Tecnologia, educação e ciudadania na sociedade actual


Tomás Patrocinio
Universidade Nova de Lisboa
Unidade de Investigação Educação e Desenvolvimento
Faculdade de Ciências e Tecnologia
Portugal
jtomas@mail.telepac.pt

Resumo

Nas sociedades actuais surge com pertinência e relevância a investigação em torno das práticas de utilização das TIC na escola e em ambiente educativo/formativo como um contributo para a construção de uma cidadania activa que não pode estar ausente de qualquer projecto de vida actual. A Educação tem cada vez mais que valorizar a centralidade da pessoa, o que se prefigura como paradigma de desenvolvimento humano, económico e social acarretando novos aspectos cognitivos, axiológicos e relacionais, configurando-se como base de idealização de uma nova escola e de novos espaços formativos na sociedade.
 

1. Génese da sociedade actual

Na justificação de Kung (1996) a sociedade pós-industrial tem as suas raízes na revolução técnico-científica do século XVII, à qual se seguiu a revolução sociopolítica do século XVIII (as Revoluções Francesa e Americana) e a Revolução Industrial no século XIX. Este autor considera que "logo após a primeira revolução industrial, que permitiu substituir o esforço físico dos seres humanos por máquinas e sistemas mecanizados (vapor, electricidade, processos químicos) ocorreu a segunda revolução industrial, depois da Segunda Grande Guerra, que veio quer substituir quer reforçar o esforço intelectual do homem através de máquinas (com o auxílio de computadores e telecomunicações).
Por intermédio de tais progressos tecnológicos inovadores (electrónica, miniaturização, digitalização e software), que penetram não só em domínios especializados de actividade, mas também influenciam a totalidade da vida social, parecem concretizar-se as grandes utopias da humanidade outrora aparentemente pertencentes à esfera da pura fantasia." (p. 42-43)

Poderemos, assim, descrever alguns dos aspectos mais significativos para a compreensão da génese recente da nossa sociedade:

Todas as transformações sociais rápidas que se têm dado nas últimas décadas levam Rosa (1998) a qualificar este século de vertiginoso, no que é secundado por Santos (1998, p. 5) quando este reflecte: "() os progressos científicos dos últimos trinta anos são de tal ordem dramáticos que os séculos que nos precederam () não são mais que uma pré-história longínqua."

Neste contexto Rosa (1998) afirma, sobre o homem actual, numa perspectiva pós-darwiniana: "Somos, os actuais humanos, na mais rigorosa acepção da palavra, mutantes. As mutações e alterações que vivemos e sofremos na nossa auto-compreensão e no nosso relacionamento com o outro e com o mundo são mais radicais do que todas as mutações e adaptações fisiológicas que a nossa espécie sofreu ao longo de toda a sua presença no universo."
 

2. A relevância das novas tecnologias na contemporaneidade

A designação mais "popular" para a sociedade actual, utilizada frequentemente pelos media, parece ser a de sociedade da informação e a de "aldeia global", justamente por a globalização ter ocorrido/estar a ocorrer suportada pelo extraordinário desenvolvimento das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) o que veio opor a "revolução digital" à "revolução industrial", provocando uma transformação paradigmática nas formas de produção, de consumo e de circulação de bens e pessoas.
As TIC encontrando-se na base do desenvolvimento das sociedades contemporâneas evoluem também por exigência da própria evolução social rápida e geradora de muitas preocupações e simultaneamente de muitos desafios, colocando como prioritárias as questões que têm que ver, em cada pessoa, com novos aspectos cognitivos, axiológicos e relacionais.

Na complexa transição que vivemos as tecnologias estão associadas aos aspectos económicos, sociais, políticos e culturais mais e menos negativos, mas são os seus aspectos mais positivos que mais atraem as pessoas e as instituições. A tecnologia é de facto algo substancialmente diferente e muito mais potente do que a "mecanologia" aumentando a produtividade, melhorando as condições de trabalho podendo contribuir em muito para a melhoria da qualidade de vida.

Vê-se, tal como na perspectiva de Ladriére (1977) que as novas tecnologias podem actuar como factores facilitadores e potenciadores nos mais diversos domínios, desestruturando modos de fazer que se tornam obsoletos e induzindo mudanças significativas, gerando consequentemente imensos desafios nos domínios da aquisição e produção da informação, do saber e do conhecimento o que conduz naturalmente também a uma reflexão sobre a produção de novas competências para a vivência de uma sociedade de elevada incorporação tecnológica.

Parece, de resto, não haver dúvidas que todas as áreas do conhecimento e de actividade podem beneficiar da utilização adequada do computador e das tecnologias e/ou periféricos a ele associados. Basta que se pense no que se faz e no que se pode fazer com processadores de texto, folhas de cálculo electrónicas, sistemas de gestão de bases de dados, programas de edição electrónica, programas de música, programas de desenho assistido por computador, programas de cálculo matemático e estatístico, programas de modelação, programas para colheita directa de dados que apoiam um conjunto numeroso de actividades de instrumentação baseada no computador, para já não falar nos jogos educativos e de estratégia, nos programas de lazer ou ainda nas mais variadas ajudas técnicas para deficientes e mais recentemente na Internet e nas possibilidades de consulta que proporciona ou nos serviços de correio electrónico (e-mail), de mailing lists, de conversa on line (irc - Internet Relay Chat), de grupos de discussão (newsgroups) e de videoconferência que disponibiliza e no apelo à criação de páginas pessoais e científicas de instituições (homepages) que constitui desenvolvendo a comunicação e o debate em comunidades virtuais.

O desenvolvimento das TIC proporcionaram uma grande expansão das indústrias e actividades ligadas à electrónica, à microelectrónica, às telecomunicações. Fizeram surgir novos sectores como a robótica e a burótica e sustentam investigação em áreas novíssimas do saber como a inteligência artificial e a realidade virtual. Com a Internet começam a emergir a economia e o comércio digitais podendo projectar para o mercado global não só grandes, mas também pequenas e médias empresas e pessoas individuais.

Os computadores criaram novas profissões e em muitas tornaram-se um instrumento de trabalho poderoso e dominante.
"Na verdade é difícil conceber hoje em dia o trabalho de um jornalista, de um bancário, de um economista, de um arquitecto, de um trabalhador gráfico ou de um cientista sem usar este instrumento. O computador quebrou as barreiras entre as tarefas de concepção e de execução, anteriormente entregues a profissionais completamente diferentes. Ao mesmo tempo que aumenta a ligação entre o trabalho intelectual e manual, reduz substancialmente o trabalho manual mais duro, mais monótono e mais perigoso" (Ponte, 1997, p. 27).

A presença do computador na sociedade actual é muito vasta, cada vez mais visível. As TIC têm sido as principais responsáveis pela globalização e tendem a colocar-nos a funcionar em rede na escola, nas empresas, em casa. Tal como afirma Ponte (1997, p. 15) "O processo de trabalho com o computador passou a ser interactivo, havendo um diálogo directo entre o utilizador e a máquina."

O cientista de computadores Negroponte (1996) considera que o mundo se está a tornar num mundo digital tendo escrito, porventura, um dos mais notáveis livros sobre a importância e o papel das novas tecnologias: Ser Digital (Being Digital). Este autor considera, no que respeita a esta evolução tecnológica de que se fala, que se chegou a um ponto em que as grandes mudanças nos computadores e nas telecomunicações emanam hoje das aplicações, das necessidades humanas básicas e não tanto das ciências materiais básicas (p. 86).

Ponte (1997, p. 22-24) enumera múltiplas situações nas quais os computadores e as tecnologias estão presentes na vida de todos os dias, nas diferentes esferas da actividade social. Refere-se à gestão bancária, às transacções interbancárias, aos postos de fronteira, aos arquivos de identificação, ao processamento de impostos, à organização e ao controle e apuramento de resultados dos actos eleitorais, às contas da electricidade, água e telefone, aos leitores ópticos dos supermercados e dos correios, à informatização das empresas e da administração em geral, às tarefas de dactilografia e produção e resumo de texto ultra facilitadas com o processamento de texto, ao controlo do trânsito nas cidades, ao controlo do tráfego aéreo e ferroviário, aos sistemas de reservas de bilhetes, aos robôs, aos hospitais e à medicina em dignósticos médicos, ao funcionamento dos automóveis, dos electrodomésticos, das máquinas fotográficas, dos telefones, aos simuladores interactivos na formação, aos relógios, às calculadoras, etc.

No âmbito do lazer as TIC também assumem relevância e a expressão edutainment surgiu precisamente da associação, das tentativas de junção e de articulação, das perspectivas educativas com as do entretenimento.

A Internet, sobretudo, como é defendido por Magalhães (1996, p. 253) "prenuncia sociedades em que seremos cada vez mais teletrabalhadores, teleestudantes, teleconsumidores, telecompradores, teledoentes, teleapaixonados."

Este observador alerta, contudo, para outras questões muito importantes: "Adivinha-se também que não deixaremos de ser também cada vez mais televigiados e teleinfluenciados. No entanto, a nossa carta constitucional da telecidadania está ainda por escrever e a teledemocracia europeia tarda a nascer."

As tecnologias têm também acarretado muitos problemas sociais ao romperem com antigas fórmulas de organização económica e social gerando também desemprego e marginalizando sobretudo as pessoas e os sectores da sociedade que permanecem ainda numa era pré-digital, naturalmente mais resistentes à inovação, à reconversão e à mudança.

Não obstante a enorme integração, para o bem e para o mal, que se pode constatar, parece, por vezes, ainda continuar a haver uma tendência para se considerar as TIC como algo que apesar de abundar no presente só virá a ter impacto no futuro quando na realidade tem vindo e está a modificar profundamente o quotidiano.
 

3. Desafios para a educação/formação

É toda esta nova situação económica e social e as problemáticas dela emergentes que nos transportam para as questões das sociedades da informação e das sociedade do conhecimento e para a reflexão sobre como essas questões "atravessam" a educação.
De facto, numa época em que se configuram como fundamentais a aprendizagem em contexto e a autoformação como vias importantes da emancipação humana, a integração escolar das TIC está em curso um pouco por todos os países, sobretudo nos países do Primeiro Mundo, desde há vários anos e a sua utilização pedagógica é vista por muitos observadores e investigadores como um pilar para apoiar aquelas opções e para a actualização e modernização da educação nas vertentes tecnológica, científica, cultural e social, partindo-se do princípio de que essa utilização não é apenas um acessório, um instrumento, uma ferramenta, mas é efectivamente geradora de transformações no trabalho escolar e no aluno como cidadão. Surge, pois, com pertinência e relevância a investigação em torno das práticas de utilização das TIC na escola e em ambiente educativo/formativo como um contributo para a construção de uma cidadania activa.

É justamente porque a constante e rápida inovação tecnológica (desde a explosão da microinformática nos anos 80 que trouxe a popularização do computador pessoal e agora dos laptops) é um dos mais significativos e importantes aspectos da vida em sociedade (com consequentes reptos para a educação) que a investigação na área das TIC, tem merecido atenção considerável por parte das Ciências da Educação numa perspectiva de Educação e Desenvolvimento e deverá continuar a tê-la cada vez mais.

Não nos situamos numa abordagem tecnofílica por oposição às posições neo-ludditeanas na tese de Graham (1999), nem numa abordagem ciberutópica por oposição às posições cibercríticas como sistematiza Papert (1997). Privilegiamos uma posição contra os opostos "tudo defender"/"tudo rejeitar" em relação às novas tecnologias, racionalizando uma perspectiva tecnofílica ponderada considerando que as tecnologias acarretam consigo coisas boas e coisas más, mas com optimismo, julgando ser necessário valorizar-se os seus aspectos construtivos e prevenir os seus aspectos mais negativos. Admitimos, contudo, tal como Oliveira (1998, p. 121) que as posições neo-ludditeanas em relação às TIC na Educação, ao alertarem para certos perigos das tecnologias na aprendizagem, contribuem para fazer avançar a investigação sobre essa matéria.

Pensamos ser esta a abordagem mais adequada contra as visões ainda muito instaladas na escola, que digerem lentamente a era dos bits, que resistem à incontornável era digital, devendo encorajar esses sectores ao reconhecimento da inevitabilidade e importância de tudo o que respeita às TIC na educação. Tal reacção acontece um pouco por toda a parte. Negroponte (1996, p. 232) refere que num estudo efectuado nos EUA pelo Departamento de Educação "84% dos professores americanos consideram que só há um tipo de tecnologia da informação que é absolutamente "essencial": uma fotocopiadora e um fornecimento adequado de papel."

Relativamente à postura dos professores perante as novas tecnologias, Ponte (1998, p. 10) sistematiza de forma bem realista: "Alguns olham-nas com desconfiança, procurando adiar o mais possível o momento do encontro indesejado. Outros, assumem-se como utilizadores na sua vida diária, mas não sabem muito bem como as usar na sua prática profissional. Outros ainda, procuram integrá-las no seu processo de ensino usual, sem contudo alterar de modo significativo as suas práticas. Uma minoria entusiasta procura desbravar caminho, explorando constantemente novas possibilidades, mas defronta-se com muitas perplexidades."

Cremos que as resistências devem-se muito ao desconhecimento e falta de reflexão sobre as possibilidades de trabalho, consulta e comunicação com o computador e a "medos" de utilização por parte dos docentes gerando-se um círculo vicioso que só pode ser ultrapassado pelo entendimento, como diz Papert (1997, p. 54), de que "o modo de alguém adquirir fluência em tecnologia é semelhante ao modo de adquirir fluência numa língua. A fluência vem com a utilização."

Parece-nos ainda que os docentes poderão beneficiar muito de aprendizagens directas com os seus alunos, o que faz apelo a novas práticas docentes na transição pós-moderna que vivemos. Na nossa perspectiva tal visão é muito importante, pois rompe com uma velha categoria: a da transmissão-aquisição de conhecimentos. Seria mais correcto não falarmos de transmitir, mas sim de construir conhecimento com os alunos.

Magalhães (1998, p. 17), crítico em relação à questão da transformação da relação transmissão-aquisição de conhecimentos levantada pela possibilidade de o professor ser substituído por outros processos, nomeadamente pelo computador, considera que a questão não está na presença da computadorização do saber na relação pedagógica, mas na perspectivação das possibilidades emancipatórias dessa mesma presença na própria relação pedagógica e no processo mesmo de produção do saber." Esta visão confronta-se claramente com a da "morte do professor". É ainda Magalhães (p. 110) que situa oportunamente o problema: "mais do que questionar a computadorização do ensino/aprendizagem, o fundamental é assumir e perspectivar as possibilidades - no sentido de saber se estas proporcionam ou não processos de teor emancipatório - dessa já incontornável presença dos computadores na produção, transmissão e aquisição do saber, ao nível da relação pedagógica e do processo de circulação do saber. Quer dizer, não é o facto de os computadores estarem presentes na relação de transmissão/aquisição de saber que o teor emancipatório da relação pedagógica é neutralizado, mas, antes, porque a relação pedagógica não é reflexivamente inserida e compreendida num contexto em que as estruturas sociais - os paradigmas sociais, digamos - e o paradigma no qual o saber se produz e se transmite se dialectizam."

Muitas coisas mudam quando nos colocamos como observadores do lado das crianças e dos jovens pois estes consideram as novas tecnologias como coisas muito mais naturais revelando quase sempre grande capacidade de adaptação à sua utilização, desenvolvendo estratégias exploratórias de aprendizagem e de acção de grande eficácia de forma autónoma, em parceria ou em rede, numa perspectiva de autoformação, caminhando em direcção a si próprios (Utilizamos aqui esta expressão inspirados no livro de Josso (1991) intitulado Cheminer vers soi.), produzindo inúmeras competências em acto à medida que realizam as suas explorações ou desenvolvem os seus projectos.

Numa visão socioeducativa "não tecnicista", com interesses mais ligados ao desenvolvimento social interessa compreender de forma mais profunda o papel das TIC como meios poderosos e cada vez menos inestimáveis, vendo os computadores como meios de trabalho, de consulta e de comunicação que podem potenciar a pessoa constituindo um seu prolongamento de memória e de acção, tornando-se, assim, também, instrumentos de apoio à autonomia e à realização pessoal que não podem estar ausentes de qualquer projecto de vida actual, contribuindo para que cada um desenvolva sentidos de pertença e de participação social ao vivenciar a contemporaneidade. Interessa, em particular, aprofundar a compreensão de como é que os alunos, num contexto de utilização educacional das TIC, confirmam ou infirmam as actuais tendências sociais de emergência da pessoa, de emergência do sujeito, o que é gerador de uma nova cidadania.

A utilização dos computadores e das tecnologias a ele associadas é um aspecto que pode contribuir de forma relevante para o exercício de uma nova cidadania, de uma cidadania participativa, entendida mais numa acepção ontológica, na qual a capacidade e liberdade de escolha consciente e de intervenção se baseiam de facto em conhecimento.

Admitmos que a utilização das TIC na escola, ao incluirem-nos na contemporaneidade, confronta os estudantes com responsabilidade na aprendizagem podendo favorecer o exercício de uma cidadania baseada no conhecimento científico e social, de uma cidadania de indignação, de uma cidadania contra a pobreza, de uma cidadania promotora de um desenvolvimento sustentável, proporcionando o desenvolvimento da autonomia e acções consequentes. Tal tem vindo a ser evidenciado, por exemplo, durante vários processos de luta a favor da defesa do ambiente ou dos direitos humanos que têm sido valorizados obtendo algum impacto global, sendo disso exemplos os processos da Bósnia Herzegovina e do Kosovo e mais recentemente toda a onda de solidariedade manifestada ao povo de Timor Loro Sa´e nomeadamente através de mensagens de protesto expedidas para entidades da comunidade internacional através da Internet.

A Internet parece não ser um modismo e começa a influir de modo muito significativo na construção de formas de vida e de organização económico-social cada vez mais digitais. Partilhamos com Negroponte (1996, p. 192) a hipótese interessantíssima que coloca em relação às TIC, quer na sociedade em geral quer na educação: "O agente da mudança será a Internet, e isto tanto em sentido literal como enquanto modelo e metáfora. A Internet é interessante não só como como uma rede global enorme e ubíqua mas também como o exemplo de qualquer coisa que tem evoluído sem que, aparentemente, nenhum projectista se tenha encarregado disso e que mantém a sua forma de modo parecido com o de um bando de patos. Ninguém é o patrão, mas todas as peças vão encaixando, até hoje de uma forma admirável."
 

4. A cidadania como base de um novo paradigma educativo

Na Educação, em particular no sistema escolar, os sinais de crise são múltiplos.
A avaliação externa que se faz da escola (veiculada pelos órgãos de comunicação social e pela opinião pública em geral) é muito negativa. Miranda (1998, p. 6-9), fazendo uma análise de revistas de imprensa, conclui que a escola recebe frequentemente as seguintes qualificações: impotente (por ter reduzido valor social), inútil (por ter um reduzido valor profissional e económico), despromovida (por ser pouco atractiva), desajustada (por estar ultrapassada), retrógada (por estar virada para o passado), dividida (por permanecer "taylorizada"), dependente (por não ter autonomia), desqualificada (por ser ineficaz).

Esta avaliação externa baseia-se principalmente nos fracos resultados obtidos pelos alunos divulgados pelas instituições responsáveis pelas estatísticas da Educação, prendendo-se a modelos de análise tayloristas (o que importa são os produtos).
Raramente a avaliação externa se centra na análise da qualidade dos processos, mas mesmo que se centrasse acreditamos que também aí os sinais de crise seriam relevantes e consequentemente a avaliação negativa, pois a maior parte das vezes a escolas agem com base em categorias de análise desajustadas da realidade social.

Mas, então, que papel deve ter a Educação perante a sociedade, a escola e o sistema educativo em crise? Certamente está-lhe reservado um papel crucial, um papel central, um papel-chave, um mandato ainda mais exigente, já que ela é transversal a todos os outros sectores sociais e com eles mantém fortes inter-relações sendo influenciada por eles, mas podendo igualmente influenciá-los.

Julgamos que para tanto, uma das ideias principais a trabalhar é a de inovação e de mudança. Insistimos portanto na necessidade de uma valorização da centralidade da pessoa, devendo a Educação ser vista como meio indispensável de cidadania efectiva, como meio de coesão social, desenvolvimento humano, responsabilidade na qualidade de vida, dignificação humana e cuidado com o futuro, por oposição ao individualismo, à competição não saudável e ao aprofundamento de assimetrias.
É fundamental que se assegure o espírito crítico em cada cidadão, que permita o combate a um dos riscos da globalização que é o da manipulação e de ideologização da opinião pública através dos meios de comunicação, favorecida pela fragilização das instâncias intermédias.

A Educação como processo de construção da pessoa está no centro da construção das comunidades de base, as quais estão inseridas na sociedade mundial. Pode, assim, ter importância a valorização duma cidadania mais responsável baseada na tolerância, na aceitação das diferenças culturais, na inclusão social.

Na transição pós-moderna, surge como muito relevante o combate a todo o tipo de exclusão na escola e na sociedade.
Identifica-se como alicerce da acção educativa uma lógica de inclusão que dê atenção às dificuldades de aprendizagem e às necessidades educativas especiais devendo também organizar-se actividades que não ignorem a presença de grupos étnicos minoritários como é o caso dos grupos de imigrantes ou dos ciganos, criando formas de integração e valorizando simultaneamente as suas expressões culturais, procurando minorar o abandono escolar precoce e as dificuldades de construção da identidade e dos sentidos de pertença.

Por isso, há que ter a capacidade de educar/formar no sentido de compreender o mundo na perspectiva de que viemos de uma comunidade para a sociedade mundial e das consequências dessa mudança rápida, combatendo a submissão a nacionalismos revolucinários ou fundamentalismos religiosos de consequências lamentáveis. Mais importante do que anteciparmos o futuro são as visões que dele construímos ou projectamos, nas quais sejamos capazes de reconhecer e de potenciar a novidade emergente.
 

5. Combater a info-exclusão

Esta reflexão tem, cremos, toda a oportunidade e relevância numa estratégia actual de desenvolvimento da educação e da formação em geral articulada com uma organização escolar e de outras instituições educativas que faculte e incentive um real acesso dos discentes à utilização efectiva dos múltiplos meios de informação, tornando-os populares, vulgares e não privilégio de alguns.

Tal prática de utilização quotidiana das TIC deverá ocorrer prioritariamente em bibliotecas ou centros de recursos educativos integrados bem apetrechados e bem articulados com meios informáticos e acesso à Internet, potenciando todos os recursos disponíveis, onde se assegure a vivência pessoal, em grupo e em rede com computadores de secretária e portáteis, com programas utilitários e educativos e também com a diversidade de periféricos dos computadores.

Esta vertente do desenvolvimento da cidadania, a do combate à info-exclusão, não obstante alguns esforços que se têm vindo a fazer com o desenvolvimento de alguns projectos significativos, ainda só se iniciou, estando abertas várias frentes de estudo e de investigação identificáveis em inúmeros textos resultantes de projectos desenvolvidos e de trabalhos empíricos sobre a introdução e utilização pedagógicas das TIC na educação. Ponte (1997, p. 29) sustenta: "Podemos antever que as tecnologias da informação, com base nos computadores, serão o principal eixo de desenvolvimento das sociedades de amanhã. A liderança no caminho do futuro pertence às sociedades que estão preparadas para assumir, no seu seio, a mudança permanente e que encorajam a diversidade e a criatividade e não o conformismo social."

Este autor cita Kay que apresenta uma tese curiosa ao qualificar o computador como um metamedium: "Como diz Alan Kay, um dos investigadores que esteve directamente ligado ao desenvolvimento dos sistemas interactivos baseados nas "janelas" e no "rato", o computador é o primeiro metamedium e, por isso, tem graus de liberdade para representação e expressão nunca antes reunidos num único instrumento. Kay faz notar que os programas integrados para processamento de texto, elaboração de desenhos, folha de cálculo, simulações, obtenção de informação e comunicação à distância serão o papel e o lápis do futuro próximo - e sugere que as crianças devem começar a usá-los tão cedo quanto possível" (1997, p. 46).

Para que cada pessoa possa desenvolver uma cidadania tendente a uma sociedade do conhecimento afigura-se-nos fundamental que a educação/formação também tendam a perfilhar objectivos com isso convergentes e que os curricula dos vários ciclos de ensino sejam contruídos em conformidade com tais desígnios, entendo os curricula em sentido lato como tudo o que se passa sob a responsabilidade da escola. A educação, a formação e a cultura assumem, portanto, um papel essencial numa perspectiva de combate à exclusão social e na redução da pobreza fundando-se como componentes importantes do desenvolvimento ao contribuirem para a produção de competências nos cidadãos, ao contribuirem para torná-los mais reflexivos, mais criativos, mais competitivos e mais habilitados para a mudança no actual contexto da globalidade localizada e para o progresso, para a intervenção e para a transformação sociais, logo mais responsáveis. É nesta mesma perspectiva que Freire (1997) escreve: "É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade" (p. 20), acrescentando num outro local: "A autonomia vai-se construindo na experiência de várias, inúmeras decisões que vão sendo tomadas" (p. 120).

Por tudo isto nos parece fundamental que se proceda por todos os meios disponíveis à vulgarização do uso das TIC na escola, fomentando formas de acesso livres que possibilitem aos alunos vivências ricas e diversificadas para a consulta e sobretudo produção de informação, desenvolvendo um espírito interventivo.

A prática da utilização dos computadores e da Internet, tal como propõe Magalhães (1996, p. 255), "deve ajudar a criar a moderna praça pública electrónica, promovendo a igualdade de acesso à informação e a criação de comunidades electrónicas onde possam fermentar experiências de reinvenção das formas de produção, consumo, cultura, interacção social e cidadania."
 

6. Construir uma sociedade educativa

O Homem constrói-se à medida que se constrói a sociedade, animado tal como ela de dinâmicas vivas. De acordo com as perspectivas epistemológicas de Ladrière (1977), hoje, a ciência e a tecnologia estão a gerar novas linhas determinantes de uma outra nova civilização, a civilização "tecno-lógica". Na verdade, é bem perceptível como as tecnologias por um lado desestruturam e por outro induzem mudanças em todos os domínios e como desenvolvem mecanismos de impacte sobre a ética e sobre a estética.

Lages (1997) aponta alguns perigos em relação ao homem pós-moderno, uma vez que está em desencontro consigo mesmo porque a coerência da cultura em que que se deveria estruturar individual e colectivamente está em vias de desaparecer, para dar lugar a formas plurais e fragmentárias de orientação e de discurso. Este autor diz, então, numa postura demasiado pessimista, mas que tem a vantagem de suscitar reflexão, que: "Se já foi possível falar de fim da história e de fim do social, temo, que, caso não sejam procurados com denodo os princípios de uma integração cultural em função de valores mais altos, tenhamos de proclamar em breve o fim da cultura, não só erudita mas também tradicional."

Mobilizar todos os actores sociais, para um projecto pessoal e social de mudança assume carácter de urgência, num apelo ao envolvimento pessoal e colectivo que possa legitimar uma contribuição para a construção de uma sociedade que possa ter autocontrole, auto-regulação, uma Sociedade Educativa, uma Sociedade do Conhecimento (Learning Society).

Têm necessariamente que se encontar causas mobilizadoras. Esta é uma utopia essencial a perseguir. É o saudável realismo utópico de Anthony Giddens (citado por Ambrósio, 1998) por oposição a um realismo pessimista e depressivo que apenas efectua constatações inconsequentes relativas à degradação económica, social e cultural.

A perseguição dessa utopia exige uma esperança redobrada na Educação e Desenvolvimento contra uma postura de indiferença, do agir sem pensar a sociedade e, consequentemente, do agir sem pensar o ensino, a aprendizagem (e novas formas de aprendizagem) e a formação e a necessidade imperiosa de mudança organizacional da escola, quer em termos curriculares (adaptação, flexibilização, sem se perder a essência do currículo formal que deve continuar a ser uma referência dado que é necessário à construção de competências), quer em termos da criação de condições físicas e materiais para a pesquisa, organização e produção de informação, saber e conhecimento (apetrechamento através de bibliotecas/centros de recursos que compitam e sejam parceiros da denominada e muito falada "escola paralela" para a construção de uma "escola perpendicular").

Canário (1997) considera: "Está em causa a necessidade de favorecer a evolução da escola de um sistema de repetição de informações para um sistema de produção de saberes, capaz de integrar as diferenças, valorizando e incentivando o acréscimo da diversidade interna, entendida como uma riqueza e não como um obstáculo à acção didáctica. A escola passaria a ser encarada, nesta perspectiva, como um meio de vida onde se multiplicam as oportunidades de aprendizagem, baseadas não em "métodos activos", mas sim em relações de permanente interactividade."

Ao situarmo-nos no domínio da aprendizagem da utilização dos computadores e das tecnologias a ele associadas parece-nos oportuno citar Ponte quando se refere ao pensamento do psicólogo Papert a propósito desta reflexão sobre a aprendizagem das crianças, dos jovens e dos adultos: "Seymour Papert, uma das figuras mais proeminentes do mundo das novas tecnologias educativas, defende a ideia de que o que é bom para os profissionais é bom para as crianças. Assim, sugere que em vez dos clássicos programas que funcionam como "máquinas de ensinar" devíamos dar às crianças tanto quanto possível programas do tipo profissional. De facto, os programas feitos propositadamente para as crianças encaram-nas com frequência, não como seres pensantes, mas de uma forma "infantilizada".
Tais programas muitas vezes não provocam nelas senão uma saudável repulsa. Em compensação, elas são capazes de se interessar profundamente e de assumir um notável sentido de responsabilidade ao manejarem o computador como um instrumento de trabalho, como o fazem os adultos e, em especial, os verdadeiros profissionais" (Ponte, 1997, p. 26).

É ainda Ponte que acredita que a introdução de computadores na escola poderá desenvolver uma maior relação com a comunidade podendo fazer interagir mais metodologias de aprendizagem de crianças e adultos: "As aulas poderão passar a ser verdadeiros centros de criação e de investigação. As escolas poderão tornar-se muito mais abertas à comunidade, intervindo não apenas na educação "inicial" dos jovens mas também na educação "permanente" dos adultos" (1997, p. 56).
Perseguindo o desenvolvimento de uma sociedade do conhecimento, a educação e a formação para a utilização educacional das TIC é, provavelmente, uma das mais importantes vertentes para o desenvolvimento social e para uma nova cidadania, pois assume-se que as TIC proporcionam uma relação de tipo novo com o saber. Favorecem simultaneamente uma relação professor/aluno muito mais interactiva, proporcionando inovação e mudança na prática pedagógica que decorre do facto de na sociedade actual não existirem barreiras físicas mas existirem algumas barreiras de comunicação, sendo necessário assegurar que face ao turbilhão de informação disponível, se produzam competências de actuação sobre a informação, construindo estratégias para saber seleccionar o essencial, o que tem adequação ao trabalho que se desenvolve, o que tem qualidade.

Os processos de utilização pedagógica das TIC no ensino/aprendizagem têm que primar pela articulação de interacção significativa com uma intervenção apropriada sobre a informação disponível, estimulando, desse modo, a capacidade de pensar, de aprender a pensar e de pensar sobre o modo como se aprende.
Julgamos poder concluir de um modo interessante secundando a abordagem filosófica que Morão (1999) faz sobre a técnica, diríamos tecnologia: "A técnica é, decerto, um destino, porque há consequências na história para lá do intento da nossa liberdade, e que são fruto de decisões há muito tomadas; mas é também responsabilidade, promessa de emancipação, e não apenas perigo apocalíptico. Pode abrir criativamente à realidade, pode dela desviar; participa da capacidade linguística de dizer ou de ocultar a verdade, de convidar ao empenhamento ético e pessoal ou de incentivar a manipulação. Se, nas implicações do seu fazer, nos sistemas dos objectos por ela produzidos, é uma espécie de linguagem corporificada e materializada, mergulha igualmente em pressupostos cognitivos e ontológicos, está, por conseguinte, vinculada a formas de vida ou suscita-as como espaço em que o nosso elemento espiritual se espraia, na sua pulsação incessante, atravessado pela solicitude frente ao mundo e à sua opacidade densa e pesada, preso à nossa finitude que não pode ignorar os próprios limites, despertado pelos nossos interesses sempre renovados que, incansavelmente, se prolongam e transformam no tempo."
 

Bibliografia