Análise das ferramentas de um ambiente de ensino à distância, em um curso de informática educacional para professores de crianças com necessidades especiais


Cristiano Cordeiro Cruz
Universidade Estadual de Campinas
Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação
Brasil
cristia@decom.fee.unicamp.br

1 Resumo

O presente trabalho é o resultado da análise de um curso 100% virtual, ministrado a professores de crianças com necessidades especiais, pelo NIED. A proposta do curso era a de se ensinar (e promover) o uso do Logo na Educação Especial. Neste artigo, serão analisadas as ferramentas utilizadas no ambiente virtual TelEduc, que foi onde o curso se desenrolou. Nesta análise, serão levados em consideração três pontos básicos: potencial de interação e de reflexão que estas ferramentas podem suscitar nos alunos, e potencial para a formação de estudante autônomo.
 

2 Introdução

Entende-se por Educação à Distância (EAD) todo tipo de transmissão/construção de conhecimento, que não é feita presencialmente, ou seja, com educandos e educador compartilhando do mesmo espaço físico (a sala de aula) e nos mesmos horários. A origem desta forma de educação remonta ao final do século XVIII. No entanto, somente a partir de meados do século passado (XIX) foi que esta modalidade de ensino ganhou mais força, quando era, então, feita preponderantemente através de cartas.

No século XX, várias tecnologias foram sendo incorporadas à esta modalidade de ensino. A começar com a consolidação do rádio, passou-se pelo uso da televisão, terminando com o advento do computador, da internet e da rede WWW. E é exatamente a internet e a rede WWW que estão, atualmente, promovendo uma verdadeira revolução nesta forma de educação, sobretudo por causa da diversidade de material que se pode encontrar, e do forte potencial de interação que se tem. No entanto, surgem alguns questionamentos também, acerca de como montar estes cursos, e tudo o que estaria a eles relacionado, como o ambiente virtual em que eles se desenrolam, o material disponibilizado, e a própria interação.

O presente trabalho é resultado de um curso 100% virtual, realizado por nove semanas (de 08/05 à 07/07/2000), com professores de crianças portadoras de necessidades especiais de todo o Brasil. Neste artigo, pretende-se analisar algumas ferramentas do ambiente virtual utilizado (TelEduc), explicitando pontos positivos e negativos delas, dentro da dinâmica de um curso à distância. Para melhor entender o contexto em que o trabalho foi realizado, nas próximas seções descreveremos as características gerais do curso, bem como os aspectos principais dos professores participantes.
 

3 Contextualizando o curso

O curso foi ministrado, a pedido do MEC (Ministério da Educação e do Desporto) e da FENAPAEs (Federação Nacional das APAEs), pelo Nied (Núcleo de Informática Aplicada à Educação - Unicamp) a 42 instituições de apoio a crianças com necessidades especiais (APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - e Fundações Pestalozzi), espalhadas por todas as cinco regiões geográficas do Brasil.

Este curso faz parte do projeto Proinesp (Projeto de Informática na Educação Especial), para montar nestas instituições, laboratórios de informática, e formar profissionais que possam trabalhar neles. O projeto como um todo, tem previsão de duração de 3 anos, e todas as instituições participantes têm um contrato com o MEC, no sentido de garantir aos professores inscritos, todas as condições necessárias para que eles possam realizar o curso da maneira requerida pela instituição que o ministra.
O Nied ficou responsável por ministrar um curso sobre o software educacional Logo (segundo etapa do projeto Proinesp), utilizando para tal, o ambiente (em desenvolvimento) de Educação à Distância, chamado TelEduc.

Nesta etapa ministrada pelo Nied, foram formadas sete turmas, cada qual com seis das 42 instituições participantes. De cada instituição participaram quatro professores, de modo que em cada turma tinha-se 24 "alunos". Tomou-se como estratégia do curso, deixar todos os quatro professores de uma mesma instituição juntos em uma mesma turma.

Foi pedida, a cada professor, uma dedicação de 20h semanais ao curso. Além disso, todos os professores fizeram, na primeira etapa do projeto Proinesp, um curso presencial sobre Word e Internet, nas suas próprias cidades de origem. Estes cursos foram terceirizados a diversas instituições de ensino de informática, sendo que não houve padronização no conteúdo ministrado.

Esta heterogeneidade quanto ao conhecimento de informática foi bastante acentuada: se em algumas turmas tinha-se professores com formação nesta área, também se tinha pessoas que nunca tinham interagido antes com o computador. Além disso, os professores participantes eram desde estudantes de pedagogia, até mestres em Educação Especial, e contavam desde 23, até cerca de 50 anos de idade. Ou seja, o grupo participante era bastante heterogêneo quanto à formação, à idade e ao conhecimento de informática.

Para acompanhar o curso, cada uma das sete turmas contou com três formadores: um professor e dois monitores. A dedicação de cada um deles seria, a princípio, de 10 horas semanais. No entanto, em média, nenhum deles se dedicou menos do que 15h por semana.

As análises e considerações que serão feitas daqui para diante, terão como base somente os grupos 4 (proinesp4) e 5 (proinesp5) deste curso. Além disso, quando se utilizarmos o termo professores, estaremos nos referindo aos professores das APAEs e Pestalozzis, que foram os alunos deste curso.

3.1 Conteúdo e Estrutura do Curso

A proposta principal do curso era a de se ensinar, aos professores participantes, o uso de Logo com crianças com necessidades especiais, utilizando-se o software SuperLogo, adaptado pelo Nied. As atividades eram sugeridas semanalmente, através da Agenda do Curso. Para a formação dos professores, o curso previa a abordagem dos conceitos básicos da linguagem (comandos na forma direta: pf, pt, pd, pinte,...), bem como a edição de procedimentos, utilizando subprocedimentos e parâmetros. Esta etapa durou da segunda à sexta semana do curso.

Após a familiarização dos professores com estes conceitos, partiu-se para atividades pedagógicas, onde os professores estruturavam, executavam e relatavam por escrito, através de documentos elaborados no Word (para os formadores) as atividades em Logo com alguma(s) criança(s) da instituição em que trabalhavam. Esta etapa durou da quarta à nona semana do curso.

Na sétima semana foi pedido para que os professores fizessem algumas pesquisas na Internet, utilizando sites de busca, para que eles pudessem analisar alguns sites sobre educação especial, caracterizando-os como bons ou não, explicando-nos o porquê.

Nas duas últimas semanas, a proposta era que os professores elaborassem um plano para a utilização do Logo com todos os alunos de sua instituição.

O papel dos formadores em todas estas etapas, era o de analisar o desenvolvimento das atividades realizadas pelos professores, sugerindo alterações pertinentes, e respondendo a todo tipo de dúvida e questionamento que porventura aparecesse. Além disso, cabia aos formadores/mediadores, analisar o andamento do curso, no sentido de alterar a agenda, negociar prazos e disponibilizar novos materiais (ou ferramentas do ambiente TelEduc) que colaborassem para o melhor entendimento de determinado conteúdo por parte dos professores participantes. 3.2 O Ambiente de Educação Virtual TelEduc Conforme citado, o meio pelo qual este curso foi ministrado foi a internet, utilizando-se, como base, o ambiente TelEduc. Este é um ambiente que está sendo desenvolvido pelo próprio Nied, e que é voltado para a realização de cursos virtuais, destinados à formação de professores.

As ferramentas, a estrutura, bem como diversas informações sobre o ambiente podem ser encontrados na própria página do TelEduc (http://hera.nied.unicamp.br/nied/tele_educ/index.htm ).

A seguir vamos explicar sucintamente, as ferramentas do ambiente que foram utilizadas nas duas turmas analisadas. Ä Informações Gerais: contém informações sobre o funcionamento do ambiente de cursos a distância (Estrutura do Ambiente) e sobre a metodologia e a organização do curso (Dinâmica de Curso).

Ä Agenda: é a página de entrada do curso com a programação do dia.

Ä Histórico: é a organização em ordem cronológica das atividades propostas na ferramenta "Agenda".

Ä Atividades: apresenta as atividades relacionadas ao conteúdo que está sendo abordado no curso.

Ä Material de apoio: apresenta informações úteis relacionadas ao conteúdo que está sendo abordado, subsidiando o desenvolvimento das atividades propostas.

Ä Leituras: apresenta artigos relacionados à temática do curso. Ä Parada obrigatória: contém atividades que visam desencadear reflexões e discussões entre os participantes ao longo do curso.

Ä Mural: espaço reservado para todos os participantes disponibilizarem informações consideradas relevantes no contexto do curso, como por exemplo chamadas de congressos e seminários, artigos, experiências com alunos etc.

Ä Grupos de Discussão: à medida que o curso se desenvolve naturalmente, surgem debates que poderão ser estendidos por meio do recurso "Grupos de Discussão". Esse recurso dá acesso a uma página que contém os tópicos de discussão naquele momento do andamento do curso, permitindo o acompanhamento da discussão através da visualização de forma estruturada das mensagens já enviadas, e a participação na mesma por meio do envio de mensagens.

Ä Bate-papo: permite uma conversa em tempo real entre os alunos do curso e os professores. Os horários de bate-papo com a presença dos formadores são marcados na "Agenda".

Ä Correio: consiste de um sistema de correio eletrônico que é interno do ambiente. Assim cada participante pode enviar e receber mensagens através deste correio.

Ä Portifólio: consiste de um diretório individual, onde os alunos armazenam suas atividades e qualquer tipo de arquivos, podendo compartilhar com os formadores, com todos os participantes do curso, ou com ninguém o acesso a cada um dos arquivos armazenados. Se o arquivo está compartilhado, ele pode ser comentado em um campo do próprio portifólio. Esta ferramenta é utilizada para os alunos disponibilizarem as suas atividades, e para os formadores comentá-las.

Ä Trocar senha: ao ser aceito para um curso, o aluno recebe por e-mail uma mensagem com uma senha e identificação de acesso. Essa senha pode ser trocada através do recurso Trocar senha.

Ä Perfil: todos os participantes de um curso preenchem um formulário com perguntas que constróem o perfil de cada um.

Ä Diário de Bordo: este recurso é um meio utilizado para facilitar a descrição e reflexão do processo de aprendizagem pelo qual o
aluno está passando.

No curso, a primeira das nove semanas foi destinada à análise e experimentação do ambiente por parte dos professores.
 

4 Interação, Reflexão e Estudante Autônomo

Nas análises que serão feitas nas seções seguintes, serão abordados três conceitos básicos que, ao que nos parece, são imprescindíveis no design de um curso à distância. Antes, no entanto, de utilizá-los, explicitaremos o que queremos dizer com cada um deles.

4.1 Interação

Entende-se por interação toda a troca (de conhecimento, impressões, sentimentos,...) realizadas entre duas ou mais pessoas. A interação não é algo de uma via, pois necessita do(s) outro(s), da sua presença, para ocorrer.

Segundo Vygotsky, o aprendizado é algo que está profundamente relacionado com o contexto sócio-cultural de cada indivíduo. Para ele, estas estruturas sócio-culturais da sociedade em que o indivíduo vive, vão sendo internalizadas com o passar do tempo, através das atividades que esta pessoa realiza.

Atividade seria qualquer conjunto de ações e operações, orientado segundo uma determinada motivação. Estas atividades teriam um papel dialético na relação subjetivo-objetivo, pois elas promoveriam uma mudança interna (atividade interna), ao mesmo tempo em que estariam mudando o mundo objetivo (atividade externa). No entanto, da mudança do mundo objetivo, adviria uma mudança nas motivações dos indivíduos, o que geraria novas atividades, que promoveriam novas mudanças, que gerariam novas atividades,...

Além disso, para a Teoria da Atividade, não pode existir atividade interna, sem, necessariamente, a existência da atividade externa. Ou seja, não pode haver aprendizado, se não há interação com o mundo objetivo.

Um outro conceito proposto por Vygotsky, é o da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Segundo ele, existiriam dois planos de conhecimento, dentre os quais estaria situada a ZDP. Estes planos seriam:

No entanto, conforme os novos conceitos vão sendo aprendidos (internalizados) o plano de desenvolvimento real vai se elevando, empurrando consigo o plano de desenvolvimento potencial e a ZDP.

Portanto, há a necessidade de existir um mediador. O mediador seria aquela pessoa que traria o conteúdo a ser aprendido para dentro da ZDP do aprendiz, de modo a ele de fato ter um aprendizado significativo. Além disso, o mediador deve estar atento para "motivar" seus alunos, no sentido trazer para próximo da realidade deles o conteúdo que se deseja ministrar. O mediador pode ser tanto o colega do curso, como o formador. Por isso, quer seja na discussão com os colegas de curso, quer seja com o formador, há necessidade de interação, de contradição entre idéias e atividades distintas, de modo que o aprendizado possa de fato ocorrer.

Percebe-se, então, que a interação é algo extremamente importante para o desenvolvimento de qualquer curso. Como em um curso à distância, o contato natural com os colegas e professores (formadores) na sala de aula não existe, as ferramentas do ambiente que se utiliza (a sala de aula virtual) deve permitir, da forma mais rica possível, esta troca.

4.2 Reflexão

A reflexão é parte fundamental neste processo de aprendizagem que se busca alcançar em qualquer curso (seja ele presencial ou virtual). É na reflexão que surgem os questionamentos, a sedimentação de um conhecimento prévio, ou a aquisição de novas formas de pensar.

Como se explicou na seção anterior, esta reflexão é uma das consequências da interação com colegas de curso e formadores. No entanto, como afirma Naidu (1997), "A reflexão lhe dá razão para entrar em contato com as outras pessoas.". Assim, segundo a sua proposta, algumas atividades práticas podem levar à reflexão e, como consequência, a um aumento na interação entre os estudantes de um curso.

Parece-nos razoável também que, independente da origem da reflexão, ela sempre seria fator propulsor para o contato com o outro. Desta forma, ferramentas que propiciam este tipo de ação, são extremamente positivas e desejáveis para um curso à distância. Isto porque, da reflexão adviria o contato, do contato, o questionamento, do questionamento, a reflexão e o aprendizado, da reflexão, o contato, do contato, o questionamento, ... . Ou seja, estar-se-ia em um ciclo virtuoso de aprendizado e crescimento para todos.

4.3 Estudante Autônomo

Por fim, um último aspecto profundamente importante para os cursos virtuais, e que será analisado neste artigo, é o conceito do estudante autônomo. Este, seria um estudante que sabe das suas limitações e potencialidades, dos seus horários e compromissos, que sabe o que precisa estudar, e onde, quando e como procurar ajuda.

Um estudante com estas características não é, normalmente, formado em nossos cursos presenciais regulares, mas no caso do curso à distância a sua necessidade é mais forte e imprescindível. O problema que se visualiza nesta forma de curso, é que, da falta daquele típico controle clássico: presença, pontualidade, trabalhos e provas (realizados de fato pelo aluno), pode ser extremamente prejudicial para um aluno dependente, indisciplinado com os seus estudos e não muito bem intencionado quanto a provas e trabalhos. Neste caso, ele não estaria aprendendo, e o pior, não haveria nenhuma forma de "pressão" que pudesse fazê-lo mudar de postura. E é exatamente pela fragilidade deste artifício pedagogicamente incorreto, mas universalmente utilizado da pressão, que surge a necessidade de se desenvolver aquelas características de independência, disciplina e responsabilidade nos alunos.

No entanto, o que parece ser considerado em diversos cursos virtuais, é que os alunos já possuem, a priori, estas características, de modo que a dinâmica do curso não deve sequer se preocupar com isto, que não parece ser problema dos formadores. Ron Oliver (1999) afirma que "Atualmente, esta forma de assistência ao aprendizado [à distância] é chamada de sistemas de andaimes, em reconhecimento à forma pela qual ela ajuda a construção do conhecimento, sendo então removida quando a construção do conhecimento ocorre. (...) A essência do sistema de andaimes é que a assistência e a ajuda são gradualmente reduzidas, conforme vai acontecendo o progresso do aprendizado até o ponto em que o aprendiz se torna finalmente apto de agir sozinho.".

Ou seja, em um curso virtual, há necessidade de se oferecer assistência e ajuda aos alunos, no sentido de eles construírem os conhecimentos que se pretende ensinar. No entanto, há também a necessidade de se desenvolver no aluno, as características de estudante autônomo, no mesmo sentido como o proposto por Oliver.

Desta forma, as ferramentas do ambiente em que o curso está se desenvolvendo devem ser de fácil entendimento e manuseio para os alunos, bem como devem (conforme for o caso) permitir e propiciar o desenvolvimento das características do tipo de estudante (autônomo) que se pretende formar.
 

5 Analisando as ferramentas do curso

Até aqui foi explicado o contexto do curso, a realidade em que ele se desenvolveu, e o embasamento teórico que se adotou. Agora, com base nos três conceitos abordados nas últimas três seções, serão analisadas algumas das ferramentas utilizadas nesta etapa do projeto Proinesp, com relação ao papel por elas desempenhado no curso, e à reação dos professores participantes.
As ferramentas podem ser divididas (artificialmente) em dois grupos:

Um ponto a ser ressaltado é que algumas ferramentas que estão no grupo das ferramentas de interação, também pertenceriam ao das ferramentas de informação, e vice-versa. No entanto, para este estudo, serão analisados somente os aspectos "ativos" (interação e reflexão) das ferramentas.

5.1 Atividades

Neste curso, as atividades foram a "força propulsora" de toda a dinâmica realizada, e de todo o conteúdo ministrado. Era a partir delas que se propunham leituras, reflexões e trocas, bem como se ensinavam os comandos necessários, para o caso da programação em Logo.

Com relação às atividades, pode-se dividir o curso em duas partes claramente distintas: a primeira vai até o final da terceira semana, onde somente são propostos exercícios de programação com o Logo; a segunda, começa a partir do início da quarta semana, quando são propostas atividades pedagógicas com as crianças.

Aliado às propostas de atividades (semanais) são disponibilizados materiais que subsidiariam a realização delas. Estes materiais encontram-se na ferramenta Material de Apoio e, ao menos à princípio, seriam o suficiente para que os professores conseguissem realizar todas as atividades requeridas.

O que se percebeu foi que, na primeira etapa, enquanto eram propostas somente atividades de programação, houve uma certa apatia do grupo. Os alunos pouco interagiam entre si, e as dúvidas eram direcionadas e respondidas quase que exclusivamente pelos formadores. Diversos alunos reclamaram do excesso de atividades (durante todo o curso) a fazer, e da complexidade envolvida nelas:

Talvez a dificuldade do curso, para pessoas que tinham pouco (ou nenhum) contato com o computador, tenha sido um pouco alta neste início. Houve, por conta disso, diversas reações de descrédito quanto à aplicação do Logo na Educação Especial (que era o foco central do curso): No entanto, na quarta semana, quando se iniciaram as atividades pedagógicas, o espírito dos alunos começou a se alterar, justamente porque, como propõe Naidu, a realização de atividades práticas, relacionadas com a realidade dos alunos (no caso, os professores participantes), os faz refletir melhor e, com isso, aumenta a interação entre eles. Por conta deste "fenômeno", os professores começaram a se questionar quanto à própria postura pedagógica, e começaram a trocar experiências entre si, o que gerou um grande amadurecimento para todos.

Abaixo, à pergunta de A.L., R. responde, e I. acrescenta:

A.L.: "Lendo algumas discussões, me reportei para minha prática na Pestalozzi. Explicando melhor: temos alguns alunos com quem eu não vejo a possibilidade de trabalho com o Logo. Por exemplo a R. tem uma aluna que não pára um segundo, ela anda o tempo inteiro. Neste um ano e meio que estou na Instituição, eu não vi a menina sentar, nem para comer. Tem também um aluno com o motor, o visual e o intelectual super comprometido. Nestes casos eu não consigo ver nenhum trabalho com o Logo no computador. Fora do computador, tentando criar um ambiente de aprendizado Logo, aí pode ser. O que vocês acham?"

R.: "Acredito que o ponto levantado por minha colega A.L. é consideravelmente minha maior preocupação. Meu grupo é composto por crianças consideradas deficientes mentais "graves", e infelizmente não reconhecem número, letras e sequer dão função aos objetos. Sendo assim, não visualizo um trabalho com o Logo, nem sequer fora do computador!!!"

I.: "Na nossa escola torna-se fácil trabalharmos com o logo, para alguns alunos que são quase alfabetizados. Uns conhecem letras, palavras, números e cores, enquanto outros não conhecem nada, apresentando inúmeras dificuldades. Nosso trabalho é diversificado."

No entanto, esta interação, apesar de ter existido, foi muito mais forte entre os professores da mesma instituição (que se encontravam presencialmente), e entre eles e os formadores. Muitos professores não se abriram muito para o diálogo com os seus colegas de outras instituições. Isto talvez tenha sido consequência da postura adotada pelos formadores no início do curso, que priorizaram a troca entre os professores e eles próprios, não incentivando tanto a troca entre os próprios professores.

Como consequência, houve um grande acúmulo de trabalho para os formadores, e muitos professores que buscaram mais fortemente esta interação com os seus colegas, não conseguiram realizar isto tão bem quanto desejavam. O que nos fica, portanto, é que este tipo de interação deveria ter sido mais aproveitado, utilizando-se as próprias atividades para isto. Talvez, se os professores de uma instituição comentassem as atividades dos seus pares de outra instituição, esta interação pudesse ter acontecido melhor.

No que diz respeito à formação das características desejáveis para um estudante autônomo, as atividades propostas, e o esquema exposto permitiam aos alunos realizarem aquilo que era solicitado, e, no caso de dúvidas, entrar em contato com os formadores. No entanto, em vários casos os alunos sequer liam o Material de Apoio antes de realizar as atividades. Por conta disso, várias perguntas dirigidas aos formadores estavam explicita e claramente explicadas nestes materiais, mas foram explicadas outra vez.

Talvez neste ponto, a melhor postura fosse orientar o aluno (no caso, os professores) a procurarem o material em que a dúvida dele poderia ser explicada, e lê-lo. No entanto, temia-se que, com isso, fosse criado um clima não muito amistoso entre professores e formadores, o que poderia afastá-los do curso. De qualquer forma, ao que nos parece, as atividades não foram utilizadas em toda a sua potencialidade, no sentido de se formar as características de estudante autônomo nos professores participantes. Houve vários aspectos positivos, como a disponibilização de material e indicação de livros e artigos, mas, ao final do curso, muitos professores ainda se mostravam muito dependentes dos formadores, e ainda não tinham uma visão global do curso.

5.2 Leituras, Parada Obrigatória e Mural

Como apoio às atividades propostas, além do Material de Apoio, que deveria servir como um guia dos principais passos a serem dados (ensinando comandos do Logo, ou dando orientações para as atividades pedagógicas), também foram utilizadas três outras ferramentas: Leituras, Parada Obrigatória e Mural. Mas na prática, nenhuma delas foi amplamente utilizada, sobretudo porque parecia haver um excesso de informações.

A Parada Obrigatória tinha como objetivo dar orientações a dúvidas que pareciam ser generalizadas, oferecendo algumas sugestões e, por vezes, disponibilizando soluções executadas por alguns dos próprios alunos. Lá eram colocados alguns exercícios resolvidos, e alguns procedimentos importantes para a programação no Logo. A proposta era que os alunos consultassem esta ferramenta, sempre que tivessem alguma dúvida relativa a algum dos temas lá tratados. Todos os alunos eram avisados da inclusão de algum novo tema, através de um e-mail endereçado a todos eles.

No Mural, existia um espaço aberto para os alunos, que poderiam disponibilizar, para todos os seus companheiros (e formadores), textos, sites, artigos, ..., que julgasse pertinente. Este espaço foi muito pouco utilizado, talvez porque os alunos ainda não tivessem muita segurança no assunto para propor referências. Outras possibilidades para esta subutilização seria a falta de tempo e/ou de disposição para interagir com os outros colegas.

Nas leituras, objetivava-se oferecer referências teóricas para o trabalho desempenhado por (e proposto para) os professores com as suas crianças. No entanto, estas leituras, algumas vezes, trouxeram mais confusão do que ajuda, talvez por causa do perfil acadêmico delas, que não encontrava eco no público a que foram disponibilizadas.

Em todas estas três ferramentas, havia grande possibilidade de desenvolvimento das três características básicas que propusemos analisar: interação, reflexão e formação de estudante autônomo. Em todas elas, os professores eram chamados a refletir a sua prática, seja através da comparação com soluções/sugestões propostas na Parada Obrigatória; seja através da análise das referências disponibilizadas no Mural; ou através das leituras disponibilizadas. Desta reflexão adviria, como já exposto, uma maior interação entre os demais participantes do curso, o que aconteceu, em uma escala reduzida, sobretudo com relação às leituras. Por fim, da exposição a toda esta multiplicidade de materiais, os alunos aumentariam o seu leque de referências, possibilitando-lhes ter maior independência dos formadores, uma vez que já disporiam de material e reflexões suficientes para ir progredindo no seu trabalho, e para ir buscando (ou pedindo) novas referências.

Para uma melhor utilização destas ferramentas, e dos seus diversos potenciais, teria sido imprescindível considerarem-se algumas características importantes do grupo de pessoas a que o curso foi destinado, tal como o perfil não-acadêmico da maioria destes professores (o que prejudicou o entendimento das leituras propostas). Além disso, a agenda estava por demais apertada, e os professores, por demais afastados uns dos outros.

5.3 Bate-Papo, Correio, Grupos de Discussão e Perfil

Para possibilitar a maior interação dos professores entre si, e entre eles e os formadores, foram utilizadas quatro ferramentas: Bate-Papo, Correio, Grupos de Discussão e Perfil. Em todas elas, o que se objetivava era a troca de idéias, dúvidas, sugestões, reclamações,... .

Com o Bate-Papo, o objetivo era o estabelecimento de uma interação mais imediata e próxima. Neste Bate-Papo não havia disponibilidade de recursos de áudio nem de vídeo. A princípio, existia um tema, que deveria guiar as discussões do grupo. Mas o que se percebeu foi, que na maioria das vezes, as discussões eram bem diferentes daquelas que se planejara. Percebeu-se um grande interesse nos professores de se conhecerem melhor, e várias vezes houve propostas de se agendar um encontro presencial entre todos os participantes.

Ao que nos parece, houve grande proveito desta ferramenta, no que diz respeito ao contato e à interação entre os professores. Eles próprios gostavam muito destes momentos. No entanto, houve sérios problemas técnicos em diversas instituições, o que impossibilitou a participação de seus professores em vários destes encontros.

O Correio foi a ferramenta que melhor foi usada. Isto talvez seja porque quase todos os professores já estavam acostumados com e-mails convencionais. Os formadores não têm controle sobre os e-mails trocados entre os próprios professores, mas na comunicação dos professores com os formadores, este foi o meio mais empregado. Neste sentido, ao que nos parece, ela cumpriu bem o seu papel de facilitar a interação.

Os Grupos de Discussão seriam locais de interação entre os participantes do curso, e de reflexão. Estes dois objetivos foram alcançados, mas não se pode dizer que isto aconteceu em todas as mensagens escritas. No entanto, um problema que se percebeu foi que, quando havia muitas mensagens, demorava muito tempo para se conseguir carregá-las do servidor. Isto talvez tenha inibido a participação de muitos professores nesta ferramenta. Apesar disso, diversas discussões e reflexões que surgiram daí foram extremamente positivas e úteis para todos. A quarta ferramenta, o Perfil, tinha como objetivo uma apresentação de cada professor, onde ele deveria explicitar algumas de suas características pessoais e profissionais. Em todas as turmas, o preenchimento do perfil foi a primeira atividade pedida aos professores. No entanto, a maioria destes perfis ficaram incompletos e, a despeito de orientações dadas pelos formadores, para que os professores acrescentassem algumas informações, isto nem sempre foi feito. Ao que parece, os professores deram pouca importância a esta ferramenta, o que, aliado à falta de tempo que se percebeu sobretudo no início do curso, fez com que este recurso tenha sido muito pouco utilizado. Neste sentido, o potencial de suscitar uma forte interação entre os professores, não foi alcançado.

5.4 Diário de Bordo e Portifólio

Por fim, Diário de Bordo e Portifólio foram duas ferramentas usadas mais fortemente para a interação entre os professores e os formadores.

No Diário de Bordo, o acesso era restrito aos autores dos relatos e formadores somente. O que se pretendia era que os professores utilizassem este espaço para fazerem reflexões pessoais que talvez não se sentissem a vontade de fazer para todos os demais professores. O que se percebeu, no entanto, foi que esta ferramenta foi muito pouco utilizada. Na maioria dos casos, os professores escreviam o relato do que tinham feito na semana, mas não refletiam sobre estas atividades. Muitos deles disseram que não tinham muito tempo e que, portanto, não podiam dar muita atenção a esta ferramenta.

Já o Portifólio seria uma ferramenta em que os professores disponibilizariam as suas atividades, compartilhando-as, para serem comentadas, com os formadores, com todos os participantes do curso, ou com ninguém. A princípio, a maioria dos professores compartilhavam as atividades unicamente com os formadores. No entanto, com o tempo, e com o incentivo dado, eles começaram a compartilhar também com os outros professores.

Apesar disso, poucos foram os professores que comentaram os portifólios de seus colegas, apesar de várias pessoas manifestaram o interesse que outras professores comentassem os seus portifólios:

"Gostaria de ver comentários variados nos meus portifólios, porque cada um tem uma visão diferente de cada atividade e se uma pessoa só der sugestão, fica um pouco restrito."

Mas poucos foram os casos em que isto aconteceu. Com isso, gerou-se uma sobrecarga de atividades para os formadores, de modo que, na maioria das vezes, somente um formador comentava cada atividade compartilhada. Neste sentido, o comentário transcrito acima, também se aplica à prática adotada pelos formadores.
 

6 Conclusão

O resultado final do curso foi muito positivo, uma vez que a maioria dos professores conseguiu atingir o ponto que se planejava, quando da elaboração deste módulo. No entanto, percebe-se, no uso de todas as ferramentas pelos professores, o excesso de importância que eles associaram à entrega de todas as atividades propostas, fazendo com que eles pouco refletissem sobre as atividades que estavam realizando. Por conta disso, boa parte das ferramentas do ambiente TelEduc foram subutilizadas.

Esta postura começou a mudar quando do início das atividades pedagógicas, que passaram a suscitar uma maior reflexão por parte dos professores. No entanto, a participação deles em diversas ferramentas, como os Grupos de Discussão e o Diário de Bordo, que teria sido muito útil para a reflexão de suas práticas, continuou aquém do que se planejava.

Também concorreu para este pouco aproveitamento de diversas ferramentas, o fato de boa parte dos professores não ter muita experiência no trato com o computador. Por conta disso, apesar de ter havido um período para que eles explorassem o ambiente TelEduc, os professores se mostraram, ao menos no início, inseguros.

O curso, como explicado nas seções anteriores, conseguiu, em diversas ocasiões, promover reflexão, interação e construção (nos professores) das características de estudante autônomo. A limitação de tempo e o excesso de atividades, prejudicou um pouco o processo, mas, no geral, não comprometeu o objetivo do curso. Para uma próxima oportunidade, deve-se dar mais ênfase à reflexão, e à interação entre os alunos. A formação do estudante autônomo, que é, por excelência, um aluno com aguçado espírito crítico e reflexivo, aconteceria como consequência disso.

O que se nota também, como resultado destas análises, é que o uso que se pode fazer das diversas ferramentas que um ambiente dispõe, varia de acordo com o público alvo a que este curso é destinado. Neste sentido, a despeito de ser bem estruturado ou não o ambiente em que um curso virtual vai ser desenvolvido, deve-se ter muito cuidado, quando da preparação deste curso, para que as ferramentas que forem utilizadas, o sejam da melhor maneira possível. E esta "maneira" varia de "público" para "público".
 

7 Referências Bibliográficas