PLANIFICAR UMA AULA INFORMATIZADA

Rui Antunes Correia
Escola Secundária Raúl Proença, Caldas da Rainha
Portugal


Preâmbulo

Em 1865, Feliciano de Castilho, representante da velha guarda literária, dizia, a propósito da nova geração literária, que, escritores como Teófilo Braga e Antero de Quental, "pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, (...) muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles"1. Antero de Quental responderia ao sarcasmo de forma igualmente contundente, como veremos adiante.

Não muito longe das diatribes literárias, também na pedagogia, a exploração inaudita de novas abordagens, posturas, materiais e temas suscita habitualmente quentes debates entre gerações de professores. A altercação filosófica que rodeia o questionamento e a prática pedagógicos produziu sempre saborosas polémicas que incendiaram jornais com a maior virulência. Os mais velhos sugerem prudência, que alguns tomam por sensata e que outros consideram atávica. Mas é relevantíssimo o papel destes polemistas. Levantar reservas quanto às novas formas de ensino, promove uma intro-reflexão por parte da nova geração que, invocando a dignidade de um novo estilo ou de uma nova atitude, se vê instada a afirmar-se com uma convicção e uma argumentação mais decididas e estruturadas. Sempre que algo de radicalmente novo surge no horizonte pedagógico, tudo se questiona, todos se agitam. E atravessamos, justamente, um desses momentos. O advento da tecnologia informática no mundo da Pedagogia, provoca actualmente um verdadeiro terramoto que tem suscitado as mais ferozes acusações, que revisitam antigas polémicas que já conhecemos.

São mais e mais os professores que fazem recurso às estratégias informáticas. Mas não tem sido sereno o caminho que têm percorrido. No seu percurso, muitos têm sido os obstáculos que se lhes tem colocado e que, mais vezes do que se pensa, inibiram ou prejudicaram a integração das novas tecnologias nas nossas escolas. Reveste-se, pois, de alguma importância, para quem, de ânimo inovador, planeia utilizar os computadores na sala de aula, conhecer de antemão as dificuldades que habitualmente irão deparar-se-lhe, identificar os perigos, para melhor os contornar. Tal como os navegadores, traçar um portulano que permita chegar a bom porto, esquivando-se dos escolhos, não perdendo de vista a costa, mas com a valentia necessária para, de vez em quando, se atrever ao alto mar.

Este planeamento prévio terá por isso de atravessar várias vertentes que poderemos sintetizar: por um lado, inventariar os principais obstáculos à divulgação e disseminação das estratégias informatizadas em Pedagogia nas nossas escolas; em segundo lugar, proceder a uma reflexão sobre o que realmente se espera deste envolvimento entre a Pedagogia e a Informática. E então, só então, garantir resposta decidida a um conjunto de questões, sem a qual nenhuma acção pedagógica sensata poderá ter resultados verdadeiramente inovadores. E tal só se atinge mediante uma reflexão que determine o tipo de preocupações que deve assistir ao professor no momento em que procede à integração das estratégias informatizadas na sala de aula.

1. Obstáculos para a adopção dos meios informáticos no meio escolar

Tem esta reflexão tanto maior interesse quanto se reconhece ter havido algum desequilíbrio na dotação de equipamento informático nos estabelecimentos de ensino. Tantos são os casos de sobreutilização de parcos recursos informáticos, como os de subaproveitamento de equipamento excessivamente sofisticado. Porque ainda não nos encontramos suficientemente longe de alguma precipitação que rodeou o aparecimento, mais ou menos súbito e intromisso, dos computadores nas escolas, convém que, ao iniciar-se na prática pedagógica com apoio informático, o docente reconheça os principais obstáculos que se irão colocar. De um modo geral, podemos enunciar cinco tópicos: atitude dos professores face às novas tecnologias; conciliação dos horários escolares; dificuldades logísticas; responsáveis pelo núcleo de Informática e regime de funcionamento do núcleo de Informática.

Com vista a uma integração serena mas entusiasmada das novas tecnologias no meio escolar, cabe ao portador da inovação garantir o estabelecimento de espaços e momentos de diálogo entre colegas, promovendo a aproximação aos novos equipamentos, sempre visando o aperfeiçoamento pedagógico global. Muito frequentemente, o núcleo de informática é ainda visto nas nossas escolas como um recanto onde se reune um sinistro grupo de gente que comunica através de dialectos mais ou menos esotéricos, apartado das coisas ligadas à pedagogia.
 

Da experiência que se retira de diferentes situações de formação, que pudemos acompanhar e orientar no âmbito das aplicações informáticas em docência, podemos atrever-nos a fazer uma tipologia de quatro atitudes típicas manifestadas por professores, que dificultam à partida uma correcta adopção das novas tecnologias:
 


Não se pretenda que estas são as atitudes mais vulgares. Os professores constituem uma classe profissional desde sempre aberta à inovação e é entre a classe dos professores que encontramos, por exemplo, a maior taxa de aquisição de equipamento informático. Aparentemente, pode parecer até, do que fica exposto, que existe interesse em contrariar as expectativas que se criam à volta da Informática. E, de certo modo assim será, se aquilo que se espera do relacionamento entre Pedagogia e Informática peca por desconhecimento, irrealismo, excesso ou defeito.
 

Entre os obstáculos mais graves para a penetração das Tecnologias da Informação no meio escolar, conta-se o problema da conciliação de horários entre professores/alunos; alunos/alunos e professores/professores. É desta tripla articulação de horários que depende o sucesso da informática nas escolas. O problema maior resulta da intensa carga horária que tantas vezes actua como força dissuasora da necessária disponibilidade, tanto de professores como de alunos.
  • 1.3. Dificuldades logísticas
  • Outro dos grandes embaraços reside nas dificuldades logísticas que caracterizam o funcionamento de um núcleo de informática; seja ao nível do hardware existente, muitas vezes precário e insuficiente, mas também ao nível do software, por vezes mais desinteressante e confuso do que atractivo e profícuo. A introdução das novas tecnologias pode deparar-se com um outro empecilho. Por dificuldades que todos conhecemos, as escolas não possuem habitualmente espaços ou condições minimamente satisfatórias para o funcionamento agradável de um núcleo de informática. Como é sabido, um ambiente desconfortável conduz a uma aprendizagem desconfortável. Daqui que, apesar de tudo, este tópico deva constituir prioridade essencial na organização dos espaços destinados à aprendizagem assistida por computador.
  • 1.4. Responsáveis pelo núcleo de informática
  • Uma grave inconveniência que se tem detectado prende-se com os próprios responsáveis pelos núcleos de informática. Formação deficiente, reduzida capacidade de exposição esclarecedora, falta de cordialidade no trato e um diminuto sentido de responsabilidade, são aspectos que têm afastado muitos professores do voluntarismo que a adopção de estratégias informatizadas sempre exige. Não ignoremos, ainda, que muitos dos portadores da inovação servem-se dela como forma de auto-promoção social e política dentro e fora das instituições. Tal situação decorre geralmente em locais onde não é numeroso o grupo de professores que se dedica à informática; gera-se assim a situação proverbial de "Em terra de cegos...". Quase podia chamar-se a esta situação, a Síndrome Feudal, em que o núcleo de Informática se transforma em reserva exclusiva de um dono e senhor absoluto a quem se tem obrigatoriamente que recorrer, dependendo o sucesso desse contacto do tipo de relacionamento que com ele se mantém. É, infelizmente, muito frequente, assistirmos a este tipo de situações.
  • 1.5. Regime de funcionamento do núcleo de Informática
  • Muito vulgarmente, encontramos o equipamento informático integrado nos espaços destinados às bibliotecas de escola ou em arrecadações mínimas, sem a menor adequação às funções a que se destinam. A inexistência de um espaço especificamente voltado para o ensino assistido por computador, dificulta a utilização descontraída desses equipamentos pelos professores interessados. E, por vezes, quando esse espaço existe, é a rigidez do horário de funcionamento que embaraça o recurso às novas tecnologias. Por outro lado, existe ainda uma tendência para o excesso de zelo quanto à forma como deve ser solicitado e autorizado o acesso aos meios informáticos. Também esta morosidade pode inibir a utilização dos computadores.

    2. Do que a Informática pode dar à docência

    Vivemos actualmente um período em que muito dificilmente se consegue acompanhar o ritmo de ofertas de hardware e software educativos. Talvez por isso se assista nas escolas a uma predisposição para a experimentação, mais do que para a elaboração de projectos com continuidade. Ambas as perspectivas se completam, como é sabido, porém, vale a pena, cada vez mais, promover actuações continuadas de exploração dos novos materiais de ensino, do que uma constante preocupação em arranjar as últimas versões, sem que as anteriores tenham sido exploradas de forma conveniente. Para a construção desses projectos, é necessário que o professor saiba do que a Informática pode dar à docência. A este propósito, podemos começar por assegurar que se estabelecem elevados níveis de interacção Aluno/Professor, Aluno/Com-putador, Aluno/Aluno. As relações educativas refrescam-se e adquirem um carácter menos formalizado, pelo que de prático se exige no manuseamento com computadores. Este factor tem especial acuidade quando aplicado a domínios do Saber que são habitualmente tidos por teóricos. Por outro lado, o docente pode contar com uma imensa flexibilidade: as estratégias informatizadas garantem uma ampla variedade de respostas, permitem uma diversidade de funções, fomentando a elaboração de projectos interdisciplinares.

    A Informática amplifica também a funcionalidade da acção docente; permite a confecção de materiais educativos de elevada exigência gráfica, optimizando as estratégias pedagógicas, e reduz o risco de existência de espaços mortos, dada a celeridade de processamento que garante.

    Uma vertente fundamental das ligações entre Informática e Pedagogia prende-se com a nova imagem do estudo e da cultura que essa relação pode assegurar. Por um lado, e porque, como veremos, o ensino assistido por computador, demanda quase sempre um relacionamento de interajuda, estimula-se a dinâmica de grupos. Da mesma forma, e por vezes simultâneamente, a Informática promove igualmente a autonomia educativa. De facto, constitui um dado adquirido, reconhecer que a dinâmica de grupo exige bastante autonomia por parte dos elementos que o compõem. Certo é que o estudo passa a ser visto de forma diversa. À cultura essencialmente livresca não pode substituir-se a cultura informática, sob o risco de se arrogar que uma é melhor, ou sequer mais eficaz, do que outra. No entanto, a utilização de computadores com vista à satisfação dos anseios docentes no aperfeiçoamento pedagógico da sua acção, atribui ao acto de estudar uma contemporaneidade que muitas vezes, por estar ausente das aulas, degrada a imagem da cultura, como algo fastidioso, inútil e passadista.

    Uma das experiências mais emocionantes e ricas que se pode trazer para uma escola é o diálogo informático entre estabelecimentos de cultura. A faculdade de estabelecer relações informáticas com outras escolas, outras instituições, outros países e promover a permuta de dados e informações através de modems, gera constantemente um estado de graça e de encantamento entre alunos e professores, face às indiscutíveis virtualidades deste namoro entre a Informática e a Pedagogia. Porém, no domínio das comunicações, é imprescindível a elaboração de projectos concretos e seleccionar rigorosamente que tipo de materiais se deseja consultar, qual a forma menos dispendiosa de os obter e que tipo de acções se pretende desenvolver, uma vez consultados.

    3. Do que podemos nós fazer com a Informática

    Sintetizando, podemos dizer que a Informática permite ao professor uma rápida interrogação de vastas quantidades de dados; confecção de apresentações gráficas, os screenshows; compilação de colecções de dados de âmbito diverso por rede; uma constante reformulação de textos; manipulação de imagens gráficas; uma rápida análise estatística; a criação de páginas de texto e imagem com qualidade de publicação, etc.. Não procurar dispôr deste manancial de materiais ou, pelo menos, ignorar a sua existência e as suas potencialidades didácticas, começa a ser um luxo a que um professor não pode permitir-se.

    4. Planificação de uma aula informatizada: questões a formular

    Ultrapassadas as resistências e conhecidos os talentos e as limitações da abordagem informatizada em pedagogia, passa a ser necessário ter solução definida para uma série de problemas que se colocam, sem a qual dificilmente ter-se-á êxito na experiência. Em primeiro lugar, é necessário compreender-se que um computador constitui um auxiliar educativo e não um fim em si. A sua eficiência didáctica depende da sua integração em todo um conjunto diversificado de materiais e estratégias que deverão ser explorados de forma competente e sensata. E, para atingir este fim, é necessário saber as respostas às seguintes questões:

    1 – Posso utilizar os computadores na minha sala de aula ou terei de reservar e de me dirigir ao local onde se encontram?
    2 – Os meus alunos sabem usar um computador? Se sim, quantos, Se não, quanto tempo preciso para os ensinar?
    3 – Quantos computadores estão disponíveis? São suficientes para o grupo de alunos que os vai utilizar? Se não, quantos alunos podem usar o computador em simultâneo?
    4 – Como posso controlar o uso dos computadores na turma? Devo fazer este controle acompanhado? Quem devo escolher para me acompanhar? Alunos ou professores?
    5 – Software. Os computadores possuem o programa que desejo utilizar? Se não, pode ser duplicado sem infringir direitos de autor?
    6 – Quando devo introduzir o programa na aula? Como apresentação de um conteúdo? Após a apresentação de um conteúdo? Em que aula da semana?
    7 – Quanto tempo precisam os alunos para praticar a linguagem e procedimentos do programa?
    8 – Que podem os alunos fazer com o programa?
    9 – Que tipo de continuidade posso assegurar aos alunos após a utilização do programa, para extensão e/ou consolidação de conhecimentos?
    10 – No final da aula, que fazer com o hardware e com o software?
    Evidentemente, muitas mais questões se podem colocar, porém, este grupo de dez parece não poder passar sem resposta concreta.

    5. Planificação: avaliação do software

    Um dos momentos primaciais que precedem a utilização de materiais informáticos é o da selecção e avaliação dos programas. Também aqui, para uma perfeita adequação do software aos interesses específicos do docente, é necessário dar resposta cabal a uma série de questões:

    6. Planificação: preparação dos alunos

    Determinado à utilização de estratégias informatizadas, o professor não pode deixar de preparar os alunos para a utilização dos programas, informando-os com alguma antecedência das diferentes implicações que esta abordagem trará consigo, entre as quais a necessidade de cuidados redobrados, ao nível da exigência de comportamentos, em situação de contacto com equipamentos dispendiosos. Para esta preparação, entre outras preocupações, importa ensinar aos alunos como instalar e fazer "correr" o programa; promover uma utilização cuidadosa do computador, periféricos e suportes de informação (disquetes, cd’s, etc.); explicitar aos alunos quais as aptidões que o programa procura desenvolver; encorajar os alunos a utilizar programas relacionados com as actividades desenvolvidas pela turma; não forçar os alunos à utilização do computador, (alguns alunos sentem-se melhor apenas observando os outros); fomentar uma utilização rotativa do computador dentro do grupo e evitar a sua monopolização por parte de alunos mais conhecedores; explicar a terminologia básica específica da informática, antes de pedir aos alunos que utilizem os equipamentos.

    7. Gestão do espaço

    Como vimos acima, as preocupações quanto ao espaço destinado ao ensino assistido por computador, não poderão deixar de ser ponderadas. Não há dimensões específicas para uma sala de informática, mas é necessário que esse local esteja adequadamente climatizado e iluminado, e possua ou permita a existência de um pequeno auditório. Um dos problemas mais debatidos é o de determinar o número ideal de alunos por computador. Como é óbvio, tudo depende do tipo de programa que se utiliza. Todavia, pelo menos aquando dos primeiros contactos com o programa, o número mais correcto de alunos por computador é de três, um no teclado e um de cada lado. Desta distribuição resultam várias vantagens. O aluno não se sentirá sózinho, sobretudo enquanto não está familiarizado com o teclado ou o programa; encoraja-se o aluno a participar em grupo e não individualmente; promove uma comunicação co-operativa; todos os alunos têm uma visão confortável do ecrã; é fácil modificar a disposição dos lugares de forma a que todos tenham a possibilidade de utilizar directamente o computador. Na impossibilidade de distribuir três alunos por computador, é aconselhável que o número de alunos seja sempre ímpar.

    8. Cuidados a ter na adopção de métodos informáticos

    Mas existem muitas contraindicações na utilização da Informática no meio escolar. Em primeiro lugar, o nosso conhecimento sobre a forma como os nossos alunos aprendem é muito deficiente. Sem dúvida, o estímulo visual é o que mais sensibiliza as camadas mais jovens. Mas há que dispôr dele com grande prudência. Trata-se de um estímulo por vezes excessivamente fácil e que poderá denegrir a própria cultura. É valioso que o educador proceda à adopção das novas estratégias informatizadas em pedagogia. Mas não deve, todavia, perder de vista o objectivo consciente de contornar excessos: ter presente que o que mais importa são os conteúdos e as ideias. O facto de um aluno estar maravilhado por uma estratégia pedagógica informatizada, não significa que ele está a aprender. Pode significar até que, mais do que a informação de que dispõe, ele idolatra o computador. É, por tanto, função essencial do educador impedir que o jovem se fascine mais pelo formato da informação do que pela informação. A informática deve sujeitar-se ao crivo da ética e da moderação. De igual forma, deve acabar-se com a esquizofrénica distinção que separa os educadores que fazem recurso das novas tecnologias e os que dela não fazem uso. Se se recorre a estratégias pedagógicas consideradas fora de moda mas que resultam em sucesso, é subidamente aconselhável que não se mude. A economia de processo é a grande vantagem trazida com a informática, contudo, nunca substituirá, naturalmente, a eminência do criador nem a do educador.

    Epílogo

    A pedagogia tem muito a ensinar à informática. Por exemplo, é forçoso fugir aos erros que vulgarmente se cometem em relação à tecnologia: de que é sempre benéfica; de que vive e existe por si só; de que não tem nada a ver com ética ou moralidade. Como diria Antero de Quental na sua resposta a Feliciano de Castilho: "As grandes, as belas, as boas coisas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter. (...) A estes tais chamo eu poetas. (...) Os outros adoram a palavra, que ilude o vulgo, e desprezam a ideia que custa muito e nada luz"2.