A INFORMÁTICA COMO UM NOVO DESAFIO AO PROFESSOR
 

Casturina Jaira da Silva
UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS
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1. INTRODUÇÃO

Este estudo teve origem, a partir da experiência da autora em modificar o estilo de ministrar aulas nos cursos de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, Instituição onde leciona há 10 anos, após o conhecimento e aplicação do software de apresentação "power point".

A UNISINOS é uma concessão do Ministério da Educação e Cultura, MEC, à Ordem dos Jesuítas. A Universidade situa-se no município de São Leopoldo, no estado do Rio Grande do Sul - Brasil.

O software "power point" foi desenvolvido pela microsoft para elaborar transparências de modo rápido, com qualidade, elaborar slides com efeitos especiais para uma apresentação em tela, o que vem facilitar o trabalho do apresentador, chamando atenção do público pela mudança de cor, de imagens, esmaecendo tópicos anteriores, acrescentando figuras aos diálogos, fazendo observações na própria apresentação com o ícone de anotação à mão livre. Esses recursos propiciam uma exposição mais completa, facilitando a memorização do conteúdo e a atenção dos participantes.

Embora o software "power point" tenha surgido no mercado em 1993, meu conhecimento sobre suas aplicações datam do início deste ano quando fui indicada pela Direção do Centro de Ciências Econômicas, onde exerço a função de professora, a participar de um grupo, o Núcleo de Tecnologias Educacionais - NUTE, que estuda tecnologias na educação.

O NUTE é formado por um coordenador e um representante de cada Centro de Ensino da universidade indicado pelo respectivo diretor.

Inicialmente minha participação no grupo foi mais de espectadora, visto que sou graduada em Administração de Empresas e com pouco conhecimento em Informática. A experiência vivenciada com a informática situa-se mais ao nível do uso de aplicativos como: os editores de textos e planilhas.

Após participar de algumas reuniões brotou o interesse em utilizar o software "power point" para preparar as aulas ministradas nos cursos de graduação na Universidade, especificamente, na disciplina Introdução à Administração IV, que integra o elenco da grade curricular do curso de Informática.

O estudo apresenta dois momentos, o primeiro, onde se faz uma explanação do professor frente da reação frente à nova tecnologia e o outro, é a percepção dos alunos que participaram da disciplina no semestre.

Com certeza, o estudo apresenta um "viés" visto que os alunos, fazem parte do curso de Informática. Têm expectativas maiores à utilização de recursos em sala de aula que empregam o uso do computador, pois anseiam pela concretização do uso prático dos recursos tecnológicos que operam ou não operam.

2. A ORGANIZAÇÃO DO PROFESSOR FRENTE AOS AVANÇOS TECNOLÓGICOS UTILIZADOS EM AULA

Em um primeiro momento parecia que o trabalho seria extremamente fácil, pois já leciono há 12 anos e tenho as aulas organizadas em fichas para o semestre, a cada novo semestre reviso as bibliografias e os conteúdos acrescentando autores e inovações ocorridas no semestre anterior, faço as alterações que se fazem necessárias e exponho os assuntos através de transparências, exercícios ou estudos de caso.

Surpreendentemente na passagem do processo manual para o software, a facilidade referida não foi tão simples assim. Alguns fatos merecem ser analisados e discutidos a seguir: na relação do professor X organização das aulas, do professor X o próprio processo de aprender para repassar o conteúdo e ainda o papel do professor X processo de mudança, da qual falamos a todo momento, mas nem sempre exercitamos de modo tranqüilo entendendo como uma ruptura com tradições às quais nos acomodamos na rotina de semestre a semestre.

Em primeiro lugar, na relação do professor com a organização das aulas, verifica-se que a relevância do papel do professor está entre outras variáveis na atualização dos conteúdos. Sabe-se que a ciência evolui a cada dia, essas evoluções originam-se em cada área do conhecimento, levando-o à sala de aula, local adequado de passagem e geração de novos conhecimentos.

CUNHA (1992) discute bem essa questão ao referir-se à atuação do professor em sala de aula, somatizando uma diversidade de variáveis que compõe determinado comportamento, passando a ser uma referência aceita ou não na percepção dos alunos.

Ainda retomando o tema de organização de aulas há que se corroborar com CUNHA (op. cit. p.135) quando diz que:

  • O ritual escolar está basicamente organizado em cima da fala do professor... pois ele é a principal fonte de informação sistematizada. Portanto buscar inovações às aulas é parte do papel do professor que é assunido e esperado pelo grupo de alunos, a partir dessa troca há geração de novos conhecimentos aos alunos.
  • Uma das formas de diferenciar-se na organização própria, de ser do professor pode ser quando toma um novo caminho na busca de inovações tecnológicas para suas aulas, sendo que uma delas é através dos recursos que a informática propicia. Outra facilidade vista é que o próprio software tem um roteiro para criar apresentações facilitando o processo aos iniciantes.

    No caso específico do software "power point", verifica-se que para preparar as aulas de modo, pelo menos satisfatório necessita-se de mais dados, do que aqueles das aulas através do processo manual. Alguns exemplos podem ser citados como: a sistematização dos objetivos, a seqüencia dos temas, a relação com a prática, a busca por novas fontes de informação pois utilizando uma nova tecnologia, busca-se caminhos diferenciados. Isto não quer dizer, que na preparação das aulas tradicionais estas seqüencias de passos sejam abolidas, mas com um recurso inovador como são os caminhos da informática, pode-se trazer novos benefícios.

    No caso de aulas apresentadas com data-show, a organização torna-se mais determinada e precisa. O teste dos slides é fundamental para verificar algumas variáveis como: as cores fornecem boa imagem, os desenhos são compatíveis com o texto, o ambiente onde a apresentação será feita é adequado, a iluminação favorece a projeção, o lay-out das classes está de acordo, propiciando visibilidade.

    Diante destes dados quero afirmar, que pelo menos na minha experiência as aulas foram mais organizadas se comparadas com outras que preparei através de métodos isentos de tecnologia informatizada, como só aulas expositivas, através de exercícios, com projeção de transparências, ou assistir e discutir um vídeo. Desde já, quero deixar claro que embora tenha utilizado o software, não quero dizer que outros recursos de aprendizagem não sejam válidos, muito pelo contrário, inclusive, faz-se necessário registrar que não vejo a técnica em si tornando o professor mais eficaz ou eficiente, mas sim o conteúdo e o conhecimento o qual ele domina. As técnicas podem auxiliar e fazem bem isso, quando há domínio do conteúdo.

    Em segundo lugar, há que se registrar o papel do professor versus o processo de aprendizagem do recurso técnico para repassar a aula através de uma técnica nova.

    Certamente o aprendizado é parte diuturno na carreira profissional do professor, pois a cada momento, em cada aula e em todos os dias, acrescentamos algo a mais sobre a área específica do conhecimento que já estudamos. Como também, descobre-se novos caminhos, descortinam-se novos conceitos, substituem-se novos paradigmas cristalizados.

    É indiscutível qualquer informação contrária. Todavia, com a crescente evolução tecnológica, principalmente, nos meios de comunicação e de informatização, às vezes há resistência em aprender sobre determinado tipo de conhecimento. Embora essa resistência venha do professor apesar de que caracteriza-se, via de regra, como um profissional propulsor de mudanças, alguns dados justificam esse comportamento como: a) dificuldade por não ser uma área que já se tenha alguma interação; b) não vê razões suficientes para aplicar a técnica e portanto não há porque aprender; c) faltam recursos físicos como salas adequadas ou equipamentos; e d) preconceito estabelecido com inovações tecnológicas coisas que podem ser modismos aparentes.

    Por certo, qualquer que seja o motivo da resistência ao aprender, a hora é de questionar-se procurando aplicar e interar-se com novas técnicas, e não o afastamento delas, ora a evolução pessoal faz parte da evolução da ciência, ou melhor, a ciência só evolui, quando alguém é capaz de ousar fazendo novos aprendizados, rompendo paradigmas na procura de abrir perspectivas ao futuro na busca da crescente evolução da humanidade. BOOG (1994, p.9) referindo-se ao processo de mudança própria diz: "Antes de mudar os outros, é fundamental primeiro mudar a si mesmo". Acredito que o professor é fomentador de mudanças, inclusive enquanto ensina, para isso é necessário que também demonstre aos aprendizes que acredita no exercício de aprender, praticando essa crença no dia a dia, através da dinâmica das aulas.

    É provável que alguns professores em um primeiro momento resistam ao uso de tecnologias informatizadas porque há dados, e isso é inegável que através do uso de máquinas, gradativamente substitui-se o homem, gerando desemprego a bem do capital, com inúmeras vantagens. BATALHA (1994, p.201) reporta-se a esse assunto. "A princípio, argumentava-se que o computador poderia vir a substituir o professor. Isso não se confirma e ele tem funcionado muito mais como um coadjuvante do professor". Neste caso a informática tem o papel de tutor no processo de ensino, este conceito pode ser utilizado com a multimídia, que apesar de apresentar-se como praticamente completo com o texto, a imagem e o som, a explicação detalhada cabe ao professor, bem como a montagem do software multimídia, que com certeza não é, e não será desenvolvido por leigos, mas por pessoas que tenham conhecimento do conteúdo do software.

    Além disso, cabe endossar que o professor, tem em outras atribuições acadêmicas, o relacionamento interpessoal com o aluno fornecendo feedback imediato, fruto da convivência que é insubstituível por qualquer que seja a máquina. Esse relacionamento gera afetividade de ambas as partes, inclusive favorece melhor aprendizagem. MEDEIROS (1989), BECHARA (1992) e BELARDI (1992) abordam muito bem o outro lado deste processo, que gera alienação e isolamento, tanto do professor quanto do aluno.

    DRUCKER (1993, p.213), tem uma visão prospectiva do papel do professor fazendo essa afirmação.

  • O professor será cada vez mais um supervisor e um mentor - talvez aproximando-se bastante do que ele era na universidade medieval vários séculos atrás. O trabalho do professor será ajudar, orientar, servir de exemplo, incentivar. É bem possível que o seu trabalho deixe de ser primordialmente transmitir a matéria em si.
  • Finalmente, cabe discutir o papel do professor e o processo de mudança. Indiscutivelmente aprender é também mudar. Pergunta-se mudar o que? e em que momento?

    Respondendo a primeira questão pode se dizer que a mudança é de atitude, aliás diversas atitudes são mudadas nesse processo. Como por exemplo, romper hábitos sólidos, talvez quase solidificados pelo tempo na busca de inovações. De que forma? A resposta da segunda questão, acredita-se que é importante fazer o registro da própria história aqui, desfazendo-se de materiais existentes, no caso das fichas antigas de aulas preparadas.

    Com a proposta de mudar tudo, em termos do estilo das aulas ministradas até hoje, tem-se que romper com velhos hábitos, é certo que acumulam-se inúmeras informações no decorrer do tempo, evidentemente que a memória registra o essencial. Além disso, como apoio a quem quizer utilizar essa prática, há diversos tipos de material que surgem a todo o mês como: livros, revistas técnicas, textos de jornais específicos e periódicos de cultura geral que estão catalogados em bibliotecas acessíveis a todos. Aqui na universidade esse material é farto. Então um caminho é desfazer-se das aulas até então preparadas, não que elas não sirvam mais, mas para partir do zero, partindo de idéias novas, apesar do conhecimento acumulado.

    Isso também não quer dizer que estas idéias endossam a "reengenharia", apregoada por uns como a grande revolução do século ou a negação de tudo que já se fez até o momento, quando na verdade, essa mudança pode ser como o desafio tecnológico das técnicas de ensino.

    Caso alguém queira saber sobre o momento da mudança, pode-se dizer que é agora, respondendo a terceira questão, e o agora é hoje, ou a partir desta data. Muito se discute, fala e analisa o ensino superior no Brasil, GOMES (1978), TEIXEIRA (1989) e SILVA (1991). Contudo urge uma mudança pessoal do professor no processo de ensino, mudança essa que seja uma revalorização do ensino, através do desenvolvimento profissional do professor. É certo, que se fala aqui de uma mudança pequena, pois o modo de ministrar aulas, para muitos podem significar muito pouco ou nada. Todavia, basta reportar-se à história, e vê-se que pequenas mudanças mudaram o mundo, em alguns casos para a pior, em outros, pode-se dizer a grande maioria, para melhor, pois apesar de tudo estamos aqui, na caminhada para a evolução.

    Cabe frisar aqui, que por certo, o simples fato de mudar a forma de ministrar as aulas gerem transformações significativas e valiosas à classe. Se de um lado, pode parecer apenas mudança na forma, ou seja, passar de um estilo de aula para outro. Por outro lado, vejo que o professor reavalia sua organização interna no processo, pelo menos, se tratando da utilização do software "power point", que conduz a reformulação e aprimoramento dos conteúdos.

    3. METODOLOGIA DE ESTUDO

    A fundamentação prática do estudo está embasada em dados coletados da opinião dos alunos participantes nas aulas do segundo semestre de 1995. Objetivamente optou-se por este meio de obter informações, por entender que se trata de um modo concreto de analisar discurso e prática. O número de alunos respondentes totaliza 60 presentes na aula nos dias da coleta de dados. Um questionário sem identificação, serviu como instrumento de coleta de dados. O objetivo principal era registrar a opinião dos estudantes sobre as técnicas utilizadas nas aulas. O aluno marcava a técnica que mais facilitava seu entendimento. As alternativas eram: estudos de caso, software "power point", expositiva, trabalhos em grupo nas salas de aula, projeção de vídeos.

    Depois explicava a razão pela qual a técnica utilizada o fazia assimilar o conhecimento

    3.1 Análise de dados

    Os dados expostos a seguir são os depoimentos dos alunos em relação à técnica aplicada. É possível verificar que há uma valorização maior da aula exposta através do "power point" do que aquelas que se usou no vídeo. No que se refere ao "power point" as respostas foram as seguintes: "O conteúdo fica melhor exposto, não há preocupação em copiar pois posteriormente pode-se tirar fotocópia". "A fácil vizualização no "power point" torna a aula mais interesssante". "Aulas diferentes facilitam a atenção do aluno". "O "power point" torna a aula menos cansativa e muito mais interessante". " Facilita a compreensão de uma forma menos formal". " Prende mais a atenção". " Grava-se mais rápido o assunto". "Aparecem tópicos fundamentais". "Ótimo ambiente". "Tem-se a possibilidade de estudar em casa de forma que o aluno grave mais rápido o assunto".

    Faz-se necessário explicar que estes dados, por um lado, têm um "viés", visto que os estudantes são originários do curso de Informática, portanto evidenciou-se a valorização que fazem dos recursos através do computador.

    Por outro lado, a opinião do usuário no processo é importante e assim há de se considerar que tem validade a utilização de novos recursos, na sala de aula.

    Já através do vídeo as informações colhidas foram de que: "Não existe rotina". "É uma maneira mais descontraída de aprender". "Resumem melhor a matéria". "Prende mais a atenção do aluno, é mais atrativa". "Mostra exemplos claros objetivos". Também pode ser observado que este recurso é mais valorizado do as outras alternativas utilizadas em sala de aula, certamente até porque também é um recurso moderno, parte da vida dos jovens.

    4. CONCLUSÃO

    A guisa da conclusão é possível dizer que a proposta inicial era considerar a organização do professor no uso de novas técnicas na sala de aula e também buscar a opinião dos alunos sobre essas técnicas. Todavia é bom lembrar que para um estudo completo teria que aplicar essa coleta de dados em turmas de outros cursos, como o de Administração, que até o momento não foi possível completar e aplicar neste trabalho.

    Além disto, ficou evidente que por ser aplicado em um único grupo, de um único curso, a análise tornou-se fragilizada ainda que, em parte seja válida como processo de mudança.

    Todavia é bom lembrar que nem sempre é possível tomar decisões acertadas, fundamentando-se aqui nas idéias de Simon (1965), na maioria dos casos elas são apenas satisfatórias, e se tratando de sala de aula com novas tecnologias às vezes pode parecer, que embora se busque o melhor caminho, pode ser que aplicado em diferentes cursos ele não seja tão aceito. A idéia é continuar recorrendo a opinião dos alunos por mais 2 semestres inclusive comparando informações colhidas de estudantes de outros cursos.

    BIBLIOGRAFIA

    BATALHA, Paulo Eduardo Lopes. Informática e T&D. in Manual de Treinamento e

    Desenvolvimento ABTD. 2ªEd. São Paulo: Makron Books, 1994.

    BECHARA, José Maria. A Tecnociência e o Homem: a informática e o homem. Cadernos de Ciências Sociais. N2, 27-31, dez/92.

    BELARDI, Aldo Artur. A Tecnociência e o Homem: o avanço tednológico e o homem. Cadernos de Ciências Sociais. N2, 33-34, dez/92.

    CUNHA, Maria Isabel da. O bom professor e sua prática. 2ªed. Campinas, São Paulo: Papirus, 1992.

    BOOG, Gustavo G.. Manual de treinamento e desenvolvimento ABTD. 2ªEd. São Paulo: Makron Books, 1994.

    DRUCKER, Peter F.. As Novas Realidades. 3ªed. São Paulo: Pioneira, 1993.

    GOMES, Cândido Alberto. Curso Superior e Mobilidade Social: Vale a Pena? Educação Brasileira, V.1(1): 63-83, 1.o semestre, 1978.

    MEDEIROS, Marilú Fontoura de. Repensar a Tecnologia na Educação: O compromisso Social e a Tecnologia ou a pseudotecnologia. Tecnologia Educacional, v.17/18 (85-86): 3-20, nov.88/fev.89.

    SILVA, Casturina Jaíra da. Contribuições para a compreensão de processo de tomada de decisões na Universidade: o caso da Unisinos. Tese de Mestrado, Programa de Pós Graduação em Administração, Porto Alegre, 1991.

    SIMON, Herbert A. Comportamento Administrativo: estudo dos processos decicórios nas organizações administrativas. Rio de Janeiro, F.G.V., 1965.

    TEIXEIRA, Anísio. Ensino Superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969. Rio de Janeiro, F.G.V., 1989.