DESCRIÇÃO DA DINÂMICA DA AÇÃO
COGNITIVA NA ATIVIDADE COMPOSICIONAL

Maria Cecília Martins
Núcleo de Informática Aplicada à Educação - NIED
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
13083-970 Campinas, SP
e-mail: CMARTINS@TURING.UNICAMP.BR





A Abordagem Microgenética na Análise do Processo Composicional

A Psicologia Genética de Jean Piaget propõe duas perspectivas complementares envolvidas no processo de construção do conhecimento: a estrutural e a funcional. Enquanto a abordagem estrutural permite estudar a formação ou estruturação do conhecimento, a abordagem funcional trata da pertinência do conhecimento a um contexto particular de resolução de problemas. Sendo assim, além da descrição do comportamento inteligente a nível estrutural pode-se também conhecer os avanços individuais dos sujeitos quando confrontados com problemas inseridos em contextos particulares.

Neste tópico em particular, a análise microgenética focalizará o dinamismo das condutas cognitivas de um compositor durante um processo de construção musical. Esta análise é aqui utilizada para explicar os encadeamentos das ações do compositor para alcançar um objetivo específico, ou seja, elaborar um desenvolvimento musical. No processo composicional o compositor efetua um trabalho cognitivo complexo. Diante dos vários caminhos à sua escolha, tem que tomar as decisões que melhor satisfaçam aos objetivos traçados por ele e, ao mesmo tempo, tem que considerar os limites impostos pela realidade na qual ele está atuando. A ação cognitiva do compositor diante dessa atividade, transita de sua intenção para a ação e vice-versa. Ao analisarmos o processo composicional, pretendemos verificar como o compositor faz evoluir uma idéia. Durante a atividade composicional há momentos nos quais o compositor lança um objetivo, implementa, depura, utiliza algumas formas de representação, até chegar ao que se propôs. Ao analisarmos a dinâmica da atividade cognitiva numa situação de design composicional objetivava-se levantar indícios para o desenvolvimento um software, voltado para não-especialistas na área de criação musical, que tivesse características que facilitassem o processo de descrever-executar-refletir-depurar fundamental para que a aprendizagem efetivamente ocorra.

A atividade composicional

O processo composicional pode ser abordado como um "processo de design", ou seja, um processo de atualização e materialização de idéias, ou, ainda, um processo de aproximações progressivas de uma idéia. A tentativa de "dar formas às idéias" numa situação de design, aponta para a dinâmica do processo de se ter idéias, tentar dar forma e concomitantemente avaliá-las e depurá-las.

Quando o sujeito se depara com uma tarefa de resolução de um problema específico, ele põe em ação alguns processos cognitivos. Diante de uma situação problema o sujeito dialoga com o objeto colhendo características, considerando as regras convencionais e as restrições que o sujeito atribui a ele. De acordo com os significados que o sujeito atribui ao objeto, com base em um quadro teórico que ele tem sobre o assunto, levanta um conjunto de transformações possíveis para o mesmo. Além das ações que dizem respeito ao conhecimento do objeto, o sujeito, ao longo do processo de atuação, vai definindo algumas ações e idéias em função das transformações dos objetos que ele dispõe. Ao longo do processo de resolução do problema, vai coordenando os aspectos referentes aos objetos e aos objetivos traçados para chegar à solução.

A nosso ver, a atividade de compor pode ser vista como um processo cíclico no qual o indivíduo implementa algumas idéias musicais estabelecendo relações entre elas, reflete e depura o material gerado. O trabalho de criação musical é inicializado a partir de idéias geradoras. São realizadas constatações sobre o material gerador, buscando-se as características essenciais do material. São decodificadas várias unidades básicas que podem ser combinadas propiciando a formação de outras idéias musicais. São aplicadas operações como combinação de objetos sonoros obtidas por proximidade, afinidade, semelhança e contrastes entre eles. Ao longo do processo há momentos nos quais o indivíduo faz implementações, busca executá-las e analisá-las. Isso permite ao indivíduo integrar a significação das idéias geradoras em um determinado contexto.

Descrição do Funcionamento Mental: As Unidades Significativas de Blanchet

O quadro interpretativo que utilizaremos para descrever e compreender os processos cognitivos postos em ação no ato de compor uma música, é o quadro definido por Blanchet (1992). Ao tratar dos processos cognitivos do sujeito psicológico, Blanchet estabelece unidades de descrição do funcionamento mental, as quais chamou de unidades significativas. As unidades significativas se expressam através de uma série de ações ou sob a forma de representações. Diante de uma atividade intencional o sujeito utiliza conteúdos cognitivos tanto implicitamente (através das ações), quanto explicitamente (através de uma representação qualquer, seja ela verbal ou simbólica) para dar conta de uma determinada tarefa. Uma unidade significativa, em resumo diz respeito a uma atividade intencional do suejtio que é inferida do desenvolvimento de suas ações, sejam elas físicas ou mentais. Blanchet (1992) subdivide as unidades significativas em procedurais e representativas. As unidades procedurais dizem respeito à organização da atividade a partir de um conjunto de índices perceptivos, e de ações diretas sobre o objeto, que permitem ao indivíduo, um certo controle externo da situação-problema. As unidades representativas dizem respeito a uma organização mais precisa do plano para se alcançar um objetivo. São portanto sistemas simbólicos constituídos pelo pensamento e destinados a apresentar e explicar a produção de fenômenos ligados aos objetos ou as ações. As unidades representativas coordenam dois grandes eixos: o causal e o teleonômico. As unidades causais são representações que atendem às características do objeto, ou seja, visam a explicitá-lo. As unidades teleonômicas dizem respeito as ações do sujeito para atingir um objetivo mais amplo. São definidas por correspondências estabelecidas entre os estados sucessíveis da solução e não apenas por transformações diretamente realizadas sobre o objeto, como no plano causal. Na construção de uma solução e na compreensão da resolução de uma situação-problema há momentos de coordenação entre os eixos causal e teleonômico, onde o sujeito passa a considerar o objeto para poder atingir um objetivo e vice-versa.

Os movimentos das Ações Cognitivas

Ao interagir com um objeto para conseguir fazer algo, o indivíduo se depara com suas intenções e com as limitações e características que ele mesmo atribui ao objeto. Inhelder (1992) identifica dois movimentos que caracterizam a dinâmica do "saber fazer": top-down e bottom-up. O movimento top-down evidencia-se pelo processo de planificação (intenções) que o sujeito faz sobre o seu trabalho, ou seja, diz respeito à elaboração de diretrizes para a sua ação. Já o movimento bottom-up evidencia-se quando o sujeito busca detectar os limites da realidade e as possibilidades do objeto com o qual ele está atuando, visando à efetivação das diretrizes traçadas ao longo de sua ação. Durante uma tarefa de resolução de um problema a ação do indivíduo oscila entre esses movimentos, podendo, em alguns momentos, um prevalecer em relação ao outro.

Apresentaremos a seguir, uma descrição do trabalho do compositor ressaltando a dinâmica da ação cognitiva em seus aspectos intencionais e causais, bem como os movimentos top-down e bottom-up.

Descrição da Dinâmica da Ação Cognitiva em uma Atividade Composicional

O relato abaixo tem por objetivo explicitar essa dinâmica da ação cognitiva de um compositor durante a atividade de design composicional. Neste relato serão destacados alguns trechos ocorridos ao longo da atividade experimental proposta ao compositor na qual ele deveria fazer um desenvolvimento musical a partir de um trecho musical dado no início da atividade.

O compositor colocado diante da situação problema: fazer uma composição a partir de um trecho musical, inicia sua atividade:

  • C1. "Tá. Aí eu crio alguma coisa em cima de um exemplo desses..."
  • Sendo essa uma atividade intencional, num primeiro momento o compositor busca se envolver com o problema proposto e traçar diretrizes de trabalho.
  • C10. "... vai trazer sentido pra mim eu pegar esse trecho musical e tentar observar todos os detalhes que ele tem, do que é formado..."
  • O ponto de partida que o compositor encontrou para atuar foi observar os detalhes, as características do tema inicial. A partir disso, há uma série de ações, nas quais o compositor passa a analisar os elementos que compunham o trecho musical fornecido tentando buscar possibilidades de desenvolvimento do mesmo. Os trechos a seguir expressam algumas características e detalhes levantados pelo compositor, relativos ao trecho musical inicial, objeto com o qual ele iria atuar.
  • C12. "Ritmicamente, é um ritmo irregular e eu já tento determinar um compasso"

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    C17. "Em cima desse trecho eu já tirei 5 notas que eu posso trabalhar em torno delas, são notas importantes porque foram as apresentadas. A pulsação que eu senti foi compasso quaternário"

    C18. "Bom, que mais eu tiraria daqui? Tessitura: compreende uma 6a maior"

    Nesse momento da atividade, poderíamos dizer que, está em evidência o movimento bottom-up da ação cognitiva do sujeito. Essas investigações do sujeito revelam sua busca em detectar as possibilidades do objeto com o qual ele está atuando. O sujeito, ao interagir com o objeto para conseguir fazer alguma coisa, leva em consideração as restrições dos objetos, bem como as regras convencionais às quais eles estão atrelados.

    Além do compositor se deparar com as delimitações que ele mesmo atribui ao objeto, depara-se também com suas intenções, como veremos a seguir:

  • C16. "Eu sinto aqui organizando, preparando meu material de trabalho"
  • O próximo trecho revela o momento no qual o compositor começa a planejar algumas diretrizes para a sua ação. As diretrizes traçadas no momento dizem respeito às possíveis transformações que o compositor atribui ao objeto. Evidencia-se assim, o movimento top-down da atividade cognitiva do sujeito:
  • C19. "... eu posso fazer a inversão desse tema, o retrógrado desse tema, e é o que eu vou fazer..."
  • As operações musicais levantadas e implementadas pelo compositor, são as transformações possíveis que, no momento, ele vislumbra para o objeto.

    Permeando o processo de atuação do compositor, há momentos nos quais ele reflete sobre o que fez até então e faz planificações de suas ações a nível mais geral. Podemos perceber que nessa atuação passa a evidencia-se o movimento top-down da ação cognitiva do sujeito, pois ele se detém em pensar em algo que poderia ser feito, sem saber ainda quais objetos utilizaria.

  • C21. "... não sei se vão ter uso todas estas informações, mas pelo menos eu vou ter um material grande de trabalho e vou tentar sobrepor uma informação com outra, juntar, misturar..."
  • Na seqüência das ações, volta a se evidenciar o movimento bottom-up pois o compositor retoma a busca de características do objeto musical dado inicialmente.
  • C23. "O que eu posso buscar mais de informação é que, as relações intervalares do trecho que você me passou, compreende uma 2ª maior, uma 4ª justa e outra 2ª maior. São informações legais, pro tamanho do trecho, só tem duas relações intervalares: 2ª maior e 4ª justa"
  • Como podemos perceber, durante a tarefa de resolução de um problema a ação do indivíduo oscila entre os movimentos top-down e bottom-up. Esses dois movimentos sempre ocorrem durante a atividade cognitiva, porém, há situações onde um pode prevalecer em relação ao outro.

    O compositor, depois de implementar as transformações que vislumbrou para o tema inicial, toca no piano o tema gerador e as derivações criadas. Na seqüência, há a seguinte reflexão do compositor:

  • C28. "Bom agora, o que fazer com isso?"
  • Como se evidencia na atividade composicional até aqui descrita, o sujeito intenta analisar o objeto (tema musical inicial). Estuda suas características, vislumbra um conjunto de transformações possíveis, ou seja, destaca as unidades causais com as quais terá que considerar para chegar ao que se propõe. Ao vislumbrar um conjunto de transformações possíveis, o sujeito passa a dispor de elementos necessários para resolver a tarefa de fazer um desenvolvimento musical. Mas, como expresso em C28, dispor de elementos e transformações pertinentes ao objeto não é suficiente para que, de imediato, o sujeito defina objetivos e sub-objetivos para chegar a uma solução. Para tanto, precisará definir o que se designam como unidades teleonômicas, ou seja, o sujeito passará a definir objetivos acessíveis em função das transformações disponíveis por ele levantadas.

    O trecho a seguir revela um momento em que o compositor começa a gerar objetivos que pretende desenvolver em função das características levantadas sobre o objeto e das transformações que implementou sobre o mesmo. Nesse momento, o compositor começa a estabelecer algumas delimitações para o seu trabalho. O compositor traça objetivos mais amplos, considerando os objetos (o tema inicial e as transformações) e as regras convencionais às quais eles se subordinam. Sua decisão é fruto de uma coordenação possível entre as unidades causais (dados relativos ao tema) e as teleonômicas (linha de evolução de idéias).

  • C41. "O que eu penso nessa composição é tentar jogar essas informações, principalmente ligadas ao que me ocorreu: inversão, retrógrado e tal, mas também tentar manter o aspecto tonal que ela tem. E dentro desse aspecto tonal tentar criar alguma coisa dentro de uma proporção áurea, que é você sair de um ponto X, desenvolve até criar um clímax e o desfecho".
  • As novas delimitações para o trabalho dão conta de coordenar objetivos mais amplos (misturar as informações e fazer com que o desenvolvimento tenha um início, atinja um clímax e tenha um desfecho) com sub-objetivos (combinar os objetos disponíveis levando em consideração as relações tonais entre os mesmos).

    Apesar de o compositor levar em consideração os objetos disponíveis, neste momento há uma preponderância dos aspectos teleonômicos e do movimento top-down, pois o compositor se detém em traçar e integrar metas para o seu trabalho.

    O trecho a seguir revela um momento de coordenação entre as unidades causais e teleonômicas. Poderíamos dizer que, neste momento, o compositor efetivamente chega à construção de uma solução para o seu desenvolvimento musical. É o momento em que o compositor considera os objetivos como possíveis de serem atingidos com os objetos disponíveis.

  • C49. "a idéia que vou tentar fazer aqui, pra não ser muito extenso - que seria uma das alternativas, de todas as idéias que me ocorrem - é ir estreitando essa intersecção até fazer uma totalmente sobreposta a outra e depois inverter a coisa. (faz gesto com as mãos demonstrando a idéia a ser desenvolvida de justapor gradualmente os tempos das duas vozes).

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    C50. "Foi essa idéia que me pintou agora e que daria uma certa coesão pra peça. Vamos ver como vai rolar"

    Este momento de coordenação pode ser constatado na fala do compositor referindo-se ao fato de que, a idéia surgida, permitia uma "combinação que fechou o sistema que imaginou", ou ainda que possibilitava uma "coesão para a peça". Nessa coordenação, os objetivos que delimitam linhas mais abrangentes de sua ação como - misturar as informações disponíveis fazendo com que o desenvolvimento tenha um início, atinja um clímax e tenha um desfecho - são atrelados a sub-objetivos que dão conta de especificar como essas diretrizes poderiam ser efetivadas (fazer sobreposição gradativa dos tempos das duas vozes e posteriormente fazer o movimento inverso), levando em consideração os objetos necessários para realizá-los.

    O compositor ao finalizar seu trabalho dedicou-se a representá-lo:

  • C74. "Agora uma coisa que eu quero fazer é ter uma noção panorâmica do que eu fiz agora, pra eu poder dar uma continuidade depois"

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    C75. "Eu vou chamar seu tema de T, inversão de I, retrógrado de R, retrógrado da inversão de RI...Vamos ver o que eu usei em todos os compassos"

    Blanchet (1992) afirma que uma das partes do desenvolvimento da experiência do sujeito ao resolver um problema é a de representar a sua solução. Denomina essa atividade de tarefa de representação. De fato, o que podemos ver na representação elaborada pelo compositor, é uma síntese das idéias desenvolvidas. O compositor fez uma representação gráfica, registrando, segundo um eixo temporal, as seqüências musicais utilizadas nas duas vozes. Representou-as por traços e siglas, numerou os compassos e demarcou a sobreposição dos tempos entre as duas vozes.

    Considerações Gerais

    Os dados obtidos no experimento analisado acima mostram que a ação do indivíduo é bastante sofisticada e que, um ambiente computacional voltado à atuação de aprendizes, tem que propiciar essa atuação. Percebe-se que as fases de desenvolvimento de uma criação, não são lineares. O que ocorre é um "diálogo" no qual a ação do compositor transita do geral para o particular e vice-versa. Esses saltos são inesperados dado o tipo de objeto e objetivo que são tratados em cada momento do design. Nesse sentido o ambiente computacional tem que propiciar que essa flexibilidade seja mantida, não bloqueando a ação do compositor no sentido de dar um salto de um nível para outro.

    Do ponto de vista educacional, em função do ciclo de ações que abrange "o fazer composicional", o compositor encontra condições de aberturas para novas possibilidades. Nesse ciclo de ações, há momentos de coordenação das unidades causais e teleonômicas que dá ao sujeito condição de compreender o seu fazer e explicitar o que fez. Um ambiente de composição musical voltado a principiantes tem que oferecer situações nas quais o aprendiz possa atuar e refletir sobre essa atuação de modo a construir e internalizar os conceitos e estratégias utilizados no contexto de atuação.

    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
     
     

  • ACKERMANN, E. (1993) "Tools for constructive learning: Rethinking Interactivity", MIT, USA.
  • BARANAUSKAS, M. C. (1993) "Uma abordagem construcionista ao design de um ambiente para programação em Lógica" in Computadores e Conhecimento: repensando a educação/ José A. Valente, organizador, São Paulo.
  • BLANCHET; et al (1992) "Les unités procédurales, causales et téléonomiques dans l’estude des processus cognitifs"in Le cheminement des decouvertes de l’enfante. Recherche sur les microgeneses cognitives: Delachaux et Niestle, Paris.
  • MARTINS, M. C. (1994) "Investigando a Atividade Composicional: Levantando dados para um Ambiente Computacional de Experimentação Musical, dissertação de mestrado, departamento de psicologia educacional da faculdade de educação-UNICAMP.