Comunicar Para Aprender, Aprender Para Comunicar: Ambientes de Aprendizagem Telemáticos como Alternativa. 


 


Dra. Lucila Maria Costi Santarosa

CENTRO DE INFORMATICA NA EDUCAÇAO 

Rua Paulo Gama, 110 - 8.andar/Sala 807 90046-900 - Porto Alegre - RS - BRASIL 

FAX: 55.51.2254932 FONE: 3163269 

Mail:lucila@cesup.ufrgs.br 

Introdução 

No limear do século XXI estamos assistindo a uma sociedade regida pela informação. Se até aqui o importante era o controle e a detenção da informação, agora ressalta-se um outro aspecto que diz respeito à atualização e à rapidez com que se processa a criação e troca de informação. Dessa forma, estamos diante de um dos media-suporte, a Telemática. A associação da Informática com as telecomunicações vem transformando o mundo numa aldeia global e mudando o próprio conceito de sociedade. Caminhamos para novos conceitos e valores em conotações que aparecem como "países sem fronteiras"; "democratização da informação"; "socialização do conhecimento", pela comunicação e acesso à informação que vem se processando, o que passou a ser chamado de "cultura telemática". Nesse sentido, ampliam-se também as conotações de instituições de ensino para as dimensões de "escola virtual", "sala de aula virtual", "centros educativos virtuais", abrindo inúmeras possibilidades educacionais, inclusive a indivíduos que não tem possibilidades de estarem fisicamente integrados ao contexto escolar. Isso abre uma perspectiva ímpar para os portadores de deficiências. A importância que assumem essas tecnologias no âmbito da educação especial já vem sendo destacada como a parte da educação que está e estará mais sendo afetada pelos avanços e aplicações que vem ocorrendo nessa área para atender necessidades específicas, face às limitações de pessoas no âmbito mental, físico-sensorial e motoras com repercussões nas dimensões sócio-afetivas. Prosseguindo nossos estudos, que envolvem o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação Especial, focalizamos o potencial das redes telemáticas, na perspectiva do aprender a comunicar e comunicar para aprender, realizando agora investigações das possibilidades de uso desses meios no processo de comunicação entre crianças e jovens portadores de deficiência. No ciberespaço e na metáfora de "janelas para o mundo", estruturamos um ambiente de aprendizagem telemático criando recursos e interfaces (intervenção) para a comunicação/desenvolvimento entre esses usuários de diferentes países e dentro do país, através do intercâmbio de informações, diálogos, trocas, discussões sobre temas de interesse, produção de materiais cooperativos, entre outros, visando fundamentalmente, o desenvolvimento da competência lingüística na comunicação escrita. A possibilidade que a INTERNET abre de criar a "sala de aula virtual"ou a "escola virtual", possibilita romper com o isolamento daqueles que, por barreiras arquitetônicas, físicas e sociais, são obrigados a interromper sua formação escolar por não existirem escolas especializadas que possibilitem dar continuidade ao seu crescimento pessoal e profissional, transformando-os em membros integrados e produtivos na sociedade. Além disso, essa barreiras podem bloquear a possibilidade de ter acesso a informação de forma interativa. Focalizaremos essa apresentação, trazendo a experiência desenvolvida com crianças e jovens surdos, dando ênfase ao processo de interação/comunicação que focaliza a troca/intercâmbio de informações, a produção textual de forma cooperativa. Assim, desenvolvemos esta investigação tendo presente os objetivos que se seguem.

Objetivos do Estudo 

1. Estudar as possibilidades de uso de meios telemáticos, particularmente o correio eletrônico, no processo de comunicação e interação entre crianças e jovens surdos. 

2. Desenvolver alternativas de interação/ comunicação e acesso à informação oportunizando o intercâmbio e troca de mensagens entre surdos dentro e fora do, visando a produção de materiais cooperativos em ambientes de aprendizagem telemático.

3. Desenvolver estratégias de intervenção na área da linguagem verbal escrita, sobre as dificuldades de comunicação dos surdos. 

4. Observar e avaliar os efeitos do ambiente de aprendizagem telemático no processo de interação /comunicação e produção de informação dos surdos.

Metodologia 

O estudo desenvolveu-se envolvendo nove alunos surdos provenientes de diferentes escolas e instituições de surdos de Porto Alegre, na faixa etária de 9 a 24 anos de idade. Foi feito um acompanhamento com registro das observações durante 18 meses de trabalho, período no qual os alunos compareciam uma vez por semana ao laboratório, permanecendo durante três horas. As atividades envolviam acesso à INTERNET, inicialmente em ambiente texto pelo sistema TELIX e , porteriormente, através de ambiente gráfico NETSCAPE. Alem do acesso à informação propiciado pelos sistemas acima referidos, foi dada ênfase as estratégias de produção textual envolvendo basicamente: 

Correio Eletrônico - troca de mensagens com amigos virtuais , portadores ou não de perda auditiva, no país e no exterior; Jornal Telemático - criação de um jornal reunindo textos do cotidiano elaborados pelos sujeitos do projeto; Livro de Histórias - elaboração de um livro interativo composto de histórias interativas feitas em conjunto com sujeitos portadores de necessidades educativas especiais de Portugal. Essas histórias eram iniciadas por um sujeito (do Brasil ou de Portugal) e finalizados por outros. 

Neste sentido, foram trabalhadas estratégias de apoio lingüístico no que tange a aspectos de expressão e de conteúdo. 

- No plano da expressão,visando fornecer subsídios para o domínio da língua escrita, foram desenvolvidas propostas de intervenção relacionadas à:

correção ortográfica - destaque à palavra incorreta e verificação do problema existente; dificuldade lexical - atividades de reformulação do emprego de palavras utilizadas incorretamente no texto; estrutura frasal - atividades que envolvessem o emprego das formas verbais (como SER e ESTAR) e a ordem direta dos elementos da frase; emprego da preposição - atividades de preenchimento de espaços envolvendo o uso adequado da preposição;

- No plano do conteúdo, foram trabalhadas as propostas de interação de cunho: 

descritivo: - referência do cotidiano (texto sobre a vida diária); - resposta às mensagens recebidas. narrativo: - criação de histórias interativas elaboradas por dois sujeitos distintos. dissertativo: textos jornalísticos sobre, entre outros, ecologia, esportes e troca de experiências. 

Resultados

Destacamos de forma sintetizada, através de gráficos, o crescimento do grupo, em algumas áreas da expressão e do conteúdo, o que ocorreu ao longo do acompanhamento dos alunos, com recortes em momentos de avaliações realizadas para o planejamento de estratégias de intervenção. Assim, na área da expressão na estrutura frasal e morfológica, substancia gráfica e modo de organização/léxico, bem como na área de conteúdo na estrutura narrativa e comunicativa e no grau de coerência, observamos pelas médias gerais de pontuação do grupo de alunos:
 



 


Em todos os itens relacionados à estrutura frasal (Fig.1) podemos observar o crescimento gradativo do grupo de alunos, embora em níveis ainda abaixo de 3 na escala de avaliação adotada, cujo máximo era 5 pontos.Destacam-se maiores saltos, contrastando a primeira com a terceira avaliação, nos itens emprego de pronomes demonstrativos; concordância verbal e nominal; a colocação de pronomes e emprego de conjunções. Na estrutura morfológica (Fig.2), em todos os itens ocorreram melhorias de expressão, com exceção de flexão nominal de grau. Destacam-se maiores saltos qualitativos na desinência verbal de pessoa de número e de tempo, bem como no emprego de preposições. No grau de correção (Fig.3) também ocorreu também ocorreu crescimento em todos os itens, observando-se maiores saltos qualitativos na pontuação, seguindo-se a acentuação e a ortografia. O mesmo ocorreu com relação ao grau de complexidade (Fig.4) no modo de organização da expressão e ao grau de adequação e riqueza vocabular, evidenciando-se maiores saltos nesta ultima. Na área do conteúdo, destacamos o crescimento em todos os itens referentes à estrutura narrativa (Fig.5) , mantendo-se nos níveis de percurso da ação. Observamos oscilações na estrutura comunicativa relacionada a força ilocutória, possivelmente mais complexa para os sujeitos surdos, mantendo-se em níveis de interpelação. No grau de coerência (Fig.6), em todos os itens, evidenciou-se crescimento com maiores saltos na expressa temporal e espacial. Considerações Finais Com base nos resultados evidenciados, concluímos o estudo ressaltando a importância dos meios telemáticos no desenvolvimento da comunicação/expressão dos surdos. Como síntese dos resultados, podemos apontar os avanços alcançados.

Assim, no plano lingüístico os alunos: 

atingiram um nível satisfatório de expressão escrita na medida em que conseguem produzir textos escritos dentro de um melhor padrão de comunicação. Apresentam textos mais coerentes e com relativo domínio de coesão. apresentam maior conhecimento da estrutura frasal, o que envolve: elementos constituintes e sua ordem; tempo verbal; pronomes advérbios; concordância verbal e nominal; regência verbal e nominal (emprego de preposições); pontuação. 

Destacamos também que no plano cognitivo, os alunos: 

demonstraram um crescimento nas relações interpessoais, trocando conhecimentos e experiências; conseguiram expressar sentimentos e sensações, de forma escrita; apresentaram maior autonomia, iniciativa e autoconfiança. 

Associado aos aspectos cognitivos, acima referidos, na dismensão sócio-afetiva, os alunos: 

atingiram um nível de maior de compreensão nas mensagens escritas. conseguem interpretar as idéias apresentadas nos textos. conseguiram descentrar as aquisições, com vistas a voltar-se para o outro. atingiram o nível de retroação na medida em que conseguem identificar falhas e procuram superá-las. conseguiram realizar um maior número de associações, inferências e antecipações. 

Essas colocações resumem de forma bastante breve o desenvolvimento dos surdos no processo de interação/comunicação no ambiente telemático e suas possibilidades de crescimento/desenvolvimento nas dimensões analisadas. Acima de tudo,revelam a importância de construir meios alternativos e espaços de desenvolvimento da comunicação/expressão que favorecem as dimensões cognitivas e sócio- afetivas desse tipo de usuário. Além da tentativa de amenizar a discriminação existente com portadores de deficiência, ainda bastante presente na sociedade atual, principalmente em países de 3o mundo, buscamos construir alternativas que podem se efetivar em "escolas ou salas de aula virtuais", que ofereçam um espaço de interação com o outro e acesso à informação como "janelas para o mundo", visando sua auto-formação e maior utilização no contexto de nossa sociedade.

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