LABVIRTUS: UMA EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO DA INTERNET NO ENSINO UNIVERSITÁRIO1

Ana Heloisa de Aragão Bastos 2
Carla Cristina Rodrigues Nunes 2
Maria Salete Marcon Gomes Vaz 2, 3

2 Universidade Federal de Pernambuco - Departamento de Informática
CP 7851, 50732-970 Recife, PE, Brasil
Fone: +55 81 271-8430
Fax: +55 81 271-8438
{ahab, ccrn, msm}@di.ufpe.br

3 Universidade Estadual de Ponta Grossa - Centro de Processamento de Dados
CP 992/3, 84010-330 Ponta Grossa, PR, Brasil
Fone: +55 42 225-2121
Fax: +55 42 224-0294
salete@uepg.br




Resumo

O Projeto Virtus [1, 11], em desenvolvimento no CAC - Centro de Artes e Comunicação - da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) [16], tem como objetivo principal pesquisar e estudar a natureza do ciberespaço, do qual a Internet faz parte [1]. Em virtude da diversidade desse objeto de pesquisa, o problema foi dividido em câmaras de experimentação e reflexão. Uma dessas câmaras, o LabVirtus, investiga os temas de educação on-line, sobretudo o problema do ensino participativo a distância.

Este artigo apresenta uma descrição da referida câmara, juntamente com suas ferramentas de apoio ao ensino, além de um relato dos resultados iniciais obtidos e algumas perspectivas futuras para a mesma.
 
 
 

1 Introdução

O aparecimento de novas mídias e tecnologias computacionais leva os profissionais, das diversas áreas do conhecimento, a pensar em métodos diferentes de aprendizagem em grupo e disseminação da informação.

Nesse contexto, a Educação a Distância [3, 7, 9, 10] apresenta-se como um campo em potencial para a utilização desses novos avanços. Como exemplo podemos citar a expansão do uso da Internet [8] e da Web [12] como facilitadores da comunicação entre professores e alunos. Tais ferramentas contribuem para a remoção de barreiras relativas a tempo e espaço, aspecto fundamental em educação a distância, além de permitirem uma maior participação do aluno no processo de aprendizagem.

Como resultado da associação Educação - Participação - Internet - Ciberespaço surgiu o LabVirtus, com o objetivo de investigar temas relacionados a educação on-line e, mais especificamente, o problema do ensino participativo a distância.

Neste artigo, descrevemos o LabVirtus, contextualizando-o dentro do Projeto Virtus [1, 11], apresentando os recursos computacionais por ele utilizados e relatando alguns resultados obtidos com seus experimentos iniciais.

O trabalho está organizado da seguinte maneira: na Seção 2, apresentamos algumas experiências semelhantes realizadas por outras instituições de ensino. Na Seção 3, descrevemos os objetivos e a estruturação atual desse projeto. Na Seção 4, relatamos os objetivos e a situação atual do LabVirtus. Na Seção 5, descrevemos a fase inicial dos experimentos no LabVirtus, assim como apresentamos algumas perspectivas futuras a partir de uma análise dos resultados esperados ao término dessa fase. E finalmente, na Seção 6, são apresentadas algumas conclusões obtidas a partir do estudo desenvolvido neste artigo.
 
 

2 Trabalhos Relacionados
 

Educação ou ensino a distância, tipo de aprendizagem em que instrutores e alunos estão separados no tempo e espaço, é a forma de educação que mais se difunde na atualidade. Embora a educação a distância não seja uma área nova, somente nos últimos anos houve de fato uma explosão nos mecanismos e ferramentas disponíveis para a sua implementação e suporte.

A capacidade de conectar a universidade a qualquer parte do mundo usando a Internet é um esforço que oferece inúmeras possibilidades. Uma das mais revolucionárias inclui a noção de universidade virtual. O objetivo é eliminar todas as barreiras geográficas, permitindo que alunos possam assistir aulas sem estarem fisicamente no mesmo lugar que o professor.

Existem atualmente vários exemplos de como a Internet está sendo usada por professores e instituições de ensino para facilitar o processo de aprendizagem.

A Britainís Open University (OU) [14] é o principal exemplo de uma instituição de ensino a distância que usa a Internet para cumprir sua missão de tornar a educação acessível. A proposta da OU é que a universidade vá até seus alunos, e, onde quer que se esteja, o nível de qualidade do curso seja sempre o mesmo.

A City University [5] opera com o objetivo de tornar a educação disponível a todos que a desejam. Recentemente, foi estabelecido o EDROADS (Education Resource and Online Degree System) que utiliza a Internet para oferecer seus programas. A maioria desses programas são desenvolvidos e projetados em resposta às necessidades da comunidade a quem eles servem.

Um exemplo de instituição tradicional usando a Web para seus esforços de ensino a distância é o Birkbeck College da University of London [4]. Os cursos são oferecidos pela Web e as atividades são suportadas por discussões on-line com outros estudantes e especialistas do curso divididos em grupos de estudo.

Os exemplos acima comprovam que as tecnologias de comunicação têm a habilidade de mudar o modo como as universidades ensinam e a maneira como os alunos estudam e aprendem. Vale salientar, entretanto, que a Internet não está substituindo estas instituições, como alguns temem, e sim adicionando a elas uma nova dimensão de interconectividade [8].
 

3 Projeto Virtus

O Projeto Virtus, Laboratório de Informações, é destinado a investigar, analisar e experimentar as possibilidades de percepção, representação, tratamento da informação e interfaces provocadas com a instalação social do ciberespaço. Este projeto possui caráter transdisciplinar, envolvendo professores, pesquisadores e estudantes de diversas áreas.

A idéia do Virtus é elaborar um sistema aberto e dinâmico de informações, baseado em experimentos na Web, de modo a criar um ambiente onde ferramentas, comportamentos e métodos são empregados para analisar e teorizar sobre o próprio ciberespaço.

Os tópicos de ordem teórica são discutidas em seminário aberto ("Memória das Quintas") envolvendo temas como: interatividade, homem-máquina, deriva & orientação, efeito rizoma, complexidade, tempo e espaço, pesquisa aberta, identidade/alteridade, transdisciplinaridade, virtualidade, representação digital e cidadania digital.

Estes seminários são reuniões abertas nas quais um dos componentes do grupo fica responsável por fazer as anotações, organizando-as posteriormente em um documento HTML [16] a ser publicado no site do projeto.

Os demais tópicos possuem um caráter mais experimental e tratam de: educação, cognição e ciberespaço (aulas no ciberespaço, espaço de divulgação acadêmica, ferramentas); gerenciamento de informações no ciberespaço (repositório de teses, banca de revistas, catálogo de serviços); divulgação e informação temporária no ciberespaço (homenagens, áreas de exposições digitais e analógicas, divulgação de eventos, jornalismo eletrônico, memória informacional); cidadania e antropologia do ciberespaço (etnografia cibernética, cidadania digital).

Como o Virtus propõe-se a ser um sistema aberto, além das "Memória das Quintas", estão disponíveis fóruns, salas de bate-papo, salas de visita, sistemas de mensagens, bem como um diário, onde são anotadas as dúvidas e orientações que surgem no dia-a-dia do projeto. Tais informações estão acessíveis ao público em geral, que inclusive também pode participar das discussões.
 

Estruturação

Devido a complexidade do ciberespaço, o Projeto Virtus está organizado em câmaras de experimentação e reflexão (Figura 1) que se integram ao projeto de forma direta e indireta.
 
 


 
 

Figura 1: Estrutura do Projeto Virtus






As associações diretas são formadas por grupos que participam da concepção do núcleo central do projeto, utilizando, nos seus experimentos, os recursos laboratoriais (equipamentos e espaço físico) do mesmo; as indiretas, por sua vez, cooperam intelectualmente sem depender dos recursos físicos do projeto.

Os quatro grupos que formam as associações diretas são as que seguem:
 

As associações indiretas são formadas pelos seguintes grupos:
 
 
Na seção seguinte nos concentramos na câmara LabVirtus, focalizando as ferramentas computacionais oferecidas pela mesma, além de alguns exemplos de como foram utilizadas durante os experimentos.
 
 

4 LabVirtus: Academia no Ciberespaço
 
 

O LabVirtus teve início em janeiro de 1997, com a publicação das intenções deste grupo de pesquisa no site do Virtus. Desde então, tem sido realizado um trabalho em parceria com professores e estudantes de diversos departamentos da UFPE, a fim de experimentar as possibilidades de uso do ciberespaço na otimização do ensino do 3º grau. As experiências iniciais estão sendo realizadas em disciplinas oferecidas em cursos de graduação desta instituição.

Através de uma observação cuidadosa durante a prática pedagógica e de um levantamento bibliográfico inicial, o grupo de pesquisadores do LabVirtus constatou que os mais graves problemas do ensino universitário brasileiro estão relacionados aos métodos, aos equipamentos e aos materiais de ensino. Uma forma de contribuição encontrada pelo grupo, para a solução de alguns dos problemas levantados, foi a tentativa de consolidar o Ensino Participativo On-line.

O objetivo do Ensino Participativo On-line é servir como um instrumental para que a universidade use o ciberespaço visando melhorar sua capacidade de ensino, pesquisa e extensão. O modelo de implantação proposto envolve a tecnologia das redes de computadores, alterações inerentes ao sistema hipermídia e o caráter de inovação de procedimento em uma instituição habituada na tradição consolidada do ensino universitário tradicional.

O LabVirtus encontra-se organizado em três áreas: Reflexões, Referências e Experimentos. Na área de Reflexões, encontra-se uma apresentação das intenções e expectativas da câmara de educação, um local para anotações diárias (Bloco de Notas) e um espaço cibernético para discussões (Fórum Aberto) sobre o projeto. A área de Referências propicia o acesso a outros trabalhos relacionados à questão de educação no ciberespaço. A área de Experimentos possui um local para aulas acompanhadas por tutores que utilizam o ciberespaço como veículo didático, um repositório dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos de graduação (Amostra Acadêmica), além de ferramentas escritas em PERL [13] que são utilizados para possibilitar a interatividade nas aulas que utilizam o ciberespaço.

Essas ferramentas foram desenvolvidas procurando atender a necessidades comuns encontradas pelos professores envolvidos na experiência de utilização do ciberespaço em suas aulas. A idéia é criar um repositório de ferramentas básicas, tornando-o acessível a qualquer professor que tenha interesse em usá-lo.

As ferramentas existentes atualmente são:
 

Na próxima seção, descrevemos a fase inicial dos experimentos do LabVirtus, assim como apresentamos algumas perspectivas baseadas nos resultados esperados dessa fase.

5 Experimentos Preliminares e Direções Futuras
 

Os experimentos iniciais com o uso das ferramentas citadas na seção anterior foram realizados, no primeiro semestre de 1997, em quatro disciplinas, todas oferecidas pelo Departamento de Design, pertencente ao Centro de Artes e Comunicação da UFPE.

A seguir, apresentamos a descrição (objetivos, processo e observações) de um dos experimentos realizado com a disciplina de projeto de hipermídia, oferecida aos alunos do último ano da graduação em Design, da UFPE, realizada de março a junho de 1997.

Neste experimento, foram trabalhadas questões como o estímulo à pesquisa através do ciberespaço e a utilização da Internet como um meio facilitador da comunicação entre alunos e professores, fora da sala-de-aula convencional.

O conteúdo da disciplina foi distribuído em quatro tópicos principais. Cada um desses tópicos foi apresentado em uma página HTML, a partir das quais foram escolhidos temas (problemas referentes a exposição), para que os alunos pesquisassem na Web, utilizando a ferramenta de busca automática disponível no Virtus.

Baseados nas pesquisas realizadas, os alunos apresentaram seminários sobre os temas investigados e utilizaram o correio eletrônico (em uma caixa postal exclusiva da disciplina), para trocar informações com os professores da disciplina. Ao final de cada tópico, os alunos enviaram um artigo descrevendo sua opinião sobre o tema pesquisado, alimentando um sistema remoto que disponibiliza estes documentos no site do curso. No final do semestre foi promovida uma sala de bate-papo através da Internet, com o propósito de obter comentários dos alunos sobre o curso.

A utilização das ferramentas de busca pêlos alunos se mostrou bastante eficiente. O experimento demonstrou que, apesar dos alunos nem sempre encontrarem informações exatas sobre os temas em questão, isso não contribuiu negativamente, uma vez que foram obtidas diferentes visões sobre o mesmo tema, enriquecendo os seminários e permitindo uma troca de idéias muito útil para a elaboração dos artigos.

Outro fator positivo observado foi a disponibilização dos artigos via Internet, evitando gastos com impressão e com o deslocamento do aluno até a instituição para a submissão dos mesmos.

Um problema bastante comum relacionado à distribuição de material foi eliminado disponibilizando-o no site da disciplina. Além disso, os recursos de hipermídia contribuíram para o enriquecimento do material confeccionado.

Por outro lado, o correio eletrônico não se apresentou como meio eficiente de comunicação remota entre professores e alunos. Foi difícil para os alunos terem suas dúvidas respondidas prontamente, uma vez que os professores chegavam a levar dias para responder.

Informações equivalentes às que foram relatadas acima, com respeito às demais disciplinas oferecidas no primeiro semestre de 1997, também podem ser encontradas no site do próprio LabVirtus.

No segundo semestre de 1997, o número de disciplinas oferecidas aumentou de quatro para nove, um aumento superior a 100%. Além disso, essas disciplinas não encontram-se vinculadas a apenas um único departamento, como no semestre anterior. Dois novos departamentos aderiram à experimentação: o Departamento de Comunicação Social e o Departamento de Biblioteconomia.

Como resultado dessa integração, são esperadas novas análises ao final do semestre, enriquecidas por uma visão multidisciplinar propiciada pela inclusão desses novos departamentos na experiência. A partir dessas análises, provavelmente surgirá a necessidade do desenvolvimento de novas ferramentas que minimizem/eliminem deficiências encontradas. O desafio maior, no entanto, é continuar oferecendo todo esse suporte visando sempre um menor custo de implantação para o usuário final. Vale ressaltar que o custo de implantação corresponde apenas à configuração mínima de hardware e software necessários à execução do sistema Virtus, uma vez que o mesmo é distribuído gratuitamente.

Existe, ainda, a pretensão de oferecer cursos complementares, no formato de tutoriais, abertos à comunidade em geral. Como objetivo futuro, pretende-se ainda integrar os departamentos de Informática e Educação, da UFPE, com o LabVirtus, em um projeto maior, a fim de propor um modelo de utilização do ciberespaço para o ensino.
 
 

6 Considerações Finais
 

Este artigo foi elaborado com o objetivo de descrever e, sobretudo, divulgar o Projeto Virtus, que está sendo desenvolvido na UFPE, ressaltando o LabVirtus, parte desse projeto que trata da educação através do ciberespaço.

A idéia inicial era estudar o Virtus procurando enfatizar os aspectos computacionais utilizados, uma vez que a nossa área de atuação é Ciência da Computação. Antes de conhecer mais detalhadamente o projeto, imaginávamos que o mesmo utilizava ferramentas altamente sofisticadas na sua implementação. No entanto, nos deparamos com uma estrutura extremamente simples, aliada a muita criatividade dos integrantes do projeto. Acreditamos que esse seja um dos pontos mais fortes do projeto, uma vez que prioriza o baixo custo de implantação, procurando atingir o maior número de interessados possível.

É possível que, com a evolução do projeto e a crescente demanda de novas ferramentas pêlos usuários, essa simplicidade seja difícil de ser mantida. Aliado a isso, tem-se a multidisciplinaridade inerente ao projeto, aumentando a complexidade na identificação futura de quais ferramentas serão realmente básicas, ou melhor, básicas para quem?

Mas isso já é outra história...
 
 

REFERÊNCIAS
 
 

[1] André Neves, Marcos Galindo, Paulo Cunha. Onde as ruas não tem nomes - Um olhar sobre o ciberespaço. Editora Universitária - UFPE, 1997.

[2] Andreia Alcântara, Carlos Filho, Cibelle Brasil, Débora Aranha, Geórgia Barbosa. Home Pages: Recursos e Técnicas para a Criação de Páginas no WWW. Editora Campus, 1996.

[3] Andrew T. Wilson. Distance Learning: Technologies, Curriculum Development and Teacher Education. Vanderbilt University - Department of Teaching and Learning. URL: http://knuth.mtsu.edu/~itconf/papers96/wilson.htm

[4] Birkbeck College of the University of London - Crystallography Departament. URL: http://www.cryst.bbk.ac.uk/PPS/index.html

[5] City University On-line Programs. URL: http://www.cityu.edu/text.htm

[6] Daniel Schneider. Teaching and Learning with Internet Tools - A Position Paper. First International Conference on the World Wide Web. 1994.

[7] Edward F. Spodick. The Evolution of Distance Learning. Hong Kong University of Science & Tecnology Library. August 1995.

[8] Kimberly H. Updegrove. Teaching on the Internet. August 1995. University of Pennsylvania. URL: http://pobox.upenn.edu/~kimu/teaching.html

[9] L. Sherry. Issues in Distance Learning. International Journal of Distance Education, l (4), 337-365. 1996.

[10] Marina Stock McIsaac, Charlotte Nirmalani Gunawardena. Distance Education. URL: http://earthvision.asu.edu/~laurie/mcisaac/distance.htm

[11] Projeto Virtus, URL: http://www.cac.ufpe.br/

[12] Ronald D. Owston. The World Wide Web: A Technology to Enhance Teaching and Learning?. Draft version of the article that appeared in Educational Reseacher, Vol. 26, Nº 2. March 1997, Pages 27-33. York University.

[13] Steven E. Brenner, Edwin Aoki. Introduction to CGI / PERL - Getting Started with Web Scripts. M & T Books, 1996.

[14] The Open University - A Virtual University. URL: http://www.openu.com/

[15] Thomas Bray, Judith Dean, Charles Dershimer, Jack DiGiuseppe, Christopher Laxton, Dory Leifer, Ed Saunders. Distance Learning: Planning Considerations and Options. University of Michigan, March 1995. URL: http://www.oit.itd.umich.edu/reports/DistanceLearn/

[16] Universidade Federal de Pernambuco. URL: http://www.ufpe.br