O Computador como Tecnologia de Apoio ao Desenvolvimento da Literacia (Leitura/Escrita) em Crianças com Incapacidades Neuromotoras Graves

Luis Azevedo, & Margarida Nunes da Ponte

Centro Análise e Processamento Sinais COMPLEXO I/IST

Av. Rovisco Pais - 1096 Lisboa PORTUGAL

Fax: +351-1-352 3014

email:pclma@alfa.ist.utl.pt

Resumo

Esta apresentação tem como objectivo principal realçar o papel que as Tecnologias de Apoio - nomeadamente os computadores - podem desempenhar ao permitir que crianças gravemente afectadas do ponto de vista motor e sem comunicação vocal, possam participar activamente nas actividades pedagógicas do Jardim de Infância onde estão integradas. Com um grupo de crianças, de idades compreendidas entre os 3 e os 6 anos de idade e frequentadoras de uma classe de jardim de infância do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian em Lisboa, foi desenvolvido um projecto de investigação, com o propósito de analisar como as Tecnologias de Apoio, ao permitirem uma participação activa daquelas crianças durante actividades relacionadas com a leitura de histórias, podem promover a aquisição das primeiras etapas de desenvolvimento da literacia. Durante este estudo foi dada uma especial importância à utilização de histórias infantis e à criação de estratégias educativas que promovam uma interacção comunicativa, assim como o desenvolvimento da linguagem e de competências de leitura/escrita. Uma grande diversidade de materiais foram criados, fazendo uso de símbolos gráficos para a Communicação Alternativa e Aumentativa (AAC). Com o principal objectivo de apoiar o desenvolvimento das primeiras etapas da literacia nestas crianças portadoras de deficiência grave, foi criada uma aplicação multimedia, baseada no Sistema Autor HyperStudioª. Através desta aplicação, e baseando-se num livro de histórias infantil adequado aos objectivos pedagógicos relevantes para este grupo de alunos, a história ÒO Porquinho MalandroÓ está apta a ser ÒlidaÓ ou ÒmanipuladaÓ por aqueles utilizadores, através da utilização de um computador, que pode ser acedido através do uso de qualquer tipo de interface comercialmente existente (manípulos, teclados de conceitos, écran táctil, emuladores de teclados, etc.)

1. Introdução

A Comunicação é um processo complexo de transferência de informação, utilizada pelo indivíduo com o objectivo de influenciar o comportamento dos que o rodeiam. O objectivo da Comunicação é pois o de compartilhar informação, exprimir desejos e necessidades, etc. A Comunicação é um processo contínuo que ocorre num ambiente natural e durante as actividades do dia a dia. Esta pode ser completada utilizando diversos meios (ou modos), tais como a fala, os gestos, as acções, as expressões faciais, a orientação corporal, o apontar, desenhos, símbolos ou palavras. A Fala é o meio de comunicação mais comum entre os seres humanos. No entanto, nem todas as pessoas são capazes de falar ou de utilizarem a fala de modo a serem compreendidos. Este é o caso das crianças que frequentam a Sala de Jardim Infantil do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral de Lisboa, com idades entre os 3 e os 6 anos, portadoras de deficiência motora grave. Estas crianças estão impossibilitadas de falar ou de escrever, devido à sua incapacidade neuromotora originada pela Paralisia Cerebral de que são portadoras. A comunicação falada não é assim uma forma directa ou normal de exprimirem os seus pensamentos e sentimentos, e consequentemente utilizam a Comunicação Alternativa como principal meio de comunicação. A Comunicação Alternativa refere-se a todo o tipo de comunicação suplementar ou de suporte, especialmente baseada em símbolos gráficos e em tecnologias de apoio (nomeadamente os computadores e as interfaces específicas) de suporte ao processo de comunicação. Os computadores, com o adequado software, tiveram um papel importante na investigação aqui reportada, dado terem possibilitado àquelas crianças a ultrapassagem da maior parte das suas incapacidades, tornando-as activamente participativas nas actividades curriculares.

2. A Importância da Literacia

As dificuldades de aprendizagem apresentadas por crianças utilizadoras de sistemas AAC, têm sido largamente observadas e documentadas. Mais do que qualquer outra capacidade, a capacidade de ler e escrever, ou seja a literacia, é pois considerada como sendo criticamente importante para a pessoa impossibilitada de falar [1]. Sem esta capacidade, o uso da linguagem torna-se muito restrito, deixando de lado algumas oportunidades educativas ou vocacionais. No caso de usuários da comunicação aumentativa, ler e escrever pode tornar-se um meio para ultrapassar muitas das limitações graves que estas pessoas vivenciam nas suas interacções do dia a dia.

Quando a criança está imersa em modelos de linguagem, que incluem prácticas tais como um ambiente adaptado ao uso da comunicação simbólica e a uma Òestimulação da linguagem com ajudaÓ, ela é encorajada a comunicar interactivamente, promovendo tanto a comunicação verbal como a não verbal, estabelecendo as bases do desenvolvimento da literacia [2].

3. A Adaptação do Contexto

A classe de jardim de infância que as crianças referidas neste trabalho frequentam, foi completamente adaptada e equipada com símbolos gráficos que podem ser visualizados por todo o lado. As paredes têm imagens, símbolos do Sistema SPC (Símbolos Pictográficos para a Comunicação) e palavras escritas. As crianças são constantementre encorajadas a reconhecer o seu próprio nome (escrito) em quadros de parede, assim como o dos seus colegas e o dos técnicos que com elas trabalham, referenciando-os com as suas fotografias pessoais e o respectivo símbolo. Cada criança tem o seu mapa de comunicação individual, que inclui instruções relacionadas com o seu modo de comunicar assim como instruções de como pode ser utilizado por interlocutores menos experientes com o sistema. Todos os tabuleiros de comunicação foram desenhados de modo a permitir que aquelas crianças fossem capazes de os utilizar com sucesso, promovendo uma interacção entre a criança e os seus parceiros (que incluem tanto os familiares adultos, acostumados ou não com o uso da Comunicação Aumentativa e/ou os seus pares utilizadores do mesmo sistema de comunicação).

Todas os utilizadores têm, para além do seu mapa individual de comunicação, uma interface de acesso à tecnologia. A escolha desta interface assim como da posição em que é colocada, é feita de acordo com as capacidades motoras específicas de cada utilizador, permitindo que possam participar em todas as actividades curriculares, dado o facto do uso das tecnologias eser parte integrante do processo de ensino/aprendizagem. A maior parte destas crianças usam um manípulo actuado pela cabeça, com o qual acedem a qualquer tipo de tecnologias existente na sala de aula. Assim, por activação desse manípulo, elas podem brincar com brinquedos a pilhas adaptados, usar digitalizadores de fala, scanners, computadores, etc.

Os computadores representam um papel muito importante, como suporte para ultrapassar os principais obstáculos ao processo de comunicação de crianças gravemente afectadas do ponto de vista motor e de comunicação. Na classe encontram-se sempre disponíveis computadores Macintosh LC com respectivas impressoras. A utilização da interface comercialmente designada por Ke:nx®, permitiu o adequado ajuste às graves incapacidades motoras dos utilizadores, facilitando uma ligação entre as crianças gravemente afectadas do ponto de vista motor, e as suas experiências de interacção e de aprendizagem diárias.

4. Descrição do Software Desenvolvido

Estas crianças são envolvidas diariamente em actividades que favorecem o desenvolvimento das primeiras etapas de aquisição da literacia de uma forma espontanêa e sempre de uma forma interactiva. Para cada actividade são específicamente desenvolvidos mapas de comunicação com símbolos contendo o vocabulário necessário e relacionado directamente com essa actividade. Estes mapas são desenhados de forma a permitirem o acesso (a selecção dos símbolos) através do uso de diferentes modos de selecção.

A leitura de histórias é considerada como actividade fundamental durante o dia da criança. Como tal, estão disponíveis diferentes materiais desenvolvidos para cada história, de forma a permitir a participação activa durante a leitura da história, ou outras actividades com ela relacionadas como o recontar, discutir ou recriar sobre a história, utilizando tecnologias de apoio e símbolos gráficos para a Comunicação. Com este objectivo presente, foi desenvolvido um software que permitiu o desenvolvimento de determinadas capacidades de linguagem, fazendo uso de símbolos gráficos de comunicação, e tendo como linha de orientação principal os objectivos pedagógicos do programa educativo.

Como consequência, foi criada uma aplicação multimedia fazendo uso do Sistema Autor "HyperStudio" [3]. Um livro de histórias infantil "O Porquinho Malandro", considerado como tendo os parâmetros educativos adequados ao programa, tornou-se acessivel às crianças participantes neste Projecto através do Sistema Hyperstudioª. Cada página do livro, é apresentada ao utilizador no écran do computador, que sobre este tem o controle absoluto (virando as páginas, lendo, etc.) através do uso de ferramentas incorporadas no software. Quando o utilisador vira a folha do livro, ocorre uma animação relacionada com a presente página da história. Seguidamente, o texto relacionado com o acontecimento principal dessa página é visualisado na parte inferior do écran. Esse texto é ÒlidoÓ em voz alta (através de voz digitalizada) e é apresentado não só em forma de escrita por alfabeto, mas também em forma de escrita por símbolos gráficos (SPC-Símbolos Pictográficos de Comunicação), tal como é ilustrado na seguinte figura:

De acordo com escolhas préviamente definidas pelo professor, a descrição da história pode ser apresentada em forma visual de texto escrito e/ou símbolos gráficos, e em forma auditiva utilisando voz digitalizada. No écran estão disponíveis diversos pontos interactivos, permitindo ao seu utilisador accioná-los e obter não só animações como acesso a clips de video, sons divertidos, etc, todos relacionados com a página do livro presente no écran. No caso das crianças com dificuldades motoras graves, o software desenvolvido incorpora ferramentas que permitem a utilisação de diversas formas de acesso: varrimento (com velocidade pré estabelecida pelo professor), utilização de teclado de conceitos, ecran táctil, emuladores de teclado, ou seja, qualquer forma de acesso que seja adequada às dificuldades motoras do utilisador.

Este software está neste momento em fase de aperfeiçoamento, de forma a permitir para além de tudo o anteriormente referido, a possibilidade de criação de novas histórias de uma forma fácil e simples, promovendo a aprendizagem da leitura e escrita em crianças com deficiências neuromotoras graves e sem comunicação vocal.

5. Bibliografia

[1] BLACKSTONE, S., ÒThe 3 R´s Reading, Writing and ReasoningÓ, in ACN, Vol. 2, no1, 1989.

[2] GOOSSENSÕ, C., CRAIN, S., & ELDER, P., in ÒEngineering The Preschool Environment for Interactive, Symbolic CommunicationÓ, ed. Southeast Augmentative Communication Conference Publications, 1992.

[3] HYPERSTUDIO, Roger Wagner Publishing, Inc.

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