As Tecnologias de Informação e Comunicação (T.I.C.) e a pessoa portadora de deficiência motora severa: Construção de um modelo de avaliação.

Maria Eulália Ribeiro Cordeiro
Centro de Recursos Tecnológicos em Reabilitação - Faculdade de Motricidade Humana
Universidade Técnica de Lisboa
Portugal



Introdução

A avaliação é sempre uma área exigente, controversa e particularmente difícil na população com perturbações severas da motricidade e da comunicação. Se por um lado consideramos que cada caso é um caso, necessitando por isso de uma procura específica de respostas, também consideramos que há aspectos gerais, que são comuns e que determinam opções e apontam linhas de trabalho.

Nos últimos 15 anos intensificaram-se os estudos sobre as tecnologias, aplicadas nas áreas das deficiências, contudo não encontramos modelos que abarquem a amplitude do processo avaliativo e que o planeiem numa estrutura organizada e sequencializada.

Assim, importa a existência de uma estratégia avaliativa que possa evidenciar em relação aos processos habituais, as seguintes vantagens:

1- Seja um processo integrado e unificado, procurando relacionar os aspectos funcionais das ajudas técnicas, com as necessidades do indivíduo e com as problemáticas do ambiente envolvente. 2- Seja um processo que utilize as T.I.C. para avaliar a interacção do indivíduo com as T.I.C..

3- Seja um processo multidisciplinar procurando uma unidade de resposta que integre valências de várias áreas implicadas no funcionamento do indivíduo - aspectos posturais, funcionais, ergonómicos, educacionais...etc.

4- Seja um modelo aberto e flexível capaz de se adaptar a novas formulações.

5- Seja um modelo que possibilite um estudo longitudinal da evolução do indivíduo, que opera com as T.I.C.

1- Critérios e objectivos gerais orientadores deste modelo de avaliação:

Neste seguimento proposemo-nos construir um modelo de avaliação que embora genérico e abrangente, fosse capaz de dar resposta à especificidade de cada caso. Seguimos um modelo de concepção educacional baseado numa avaliação centrada no indivíduo, o qual respeitou os seguintes critérios:

Como em qualquer contexto avaliativo as opções a tomar sobre o tipo de avaliação a realizar, deverão estar de acordo com o que pretendemos dessa avaliação e com as características da população alvo. Neste trabalho recorreu-se exclusivamente a uma avaliação informal, composta por testes de referência a critério, essencialmente centrados na observação e na análise de tarefas.

Quanto aos objectivos essenciais que se pretendeu alcançar com este modelo apontamos:

2- Estruturação de um modelo de avaliação, para a utilização das T.I.C. Domínios contidos neste modelo.

Na estruturação do modelo de avaliação, que constitui o problema central deste estudo, a avalição é perspectivada a dois níveis:

2.1- A avaliação global do Sujeito, considerada como avaliação de 1º nível, pois vocaciona-se para determinar as condições básicas para operar com as T.I.C, ou através delas - vertente habilitativa. No presente trabalho, não são definidos quais os requesitos mínimos, para o indivíduo poder utilizar as T.I.C. Parte-se portanto do princípio, que qualquer utilizador poderá vir a beneficiar deste meio de interacção, desde que enquadrado na devida estratégia pedagógica.

Este aspecto da avaliação pretende então determinar se as T.I.C. são as melhores respostas de momento para as necessidades do indivíduo e também obter informações sobre a melhor forma de organizar a avaliação específica, ou de 2º nível.

2.2- A avaliação específica, considerada de 2º nível, pois, partindo da primeira, avalia o indivíduo em aspectos mais específicos, directamente relacionados com a realização das tarefas no computador - vertente instrumental. Os parâmetros referentes às condições habilitativas do sujeito, foram organizados em Domínios, referentes a áreas de competência e em Subdomínios, ou Dimensões, referentes a capacidades dentro desses domínios.

No quadro 1- podemos ver em síntese os domínios contidos na vertente habilitativa.

O quadro 2 - refere-se aos domínios contidos na vertente instrumental, que de acordo com o que já foi anteriormente referido se relacionam directamente com a operacionalidade directa com o computador. Aqui estão contidos toda a problemática da acessibilidade, da funcionalidade na digitalização assim como a determinação dos segmentos corporais mais funcionais para operar com o computador.

Quadro 1- Quadro sintese da avaliação global - Vertente habilitativa
 
 

DOMINIO DIMENSÃO
  • Postural
  • Percepção visual
  • Percepção auditiva
  • Cognitivo 
  • Comunicação
  • Emocional 
  • Simetria
  • Cruzamento da linha média/ movimento num plano diagonal (rotação)
  • Controlo dos movimentos involuntários da cabeça.
  • Controlo ocular
  • Discriminação de cores
  • Discriminação de desenhos
  • Discriminação de simbolos
  • Discriminação de sílabas
  • Discriminação de palavras
  • Memória visual de imagens
  • Memória visual de séries
  • Interacção c/ o meio
  • Memorização
  • Sequencialização
  • Atenção
  • Recepção/compreensão
  • Expressão
  • Controlo do insucesso
  • Motivação
  • Autonomia
  • Impulsividade

Quadro 2- Quadro sintese da avaliação específica - Vertente instrumental
 

DOMINIO DIMENSÃO
  • Função digitalizadora
  • Funcionalidade dos diferentes segmentos corporais
  • Acessibilidade
  • Movimentos ....
  • Mão
  • Cintura escapular
  • Cotovelo
  • Punho
  • Cabeça
  • Factores temporais
  • Factores de precisão
  • Factores funcionais dos mov. da cabeça.
  • Cabeça
  • Membro superior
  • Zona oro-facial
  • Membro inferior
  • Modo directo -( Função digitalizadora)
  • Teclado 
  • Rato
  • Impressora
  • Drive
  • Modo indirecto-(Técnica de varrimento/selecção
  • Interruptores (switch)
  • Aspectos ergonómicos

 

3- Construção dos instrumentos de avaliação. Desenho de uma matriz conceptual:

A criação dos instrumentos de avaliação que constituem este estudo, seguiu a estrutura conceptual indicada nos quadros anteriores e procurou assegurar para cada um dos instrumentos a fiabilidade e standardização que lhes permitisse serem usados em contextos diversificados sem perderem validade. Procurou-se assim, que cada instrumento criado pudesse ser analisado em função das seguintes variáveis:

  • Propósito
  • Contendo aqui, o que é que o teste se propõe medir ou avaliar.
  • Destinatários
  • A que tipo de indivíduo se destina.
  • Descrição
  • Neste ponto estão contidas as fases fundamentais de cada teste, no referente ao seu protocolo de aplicação
  • Limitações
  • Nas pessoas portadoras de deficiências motoras severas, há grande heterogeneidade no referente às suas disfunções. Assim, nem todos os testes organizados para este estudo, estão adequados à totalidade dessa população e nem todos os testes têm oportunidade de aplicação.
  • Tempo:
  • O tempo, dificilmente será um factor neutro, numa avaliação que tem também por objectivo, a determinação da eficácia de realização do indivíduo, quando interage com as T.I.C.

    Assim, em muitas das provas organizadas, o tempo é considerado uma variável de realização que importa considerar. Há contudo, outro tipo de provas, em que o factor velocidade de concretização não tem a preocupação primeira. Aqui o factor tempo não será considerado.

  • Níveis de realização / Valoração:
  • De acordo com as pretensões de cada instrumento, foi previamente prevista a forma de tratamento dos resultados .

    Para cada teste, foi elaborada uma hierarquia de níveis, que obedeceram a critérios de optimização, relacionados com uma aproximação a um padrão "normal" de funcionamento, de acordo com a realização das tarefas propostas em cada prova. Assim:

    1)Criou-se um critério de valores de 1 a 4 , em que o 4 seria o nível de melhor realização ou funcionalidade e o 1 , o que mais se afastava de um padrão de optimização . Para além desta hierarquização dos resultados obtidos, esta valoração pretendeu obter um perfil de competência do indivíduo em relação aos parâmetros avaliados, comparável a uma linha de base, que possibilitará estudos longitudinais do caso avaliado. Pretendeu também, criar critérios de observação, ou seja, pré - definir pontos críticos quando da realização das provas.

    Finalmente, este modelo de avaliação não pretende ser uma bateria de testes a aplicar exaustivamente a todos os indivíduos que se propõem para avaliação. A sua aplicação está, antes de tudo, condicionada pela problemática desse indivíduo e pela estrutura e objectivos do próprio instrumento.

    Por exemplo:

  • Num indivíduo com grandes disfunções dos membros superiores, mas que não tenha problemas de comunicação verbal, - situação frequente nos traumatizados vertebro - medulares com lesões altas, - não faz sentido aplicar os instrumentos organizados para a caracterização da comunicação.
  • Um outro exemplo:
  • Num indivíduo com lesões neuro motoras severas, mas que mantenha no seu dia-a-dia, um razoável funcionamento cognitivo e/ou perceptivo, a selecção dos instrumrntos a aplicar, incidirá essencialmente, nas questões da funcionalidade e da acessibilidade.
  • Em síntese:
  • Todos estes instrumentos se destinam a sujeitos que, por analogia com os seleccionados neste estudo, apresentam grandes disfunções ao nível da sua interacção com o meio (objectos e pessoas).

  •  

     
     
     

  • Compete ao avaliador, seleccionar o que é adequado para cada caso perante o conjunto de instrumentos que tem à disposição, perante a problemática do indivíduo que vai avaliar e perante o objectivo dessa mesma avaliação.
  • 4- Procedimentos na aplicação dos instrumentos:

    Para cada instrumento foram estabelecidos os respectivos procedimentos de aplicação, assim como os critérios para atribuição de valores ou de níveis de eficácia, de forma a reflectirem a qualidade de realização em relação:

  • a uma optimização pretendida
  • às possibilidades de realização do próprio indivíduo
  • à adaptação das ajudas técnicas no próprio momento da avaliação, como elementos facilitadores.

  •  

     
     
     

  • 4.1 - Procedimentos gerais

  • A criação de um ambiente relacional favorável à desinibição do indivíduo a avaliar é de grande importância, pois poderá contribuir para que este consiga mais facilmente manifestar as suas reais capacidades.

    Assim, torna-se fundamental que o avaliador consiga criar um ambiente informal, mas que, simultâneamente, não favoreça a dispersão.
     


    Os procedimentos ligados a este item, devem respeitar alguns princípios a fim de que:

    a- As tarefas a propôr, estejam ao alcance das capacidades executivas do indivíduo. b- A selecção dos instrumentos a aplicar, tenha o máximo de adequação à problemática do indivíduo, a fim de evitar situações sistemáticas de insucesso, por défice dessa adequação.

    c- Os instrumentos sejam apresentados de uma forma clara e concisa

    d-Os instrumentos, vocacionados para avaliar aspectos instrumentais de operacionalização da tarefa, sejam independentes do nível académico do indivíduo.

    e- Seja previamente considerada e de acordo com as condicionantes de expressão que o indivíduo apresenta, qual vai ser a forma de indicação da resposta. Essa forma de indicação poderá ser escolhida dentro de várias hipóteses. Assim:

    A utilização desta forma de indicação, presupõe a existência de um teclado simulado no écran. Esse teclado poderá ter as funções totais de um teclado tradicional ou poderá ter as funções mínimas adaptadas à tarefa em causa.
     


    Para cada domínio, foi construído uma ficha de avaliação, focando os aspectos considerados relevantes e que constituiram os subdomínios ou dimensões já anteriormente referidos (ver quadros nº1 e nº 2).
     


    Ainda dentro deste estudo, foi elaborado um software o qual pretendeu a realização de um estudo exploratório dentro desta área, com vista a uma maior facilitação ao nível do avaliador na selecção e organização dos dados. Construiu-se uma base de dados que aborda 4 áreas específicas:

  • 1ª Area - Ficha da pessoa avaliada -
  • 2ª Area - Ficha de avaliação da função digitalizadora da mão -
  • 3ª Area - Ficha de avaliação da função digitalizadora da cabeça -
  • - 4ª Area - Ficha de avaliação da qualidade da função digitalizadora
  • Para além da base de dados referida, foi também elaborado, para as provas de percepção visual - discriminação visual e memória visual - um programa interactivo, de forma a possibilitar uma avaliação mais rápida e mais fiel, para situações de grande severidade, com a possibilidade de recorrer a mais do que uma forma de acesso.

    Assim, neste programa, o indivíduo a avaliar, pode interagir através do :

  • Teclado tradicional
  • Rato
  • Écran táctil
  • Teclado alternativo, com desenho específico para o accionamento destas provas
  • Modo de varrimento, com três níveis de velocidade, para situações onde a indicação directa é impossível.
  • A informatização desta prova teve, quatro objectivos: 1º- Equacionar a hipótese de avaliação da população com deficiência motora com grave disfunção nos membros superiores, através de um programa que possibilite na selecção das respostas, o recurso à técnica de varrimento.

    2º- Testar a possibilidade de organizar um modelo de avaliação baseado em provas informatizadas, que nos possa fornecer com rapidez, o tratamento de alguns dados quantitativos, como sejam:

    3º- Possibilitar ao avaliador, observar a forma como o indivíduo interage com o computador, pela realização de uma tarefa concreta neste meio, permitindo simultaneamento uma avaliação qualitativa. 4º- Obter intrumentos de avaliação que possam funcionar em dupla situação, no campo da avaliação e no campo da intervenção. {Os Instrumentos formalizados para a percepção visual, foram adaptados do processo avaliativo, utilizado por Soro e equipa (1988), na área da Comunicação Alternativa. Este software, foi elaborado através do programa "File Maker Pro", da Apple Macintosh}. 5-Discussão / Recomendações: Este modelo de avaliação foi aplicado em 8 estudos de caso, numa amostra composta por indivíduos portadores de disfunção neuro motora, sendo 5 casos de paralisia cerebral, 1 caso de spina bifida, 1 caso de traumatismo craneo-encefálico e um caso de parkinsonismo. Em todos eles havia severos comprometimentos da comunicação e da funcionalidade dos membros superiores.

    Das avaliações efectuadas com os instrumentos contidos neste modelo, podemos considerar que na sua globalidade os objectivos foram alcançados. Contudo, consideramos que alguns provas necessitam de alguma reformulação. Assim:

  • Os instrumentos aplicados por computador, necessitam de estudos subquentes já que a velocidade do computador e a dimensão do écran, interferem com a aplicação da prova, nomeadamente quando a forma de indicação é indirecta e se recorre à selecção por varrimento.
  • A avaliação da vertente emocional, tornou-se por vezes pouco objectiva. Nas situações de grande disfunção, tornou-se difícil diferenciar níveis de autonomia psicológica devido ao baixo nivel de autonomia fisica.
  • Como recomendação podemos considerar que uma avaliação com estes propósitos:
  • Não deverá estar circunscrita exclusivamente à funcionalidade e à acessibilidade. Importa uma abordagem holística do indivíduo, com focagem nas suas capacidades habilitativas, pois serão elas que irão potencializar o uso das ajudas técnicas a propôr.
  • Não poderá circunscrever-se exclusivamente à prescrição de interfaces a adoptar, tendo que avançar para uma perspectiva integrada das tecnologias de apoio em função do nível de desenvolvimento e interesse do utilizador e do seu ambiente envolvente.
  • Deverá envolver o professor e/ou familiares que acompanham o sujeito.
  • Envolver, sempre que possível, o próprio utilizador na procura de soluções.
  • Finalmente, deverá centrar-se mais nas capacidades, do que nas incapacidades do indivíduo a avaliar.
  • (Estudo realizado no âmbito do Projecto CED-546, apoiado pela Junta Nacional de Investigação Cientifica e Tecnológica)

    Referências:

    Basil C., Escoín J., Gonzalez I.; "El Ordenador Personal y la Deficiencia Motriz"; 1985; Informática Test - p.23,60-66.

    Lee K.S.; Thomas D.J.; "Control of Computer-Based Technology for People with Physical Disabilities - An Assessment Manual"; University of Toronto Press; 1990.

    Rodrigues D., Morato P., Martins R., Clara S.H.; "As Novas Tecnologias na Educação Especial: do Assombro à Realidade"; IV Encontro Nacional de E.E. - Fundação Calouste Gulbenkian - Serviço de Educação; 1989.

    Soro E., Bulte C, Masmitja A., e outros; "Manual de Toma de Decisions y de Evaluacion para el Aprendizje y uso de los Sistemas Aumentativos de Comunicacion"; Direccion General de Accion Social del Ministerio de Trabajo y Seguridad Social; 1988.