o processo de ensino-aprendizagem.

Utilizou-se nas atividades práticas do Módulo I os principais recursos do ambiente Windows95, explorando o editor de desenhos Paint e o processador de texto Word97, além do software educacional Introdução ao Micro, que é um tutorial sobre as potencialidades, os recursos básicos e as formas de exploração do computador, respeitando o contato inicial do usuário com a máquina. Trabalhou-se também com o editor Creative Writer, através do qual os professores tiveram a oportunidade de elaborar cartazes, cartões etc., bem como puderam refletir sobre as potencialidades da criação de um jornal escolar, cuja elaboração propiciou um trabalho interativo e sobretudo cooperativo.

Os programas explorados, articulados com os demais recursos empregados e com a postura do capacitador como facilitador/promotor/desafiador da aprendizagem, constituem um ambiente de aprendizagem construcionista, no qual o professor aprende a integrar a tecnologia em sua prática pedagógica vivenciando o processo no papel de aprendiz e praticando o aprender fazendo. A atuação do capacitador se constitui como um modelo para os professores, que são incitados a refletir sobre suas experiências, analisando-as coletivamente, descrevendo-as individualmente por escrito e repensando a sua atuação enquanto responsável pela aprendizagem de seus alunos.

Além das atividades práticas articuladas com momentos de reflexão que ocorrem durante os encontros, os professores são incitados a acessar livremente o computador da escola em outros horários, bem como a organizar o seu tempo de modo a reunir-se com outros professores que estão participando da capacitação a fim de discutirem suas experiências, dificuldades, incertezas e descobertas. Entretanto, as explorações livres em horários externos às oficinas freqüentemente fica prejudicada devido principalmente aos seguintes fatos: os professores não têm disponibilidade de tempo para tal, algumas escolas não estão com as máquinas devidamente instaladas, existem dirigentes que ainda não compreenderam a importância desse acesso e sentem-se inseguros em liberar o uso de equipamentos caros, que agora a escola começa a conquistar.

Embora a pasta de trabalho, elaborada pela equipe responsável pelo desenvolvimento do subprojeto, encaminhe as atividades e conteúdos de cada encontro, a ênfase das oficinas incide na qualidade da compreensão e não na quantidade de informações fornecidas. Dessa forma, o capacitador tem autonomia para proporcionar aos professores o tempo necessário para a reflexão sobre o processo de aprendizagem em desenvolvimento ou para acrescentar outras atividades que considere oportunas e necessárias. Os professores demonstram interesse em dar continuidade aos estudos teóricos e às explorações do computador, embora estejam sobrecarregados com as atividades propostas para serem desenvolvidas entre os encontros e com o excesso de novas informações que estão processando, as quais exigem um tempo para serem devidamente assimiladas.

No final do Módulo I os professores são convidados a refletir sobre as atividades que gostariam de desenvolver em suas aulas e a elaborar um projeto para utilizar um ou mais softwares explorados durante os encontros de capacitação com um grupo de alunos ou de professores de sua escola. Esta atividade deverá ser apresentada e analisada coletivamente no início do Módulo II de capacitação.
 
 

Algumas Reflexões sobre as Experiências Vivenciadas com a Realização do Módulo I
 

A receptividade ao projeto dependeu muito do grau de envolvimento dos delegados de ensino, dos supervisores e dos diretores de cada escola. Isto foi observado pela maioria dos capacitadores, uma vez que, houveram diversas formas de recepção nas escolas, onde a postura do diretor espelhava a expectativa em relação ao projeto.

Com relação aos professores participantes as expectativas eram diversas, os sentimentos traduziam-se em ansiedade, temor, esperança, valorização, revolução, aperfeiçoamento, conhecimento, qualidade e enriquecimento, expressos em uma primeira atividade das oficinas, que se constituiu em escrever suas expectativas em relação ao subprojeto. A partir desta atividade pode-se concluir que a tentativa de sensibilização proposta pelo evento do dia 19 de setembro ocorreu para a maioria dos professores que participaram da conferência de abertura.

A postura adotada pelos capacitadores buscando criar um ambiente constucionista, agindo como facilitador, mediador e promotor da aprendizagem, e com isto contribuindo para que o professor seja responsável e definidor de sua prática pedagógica, permitiu que os sentimentos de ansiedade fossem superados, e transformados em confiança, criando um desejo de constante descoberta.

A reflexão e discussão dos seguintes textos:
 
 

Texto
Autor
  •  Rosa dos ventos
Chico Buarque
  • Reflexões sobre o uso do computador em educação
Maria Elizabeth B. T. M. T. de Almeida
  • Metáfora do Lápis
Transcrição do texto "O laboratório de computador: uma má idéia, atualmente santificada" de Gabriel Salomon, traduzido da revista Educ. Technol, Englewood Cliffis, 30 (10):50-2 oct. 1990
Texto
Autor
  • Educação no fim do Século : sobre os professores e a cozinheiras
Extraído do jornal: "O Estado de São Paulo - Especial de Domingo", D2, 11 de Junho de 1995
  • Vivendo Valores Humanos
Craxi, A. & Craxi, S. Os Valores Humanos Uma Viagem do EU ao NÓS. São Paulo: Meca, 1995
  • Diferentes Usos do Computador na Educação
José Armando Valente - Computadores e Conhecimento - Repensando a Educação. Gráfica Central da Unicamp - Campinas - SP, 1993.

permitiram e evidenciaram que alguns professores tinham consciência da necessidade de mudança no processo educacional. Para outros a conscientização aconteceu durante as oficinas.

Pela limitação da quantidade de equipamentos disponíveis (5 microcomputadores para 16 usuários), houve a necessidade de dividir o grupo em dois. Um deles trabalhava com os aspectos práticos e outro com discussões e reflexões sobre os textos já citados, e vice-versa. Esta dinâmica foi interessante, pois evitou que os objetivos do módulo ficassem comprometidos, e ainda passou a ser uma alternativa para a prática futura do professor com seus alunos.

Nesta prática, orientou-se para a formação de grupos heterogêneos, ou seja, mesclando professores das diversas disciplinas, no intuito de sanar a limitação da quantidade de equipamentos, e para provocar a interação entre os professores de modo a propiciar a construção de um trabalho interdisciplinar. Procurou-se incentivar o desenvolvimento de um projeto comum articulando diferentes professores e disciplinas, partindo de um tema gerador, escolhido em cooperação com os alunos, de forma a tornar significativa e contextualizada a aprendizagem partindo das suas experiências e realidades, respeitando e considerando as suas culturas.

Por fim, fica uma grande ansiedade e expectativa para o futuro, uma certeza de que o projeto seguirá adiante e uma perspectiva de que os próximos dois módulos possam concretizar desejos e idéias surgidas nesse primeiro módulo.

Assim, o Módulo II está sendo planejado segundo as necessidades e interesses levantados durante as reflexões realizadas nas oficinas do Módulo I e a partir de uma análise da avaliação individual elaborada pelos professores participantes, capacitadores e monitores.

Considerando-se as análises preliminarmente realizadas, bem como os softwares disponíveis em cada escola, o trabalho do Módulo II, cuja duração prevista é de 36 horas, deverá iniciar-se com um seminário de 4h, para discussão das experiências desenvolvidas pelos professores após a conclusão do Módulo I, seguido de oficinas teórico-práticas que incidem sobre a exploração e análise do uso pedagógico de softwares de referência, cujo interesse tem sido explicitado pelos professores, e de um sistema de autoria com o qual se desenvolverá apresentações e projetos. A perspectiva de uso do sistema de autoria é de que o capacitador dê ao professor a oportunidade de ser o autor na implementação de projetos, de forma que ele posteriormente possa propiciar aos seus alunos a construção de conhecimentos aplicando a mesma metodologia.

De maneira análoga pretende-se realizar o Módulo III. Considera-se importante que nesse último módulo exista um espaço para se trabalhar com a dimensão da reflexão que é favorecida pela programação de computadores. Portanto, além da exploração e análise do uso pedagógico de softwares de referência, pretende-se fazer uma introdução à linguagem de programação, enfatizando a perspectiva da reflexão e da depuração propiciada pela implementação de programas nos quais se descreve um conjunto de ações escritas em determinada linguagem de programação para que o computador possa executá-las. Em seguida, o professor programador será incentivado a refletir sobre a resposta fornecida pelo computador, comparando-a com o que pretendia obter, e, caso o resultado obtido não coincida com o pretendido, procurar encontrar e corrigir os equívocos e erros cometidos, realizando a depuração e voltando a realizar o ciclo descrição-execução-reflexão-depuração (Almeida, 1996).

O Módulo III se encerrará com a elaboração e discussão de projetos que os professores se proporão a desenvolver em suas escolas para o uso do computador com seus alunos. Sabe-se que o desenvolvimento desses projetos poderão provocar conflitos e possíveis mudanças nas estruturas das instituições educacionais em termos de gestão dos espaços e tempos escolares, das metodologias e estratégias de atuação do professor, da permeabilidade e conexão entre as disciplinas e principalmente, das interações professor-aluno, aluno-aluno, professor-aluno-conhecimento. Não se trata de um novo método, mas sim de um paradigma educacional emergente (Moraes, 1997), ou seja, de uma nova visão educacional como um sistema aberto, em contínuo movimento, que enfatiza a cultura e o contexto na construção do conhecimento, conhecimento datado, transitório e provisório, cujo significado é construído por sujeitos concebidos em sua inteireza de seres humanos.

A formação em desenvolvimento não pode restringir-se a esse período intensivo de oficinas. Entretanto, a perspectiva de continuidade não tem um modelo específico ou regras fixas, caracterizando-se por um movimento de ação, reflexão, depuração e ação, assumido gradualmente pelos professores conscientes e comprometidos com as transformações e incertezas da realidade, com a incorporação do computador ao processo educacional, com o seu papel enquanto promotor da aprendizagem do aluno e de investigador da própria prática pedagógica, que procura engajar-se em grupos de estudos e de formação continuada.

Este é um processo em que se procura interpretar as mudanças e proporcionar a oportunidade de uma educação permanente para que cada indivíduo esteja preparado para acompanhar as transformações sócio-culturais, organizacionais e tecnológicas. As ações estão apenas começando e seu futuro depende do que se compartilha no presente com os professores.
 

Referências
 

Almeida, M. E. Informática e Educação. Diretrizes para uma formação reflexiva de professores. Dissertação de Mestrado em Educação: Supervisão e Currículo, PUC/SP, 1996.

Dewey, J. Experiência e Educação. 3ª ed., São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1979.

Freire, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 6ª ed, 1976.

______, P. Educação e Mudança. 14ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, Coleção Educação e Comunicação, vol. 11, 1979.

______, P. A educação na cidade. São Paulo, Cortez. 2ª ed, 1995.

Moraes, M. C. O paradigma Educacional Emergente. Campinas, SP: Papirus, 1997.

Papert, S. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.

_________. Logo: computadores e educação. São Paulo, Brasiliense, 1985.

Piaget, J. A Epistemologia Genética. Petrópolis, RJ, Ed. Vozes, 1972.

Sandholtz, J. H. et alli. Ensinando com tecnologia: criando salas de aula centradas nos alunos. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1997.

Shön, D. A. Formar Professores como Profissionais Reflexivos. In NÓVOA, António (org.). Os Professores e sua Formação. Publicações Dom Quixote, Lisboa, Portugal, 1992.

Valente, J. A. (org). O Professor no ambiente Logo: formação e atuação. Campinas, SP, UNICAMP/NIED, 1996.

________. Por quê o computador na educação? In: Valente, J.A. (org). Computadores e conhecimento: repensando a educação. Campinas, UNICAMP, 1993.

Vygotsky, L.S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1988.

Zeichner, K. A formação reflexiva de professores: idéias e práticas. Lisboa, Portugal: Educa, 1993.